Veja o que interrompeu uma simulação de oito meses em Marte

Em fevereiro de 2018, quatro cientistas entraram em um habitat isolado no Havaí para simular uma missão de oito meses a Marte. A experiência terminou poucos dias depois, quando um integrante sofreu um choque elétrico ao ajudar a ligar um gerador e precisou ser levado ao hospital. Outro participante decidiu deixar a equipe após a discussão sobre os riscos de segurança. Com gente de menos para continuar, a missão foi encerrada antes de realmente começar. Marte não precisou fazer nada. A falha aconteceu aqui mesmo, em Mauna Loa.

Como funcionava a simulação de Marte?

A simulação reproduzia condições de uma missão marciana em um habitat construído nas encostas rochosas de Mauna Loa, no Havaí, uma região remota cuja paisagem lembra a superfície do planeta vermelho. A equipe era formada por cientistas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Austrália e da Eslováquia. Tratava-se da sexta missão do projeto Hi-SEAS, sigla em inglês para Hawaii Space Exploration Analog and Simulation.

Durante a permanência no local, os participantes viviam quase todo o tempo dentro de uma construção pequena, comiam alimentos liofilizados, economizavam e reciclavam água, faziam manutenção e conduziam experimentos. Para sair, precisavam vestir trajes e capacetes espaciais. Até a conversa com o exterior tinha um atraso artificial: uma mensagem levava 20 minutos para chegar, e a resposta demorava outros 20. Não era um detalhe cenográfico. A demora obrigava a tripulação a tomar decisões sem esperar instruções imediatas.

Por que a missão foi encerrada tão cedo?

A missão terminou porque um choque elétrico feriu gravemente um dos cientistas durante a ativação de um gerador, poucos dias após o início do confinamento. O suporte da missão chamou uma ambulância, e o integrante foi levado a um hospital próximo. Depois do acidente, a equipe discutiu possíveis problemas de segurança. Um segundo participante decidiu sair, e o grupo restante já não tinha pessoas suficientes para cumprir o plano de oito meses.

O episódio mostra uma diferença incômoda entre simular isolamento e controlar o ambiente. Em uma missão real, um acidente desse tipo afetaria tarefas, turnos, decisões e a carga psicológica de todos. Não há uma fila de substitutos esperando do lado de fora de Marte. Também não há ambulância estacionada atrás de uma colina vulcânica — embora, neste caso, houvesse. A experiência não revelou como uma tripulação suportaria oito meses de confinamento, mas expôs como um evento banal, ligado à infraestrutura, pode desmontar uma operação inteira.

O que aconteceu com o programa Hi-SEAS?

As missões anteriores do Hi-SEAS haviam durado de quatro meses a um ano e produzido dados sobre o funcionamento de equipes em viagens espaciais prolongadas. Os pesquisadores acompanhavam movimento, sono, frequência cardíaca e respiração por meio de dispositivos usados pelos participantes. Questionários, diários e registros sobre comportamento e interação ajudavam a estudar como pessoas convivem durante longos períodos em espaços reduzidos.

Depois do encerramento precoce da sexta missão, os responsáveis decidiram não realizar uma sétima expedição e passaram a analisar com mais profundidade os dados já reunidos. O habitat, porém, não foi abandonado como um cenário de filme depois dos créditos. Em 2019, a Agência Espacial Europeia, a International MoonBase Alliance, a International Lunar Exploration Working Group e outros grupos formaram a campanha EuroMoonMars. O objetivo continuava sendo preparar pessoas e tecnologias para missões longas à Lua e a Marte. No fim, a lição mais terrestre talvez seja esta: antes de sobreviver em outro mundo, é preciso descobrir quais perigos ainda estamos levando conosco.

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