O Japão ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 mil pessoas com 100 anos ou mais. O país tem 107.677 centenários, dos quais 88% são mulheres, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 15 de setembro de 2026. A marca parece celebrar uma vitória da medicina, da alimentação e dos hábitos cotidianos. Mas carrega uma contradição menos fotogênica: enquanto os japoneses vivem mais, nascem menos crianças, a população encolhe e a previdência se aproxima de uma conta difícil.
Por que os japoneses vivem tanto?
A longevidade japonesa é associada principalmente à alimentação equilibrada, à atividade física e aos avanços da medicina. A dieta tradicional privilegia peixes, verduras e arroz, com menos gorduras saturadas do que muitas dietas ocidentais. Não há poção secreta, portanto; há rotina. Os idosos também costumam caminhar, usar transporte público, andar de bicicleta e praticar exercícios regularmente, atividades simples que, acumuladas durante décadas, fazem diferença.
Os números individuais ajudam a dar rosto à estatística. Kishimoto Fuyo, de Kyoto, é apontada como a mulher mais idosa do país, aos 114 anos. Entre os homens, o recorde pertence a Kato Hikaru, de Kumamoto, com 112 anos. O ministro da Saúde, Kenichiro Ueno, declarou estar encantado com a quantidade de pessoas que chegam a essa idade saudáveis e ativas, citando medicina e tecnologia como parte da explicação.
O envelhecimento já alterou até o mercado. A venda de fraldas geriátricas superou a de fraldas para bebês há mais de uma década, e empresas passaram a criar produtos específicos para uma população mais velha, como exoesqueletos motorizados e óculos capazes de ajustar o foco automaticamente. Parece ficção científica de baixo orçamento — mas é apenas o varejo respondendo à demografia.
O Japão está ficando velho e menor?
Sim, o Japão está envelhecendo e encolhendo ao mesmo tempo. Pessoas com 65 anos ou mais já representam cerca de 30% da população, proporção que pode chegar a quase 40% até 2070. No ano passado, a taxa de fecundidade total caiu para 1,14 filho por mulher, muito abaixo dos 2,1 necessários, em média, para repor a população sem considerar migração.
Uma projeção do Instituto Nacional de População e Previdência Social estima que o país terá 87 milhões de habitantes em 2070. O número representaria uma queda de 30% em relação ao pico de 128 milhões, alcançado em 2008. Em 2025, a população diminuiu em 45 das 47 províncias japonesas. A matemática não faz escândalo; apenas continua somando.
O governo chama a tendência de “crise existencial”, enquanto a primeira-ministra Sanae Takichi a descreveu como uma “emergência silenciosa”. Subsídios e programas para estimular os jovens a ter filhos ainda não parecem capazes de reverter o quadro. Os motivos são variados: menos casamentos, maior participação feminina no mercado de trabalho e o custo crescente de criar crianças. Mas a conta não cabe em uma única causa.
Mais centenários significam uma crise nos registros?
O crescimento dos centenários é real, mas a precisão da contagem já foi questionada. O Japão iniciou seu levantamento em 1963, quando registrava apenas 153 pessoas com 100 anos ou mais. O total chegou a mil em 1981, a 10 mil em 1998 e agora alcança 107.677. A progressão é impressionante, embora não seja uma fotografia sem manchas.
Estudos anteriores encontraram registros públicos pouco confiáveis, erros de manutenção e ausência de certidões de nascimento. Em uma auditoria realizada pelo governo em 2010, mais de 230 mil pessoas registradas como centenárias não foram localizadas; algumas haviam morrido décadas antes. Houve suspeitas de que famílias ocultassem a morte de parentes idosos para continuar recebendo aposentadorias.
Os dados mais recentes foram divulgados antes do feriado anual de Respeito aos Idosos, quando o governo homenageia quem completa 100 anos com uma carta pessoal e um copo de saquê. A celebração é bonita, mas o desafio permanece: sustentar uma sociedade com mais idosos, menos trabalhadores e uma população estrangeira equivalente a apenas cerca de 3% do total. O Japão descobriu como prolongar a vida. Ainda precisa decidir como reorganizar o futuro que vem depois dela.


