A XTransfer desembarcou em São Paulo no mês passado com a mesma lógica de um comerciante que monta barraca onde o freguês já está. Maior plataforma chinesa de pagamentos B2B cross-border para comércio exterior, a empresa abriu escritório no Brasil seguindo o rastro dos próprios clientes — grandes marcas como BYD, Huawei e ZTE, mas também uma multidão de pequenas e médias empresas chinesas que estão fincando raízes na América Latina.
Para Violas Xiao, CEO da XTransfer para Singapura e América Latina, o país subiu na lista de prioridades por três motivos que se entrelaçam. O primeiro é a corrente de comércio Brasil–China, que praticamente dobrou desde 2019, saltando de US$ 100 bilhões para US$ 171 bilhões em 2025. O segundo é a presença cada vez mais densa de marcas chinesas no mercado brasileiro, não apenas as gigantes, mas vendedores de e-commerce e PMEs de olho no consumo doméstico. O terceiro é a lacuna que ainda persiste: empresas brasileiras penam para pagar fornecedores internacionais com agilidade, tarifas enxutas e sem montanhas de papelada. “Vemos uma grande lacuna em pagamentos cross-border entre Brasil e Ásia”, afirma Xiao. “Os comerciantes ainda sofrem para ter liquidação mais rápida, taxas melhores e menos peso na verificação de documentos comerciais pelos bancos.”
O que a XTransfer enxerga nas pequenas e médias empresas
A XTransfer enxerga nas PMEs um mercado que movimenta US$ 33 trilhões ao ano em pagamentos B2B, mas onde metade dessas empresas ainda carece de serviços financeiros ágeis. Elas respondem por aproximadamente metade dessas transações, mas continuam com acesso limitado a serviços financeiros globais — enquanto grandes corporações dispõem de mesas de câmbio, crédito e atendimento dedicado, as menores enfrentam burocracia, spreads que corroem margens e previsibilidade zero. Xiao resume a dor: “Às vezes, a margem de uma PME no comércio exterior é de apenas 10%. Se ela perde 3% a 5% em câmbio ou liquidação internacional, isso vira uma dor enorme.”
Fundada em 2017 na China, a XTransfer construiu uma base de 9 milhões de perfis de PMEs e analisou 13 milhões de documentos comerciais em sua plataforma, cruzando dados com mais de 300 bases globais, de registros aduaneiros a informações logísticas. A tese é simples: o porte não deveria ditar o acesso a pagamentos internacionais. No Brasil, a empresa estima que existam entre 2 milhões e 3 milhões de PMEs com potencial de usar soluções financeiras para comércio exterior — um terreno fértil para quem já viu empresas chinesas do mesmo porte redirecionarem vendas de máscaras para móveis da noite para o dia durante a pandemia.
O Pix e a rota do yuan
A XTransfer aposta no Pix como o alicerce para digitalizar pagamentos e, no futuro, permitir liquidação direta entre real e yuan, contornando o dólar. “O Pix é um projeto muito bem-sucedido do governo brasileiro”, diz Xiao, que compara a digitalização brasileira com a persistência do dinheiro em espécie em mercados como México e Colômbia. Para a empresa, dois efeitos são decisivos: a capilaridade dos pagamentos instantâneos, mesmo em regiões distantes, e a rastreabilidade via CPF ou CNPJ, que facilita o combate à fraude. Mais adiante, a internacionalização do Pix poderia criar um corredor direto entre real e yuan, sem a necessidade de passar pelo dólar ou pelo Swift.
“China é o maior parceiro comercial do Brasil. Podemos liquidar diretamente entre real e yuan, sem necessariamente usar o dólar no meio”, afirma Xiao. “No futuro, talvez não precisemos passar por Swift ou usar dólar em algumas transações.” Ainda que o dólar domine 90% do comércio de importação e exportação, a executiva cita iniciativas de liquidação em moedas locais entre países dos Brics e na ASEAN, e vê espaço para o yuan como moeda de invoice em transações Brasil‑China, desde que haja casos reais de uso e previsibilidade cambial para as PMEs.
A própria trajetória de Violas Xiao ajuda a entender a aposta. Formada em Letras Português e Inglês na Guangdong University of Foreign Studies, escolheu o português quando poucos o faziam — “queria ser diferente”, conta. À época, havia cerca de 200 falantes de português na China para milhares de vagas. Depois de mestrado em Tradução na Universidade de Macau e passagens pelo Bank of China e First Abu Dhabi Bank, entrou na XTransfer em 2021. Hoje lidera a expansão latino-americana a partir de Singapura, administrando equipes “do jeito brasileiro, não do jeito chinês”, como diz. Não é todo dia que uma executiva de fintech asiática discute legislação trabalhista brasileira em português fluente.
No Brasil, a XTransfer está contratando equipes de vendas, compliance e relacionamento bancário, enquanto obtém licenças e aprofunda a presença local. A aposta combina o crescimento do comércio bilateral, a digitalização empurrada pelo Pix e a entrada de mais PMEs em cadeias internacionais. “Um dia, se um comerciante brasileiro quiser expandir sua presença na Ásia, ele poderá contar com a XTransfer”, diz Xiao. “Ele não precisará se preocupar com sua expansão internacional.” A frase soa ambiciosa, mas o pragmatismo de quem chegou seguindo os clientes permite algum crédito.


