Dez minutos depois da decolagem, o barulho foi de explosão. O Boeing 737-800 da Ryanair, 18 anos de uso, fizera o trajeto Tessalônica–Memmingen dezenas de vezes. Naquela sexta-feira, 10 de julho, algo no motor direito se partiu. Fragmentos voaram contra a fuselagem e estilhaçaram a janela ao lado do assento de Ljubisa Karović, 61 anos. A cabine despressurizou num estalo, e o corpo dele foi sugado para fora — cabeça, ombros, peito, metade do torso pendendo no ar rarefeito a 9 mil pés, enquanto o avião iniciava uma queda de 2.700 metros.
O instinto que desafiou a descompressão
Svetlana Grković estava ao lado. Não hesitou. Agarrou as pernas do marido com toda a força que o pânico pode emprestar. “Se morrermos, morreremos juntos”, pensou, conforme depois relatou. Não foi uma frase de heroína de cinema, mas o instinto cru de quem decide que a pior morte é a que vem separada. Ela o descreveu como “fora até o peito” por dois minutos — uma eternidade de vento, frio e perda de consciência. Karović apagou três vezes. Outros dois passageiros se juntaram ao esforço. Uma moça ao lado segurou a mão dele, talvez mais para ancorá-lo à vida do que para ajudar na física do resgate. Mala posta contra o buraco foi sugada de imediato. O vácuo é um ladrão impiedoso. Mas o cinto de segurança, que Karović mantinha afivelado, fez o que projéteis de motor não puderam desfazer: deu um ponto de apoio contra a força que o puxava. Com três pessoas puxando de volta, ele veio — ferido, queimado, em choque, mas dentro da aeronave.
O rescaldo dentro e fora do avião
Karović está vivo. A mão, seriamente ferida; queimaduras no corpo; a memória turva do que aconteceu. Svetlana, por sua vez, carrega o tremor de quem ouve “avião” e sente o estômago gelar. “Meu estado psicológico também é ruim… Temi que o avião fosse cair”, contou. Não caiu. A aeronave retornou a Tessalônica e pousou normalmente, como se janela não fosse uma falha catastrófica, mas um contratempo de percurso. A Ryanair falou em “janela que se soltou”. Os passageiros falaram em gritos, máscaras de oxigênio, uma bagunça de medo e desespero. Agora, investigam o incidente a Autoridade de Investigações de Segurança Aérea e Ferroviária da Grécia, a Boeing, a FAA americana e a Agência de Segurança Aérea da União Europeia. A aeronave, operada pela Malta Air (subsidiária da Ryanair), é um 737-800, modelo que já somou mais de uma década de serviço sem protagonizar tragédias como o Max. Mas a idade importa, e a manutenção também. A hipótese do consultor técnico — falha no motor direito, fragmentos, janela estilhaçada — parece linear. A verdade, porém, virá das peças retorcidas e das caixas-pretas.
Enquanto isso, na enfermaria, Ljubisa treme quando ouve falar em avião. Svetlana revive os dois minutos em que foi âncora. A história não é sobre tecnologia, mas sobre o instante em que um corpo frágil decidiu que o outro não ia embora sozinho. E a física obedeceu. É o tipo de coragem que não se aprende em briefing de segurança. Svetlana apenas fez o que o amor, sem metafísica, exigia: segurar.


