R$ 24 bilhões é o valor que o iFood anunciou como investimento no Brasil até março de 2027. A cifra chama atenção, claro, mas a pergunta mais interessante não é onde esse dinheiro será gasto. É o que a empresa acredita que ainda falta capturar em um mercado enorme, pressionado por custos, margens estreitas e mudanças no comportamento do consumidor.
Essa foi uma das impressões deixadas pelo iFood Move, encontro realizado em São Paulo que reuniu mais de 12 mil pessoas e se apresenta como o maior evento de restaurantes da América Latina. Nesta edição, o foco também alcançou farmácias, mercados, shopping e o setor pet. O clima era duplo: entusiasmo entre empresários que crescem e preocupação com a conta da operação. As duas coisas cabem na mesma mesa.
Quem trabalha com alimentação conhece a parte menos fotogênica da história. O setor depende de mão de obra, enfrenta dificuldade para encontrar e reter pessoas e precisa crescer sem transformar faturamento em prejuízo. Mudanças na jornada de trabalho podem elevar custos se não vierem acompanhadas de produtividade. Margem, preço, emprego ou expansão: em algum lugar, a conta aparece.
Por que o iFood aposta tanto no mercado brasileiro?
O iFood aposta porque ainda existe uma parcela gigantesca do consumo de alimentação fora das plataformas e, principalmente, fora de casa. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE referente a 2017 e 2018, 67% dos gastos das famílias brasileiras com alimentação acontecem dentro de casa, enquanto 33% ocorrem fora. É um dado antigo, e precisa ser lido como tal, mas revela uma estrutura persistente: dois em cada três reais ainda não circulam no food service.
Essa distância ajuda a explicar os R$ 24 bilhões. A oportunidade não está apenas em entregar refeições com mais velocidade. Está em criar novos momentos de consumo, ampliar a conveniência e usar tecnologia para tornar a operação mais produtiva. O delivery, que há 15 anos parecia para muitas empresas somente mais um canal de vendas, passou a alterar logística, relacionamento, rotina de cozinha e até a ocasião em que o cliente decide comer.
Mas o setor chega a essa possível expansão com o caixa apertado. Uma pesquisa da Abrasel divulgada em agosto apontou que seis em cada dez empresários ainda não se sentiam preparados para a reforma tributária. Se a nova estrutura aumentar a carga para parte dos restaurantes, é provável que uma fatia do custo chegue aos preços. Alimentação mais cara pode reduzir o consumo; consumo menor afeta restaurantes, fornecedores e trabalhadores. A cadeia inteira sente o espirro.
O investimento pode ajudar pequenos restaurantes?
Sim, o investimento pode dar a pequenos e médios restaurantes acesso a ferramentas que antes estavam concentradas nas grandes empresas. Tecnologia, logística e dados custam caro, e uma plataforma pode dividir essa infraestrutura entre milhares de negócios. A resposta é afirmativa, mas não mágica: nenhuma plataforma transforma automaticamente um restaurante ruim em um restaurante bom.
A experiência do McDonald’s ilustra esse ponto. Quando o autor liderava a operação brasileira da rede, foi à China para observar como as plataformas estavam mudando o delivery. Voltou com a conclusão de que até uma empresa gigante precisava de ajuda. O McDonald’s conhecia restaurante, produto, marca e operação; o iFood dominava competências digitais que a rede ainda precisava desenvolver. A parceria acelerou o delivery e levou o negócio de uma escala milionária para outra, bilionária.
Há uma lição menos óbvia nessa história: liderança também é reconhecer aquilo que outra empresa faz melhor. Para um pequeno restaurante, esse reconhecimento pode ser ainda mais importante, porque faltam capital, equipe especializada e tempo para construir internamente sistemas de dados ou uma logística eficiente. E, quando o empresário já passa o dia tentando fechar a folha, programar uma operação digital do zero soa quase como ficção científica de baixo orçamento.
O que os R$ 24 bilhões significam para o setor?
Os R$ 24 bilhões significam uma aposta no crescimento do ecossistema, não apenas na expansão do iFood. O investimento é 41% maior que o ciclo anterior e sugere que a empresa vê espaço para ampliar categorias, produtividade e ocasiões de consumo. Não sei se todas essas frentes entregarão o mesmo resultado, nem se o mercado absorverá a mudança sem atrito — não, o contrário: algum atrito é inevitável.
A aposta também redefine a ideia de liderança. Participação de mercado é uma medida útil, mas pequena. Uma plataforma que usa escala para fortalecer restaurantes ao redor pode ampliar o próprio mercado, desde que essa relação produza negócios mais saudáveis e não apenas mais dependentes. Isso não é filantropia. É estratégia, com todos os riscos e interesses que a palavra carrega.
O food service brasileiro não está bem resolvido. Há empresários crescendo, marcas abrindo lojas e gente aprendendo a usar o delivery como instrumento de expansão. Há também custos maiores, insegurança tributária e consumidores sensíveis ao preço. O número anunciado pelo iFood fala de uma empresa, mas sua importância será medida fora dela: nas cozinhas, balcões e pequenas operações que conseguirem transformar conveniência em produtividade. O dinheiro começa em uma plataforma. O resto depende do que acontece depois da porta do restaurante.


