A matriz chinesa que está pressionando o império de Elon Musk

Elon Musk construiu negócios em carros elétricos, foguetes, satélites, robôs, implantes cerebrais, energia e túneis. Em cada frente, empresas chinesas aprenderam com modelos semelhantes, cresceram no enorme mercado doméstico e agora avançam sobre mercados internacionais. A ameaça não vem de um único rival, mas de uma matriz corporativa apoiada por cadeias integradas, fabricação rápida, capital privado e suporte estatal. É menos um duelo entre Musk e um empresário chinês do que uma disputa contra um ecossistema inteiro.

Por que os carros elétricos chineses desafiam a Tesla?

Os fabricantes chineses desafiam a Tesla combinando escala doméstica, cadeias de suprimentos integradas e expansão internacional mais agressiva.

Alguns dos rivais começaram como compradores da própria Tesla. William Li, fundador e CEO da Nio, e He Xiaopeng, presidente e CEO da Xpeng, disseram que a experiência de possuir um Tesla pouco depois da chegada da montadora americana à China, em 2014, influenciou a criação de suas empresas. Lei Jun, CEO da Xiaomi, contou que comprou e desmontou três SUVs Model Y enquanto preparava a entrada da companhia no mercado automobilístico, em 2025. O ritual é antigo na indústria: desmontar o produto alheio para descobrir onde está a mágica. Às vezes, a mágica é uma boa cadeia de fornecedores.

A rival mais volumosa é a BYD, fabricante de veículos elétricos e também de carros a combustão, anteriormente apoiada por Warren Buffett. Em 2025, a empresa entregou 2,26 milhões de veículos elétricos a bateria, contra 1,64 milhão da Tesla, segundo os números apresentados no levantamento. A liderança trimestral ainda muda de mãos, mas a direção estratégica é clara: a BYD está construindo produção local e disputando espaço com a Tesla no Sudeste Asiático, na Europa e na América do Sul.

Quem disputa com a Tesla a direção autônoma?

Baidu, WeRide, Pony.ai, Momenta e Huawei formam uma frente chinesa que transforma direção autônoma em operação, dados e escala regulatória.

A Baidu opera robotáxis comerciais por meio da plataforma Apollo Go, enquanto WeRide e Pony.ai ampliam operações sem motorista em cidades chinesas de primeira linha. A Momenta recebeu aprovação regulatória para testar sistemas de direção autônoma em vias públicas na Alemanha. Já a Huawei informa que seu sistema automatizado acumulou mais de 12,1 bilhões de quilômetros de operação, volume usado para acelerar o treinamento de redes neurais.

A diferença relevante não está apenas na promessa exibida no palco. Está na quantidade de quilômetros, cenários e incidentes transformados em dados. A Tesla tem escala global e uma marca reconhecida; as companhias chinesas têm um laboratório urbano gigantesco e uma indústria que responde depressa. Em tecnologia autônoma, cada rua funciona como uma linha de código com buracos, pedestres e motocicletas. O algoritmo aprende, mas aprende porque alguém conseguiu colocá-lo na rua.

A China já ameaça a liderança da SpaceX em foguetes?

A SpaceX ainda lidera em lançamentos reutilizáveis e implantação de satélites, mas empresas chinesas estão encurtando a distância com capital e coordenação estatal.

LandSpace, Galactic Energy, CAS Space e Beijing Minospace Technology competem com a estatal China Aerospace Science and Technology. Pelo menos 15 empresas aeroespaciais comerciais chinesas preparavam listagens em Xangai ou Hong Kong, segundo o levantamento. A LandSpace buscava captar 7,5 bilhões de yuans, cerca de US$ 1,1 bilhão, enquanto ela e a CAS Space planejavam direcionar recursos de ofertas públicas iniciais para foguetes reutilizáveis.

Em 10 de julho, a China realizou sua primeira recuperação controlada de um propulsor de classe orbital. O país tornou-se o segundo a alcançar esse feito, depois dos Estados Unidos. O Long March-10B foi capturado por uma rede instalada numa plataforma marítima construída pela Guangzhou Shipyard International, unidade da China State Shipbuilding Corporation. É uma solução diferente do pouso em pernas retráteis do Falcon 9. No espaço, como no futebol, há mais de uma maneira de chegar à bola. Na internet via satélite, a Starlink enfrenta a constelação estatal SatNet, de Pequim, enquanto Xangai apoia a Thousand Sails.

Quem está à frente na corrida pelos robôs humanoides?

A China está à frente na oferta de robôs humanoides, enquanto o Optimus, da Tesla, ainda não era vendido oficialmente no período analisado.

Unitree Robotics, Agibot e UBTech Robotics competem diretamente com o Optimus, ao lado de montadoras como BYD, Xiaomi e Xpeng. A variedade chinesa inclui robôs destinados a companhia e modelos voltados a tarefas físicas, inclusive demonstrações de combate. A Agibot produziu seu robô de número 15 mil em junho, embora as remessas efetivas sejam menores: a Omdia estimou 5.168 entregas em 2025. A UBTech, cujos robôs já foram empregados em fábricas de automóveis, projetava entregar 5 mil unidades em 2026.

A Xpeng pretende produzir mais de mil robôs humanoides Iron por mês até o fim de 2026 e iniciar entregas globais em 2027. A palavra decisiva aqui é produzir, não prometer. Protótipos impressionam em vídeo; linhas de montagem revelam se existe produto. A Tesla traz capacidade de software, fabricação e distribuição, mas os concorrentes chineses estão tratando o robô como uma categoria industrial antes que ele vire personagem de apresentação corporativa.

Como empresas chinesas enfrentam a Neuralink?

Empresas chinesas de interfaces cérebro-computador avançam com apoio estatal, aprovação regulatória e integração entre hospitais, seguradoras e fabricantes.

Neuracle Technology, BrainCo e NeuroXess buscam acelerar a comercialização de interfaces cérebro-computador, enquanto a Neuralink, de Musk, testa implantes sem fio para controlar dispositivos. Em março, reguladores chineses aprovaram o implante de movimento da mão da Neuracle para pacientes paralisados, após 36 procedimentos clínicos, conforme o levantamento. O caso mostra uma diferença de ecossistema: a tecnologia não fica confinada ao laboratório ou ao anúncio de uma empresa.

A seguradora estatal PICC lançou a primeira apólice comercial chinesa para cirurgias de interface cérebro-computador em parceria com um hospital afiliado à Universidade de Zhejiang. NeuroXess e BrainCo também avançam por etapas clínicas e regulatórias, com a BrainCo mirando uma oferta pública inicial em Hong Kong. A Neuralink mantém visibilidade global, mas visibilidade não é a mesma coisa que cobertura médica, autorização local e capacidade de reembolso. O futuro, quando chega, costuma vir acompanhado de papelada.

Por que energia solar e túneis também entram na disputa?

A vantagem chinesa em energia solar, baterias e máquinas de túneis pressiona negócios de Musk mesmo fora de carros, foguetes e inteligência artificial.

Os produtos Powerwall tornaram-se quase sinônimo de armazenamento residencial de energia em mercados como os Estados Unidos, e a Tesla também fabrica e vende painéis solares. Ainda assim, a Agência Internacional de Energia informa que a China controla 85% da capacidade global de fabricação solar e 80% da produção de baterias de íons de lítio. Esses números não descrevem apenas concorrentes de uma linha de produto; descrevem o terreno industrial sobre o qual a própria Tesla precisa operar.

Na infraestrutura subterrânea, a The Boring Company amplia o Vegas Loop em Las Vegas e planeja iniciar uma rede-piloto de 6,4 quilômetros em Nashville, no Tennessee. Empresas estatais chinesas, porém, já exibem escala global. Segundo a imprensa estatal chinesa, o país produziu mais de 4 mil máquinas perfuradoras de túneis, cerca de 70% do mercado mundial. Subsidiárias da China Railway Construction estão entre os principais participantes. A pressão sobre Musk, portanto, não se limita a um produto que perdeu mercado. Ela atravessa toda a oficina.

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