O documentário Musk, dirigido por Alex Gibney, é um retrato envolvente, bem produzido e longo demais. Com quase quatro horas de duração, incluindo um intervalo de dez minutos, o filme revisita episódios conhecidos da trajetória de Elon Musk e tenta explicar a transformação do empreendedor celebrado em figura política e tecnológica cada vez mais controversa. A resposta curta: há material suficiente para interessar, mas pouco que seja realmente novo para quem acompanha Musk há anos. O problema não é falta de assunto. É a costura.
Gibney apresenta Musk menos como inventor solitário e mais como um investidor que interpreta o papel de inventor, capaz de seduzir investidores e público com visões de um futuro tecnológico utópico. A provocação é clara. Também é calculada. O filme parece feito para apertar os botões de indignação de fãs e detratores, o que o transforma, involuntariamente ou não, em um produto da mesma era movida por redes sociais que pretende examinar. Musk não é tratado como gênio incompreendido, tampouco como vilão de desenho. Fica no meio, terreno mais incômodo.
O documentário sobre Elon Musk traz algo novo?
O documentário traz um retrato competente, mas oferece poucas revelações para leitores já familiarizados com a carreira de Musk. A primeira metade percorre os anos de formação empresarial, a ascensão da Tesla e a expansão da SpaceX, usando imagens de arquivo e depoimentos de pessoas próximas ou relevantes para essa história. Estão ali a ex-esposa Justine Musk, Kara Swisher, Martin Eberhard, Geoffrey Hinton, Cory Doctorow, Adam Becker e Sam Harris, entre outros. O arquivo é forte porque mostra um Musk mais jovem, ainda empenhado em construir uma persona pública específica. Eu quase sinto falta daquele personagem.
Essa nostalgia, porém, não deve ser confundida com absolvição. O filme lembra que a imagem do visionário foi cuidadosamente cultivada e que o empreendedorismo de Musk sempre esteve misturado a espetáculo, risco financeiro e promessa grandiosa. A descrição de Gibney — um homem da Era Dourada, remodelado para o século XXI — é eficiente porque liga a velha especulação financeira à nova liturgia da inovação. O investidor veste a fantasia do inventor. A frase é dura, mas encontra apoio na maneira como o documentário organiza as imagens, os discursos públicos e as expectativas depositadas em cada empresa.
O percurso cobre assuntos bastante conhecidos: Tesla, mortes associadas aos sistemas de assistência ao motorista, SpaceX, Starlink, a compra do Twitter, a mudança de posição sobre os riscos da inteligência artificial, o Grok, Donald Trump, o DOGE, suposto uso de drogas e os 14 filhos de Musk — possivelmente mais, segundo o filme. É uma lista extensa, quase um inventário de manchetes. O documentário não se furta a nada, mas também não consegue dar a cada tema o tempo necessário. Quatro horas parecem muito até a pauta começar a cobrar juros.
Por que o filme parece dividido em duas partes?
O filme parece dividido em duas obras porque a primeira metade é biográfica e a segunda assume um tom abertamente adversarial. Gibney contou, durante uma sessão de perguntas e respostas, que havia terminado o documentário em 2024, mas que a HBO pediu continuidade para registrar o que chamou de “heel turn” de Musk. A expressão, emprestada do wrestling, designa a passagem do herói para o antagonista. O efeito é visível: uma parte tenta compreender a ascensão; a outra acompanha a guinada política após a compra do Twitter e a aproximação com Trump.
Musk acusou Gibney de produzir um “hit piece”, mas essa classificação não descreve bem o resultado. O filme não é uma peça de ataque simples; há admiração pelo que Musk foi, ou pelo que pareceu ser, antes da concentração de riqueza e influência. O diretor, contudo, não pratica a falsa neutralidade do chamado “ponto de vista de lugar nenhum”. Ele escolhe um lado interpretativo. Não é um defeito automático. Documentários sempre editam a realidade. O problema aparece quando a mudança de tom entre os blocos fica mais evidente que a tese que deveria uni-los.
Gibney brincou que a pergunta correta seria como ele conseguiu limitar o filme a quatro horas, pois o material poderia render seis. A piada explica o defeito. Musk talvez funcionasse melhor como minissérie de seis episódios, com espaço para separar a história empresarial, a política, a inteligência artificial e a vida pessoal. Do jeito que está, cada novo assunto entra como uma porta aberta para outra sala, mas o espectador continua no corredor. A duração não é o único problema. É a sensação de que o filme cresceu sem encontrar sua forma final.
A recriação digital de Musk funciona?
A recriação digital de Musk não funciona bem, embora a ideia seja conceitualmente coerente com o tema do filme. Como Musk não aceitou ser entrevistado, Gibney criou uma versão em computação gráfica do empresário dizendo frases públicas, literalmente registradas em outros contextos. A escolha tenta transformar a ausência em comentário: um avatar para representar o futuro virtual que Musk e seus aliados tecnológicos ajudam a promover, pouco importando a opinião popular. No papel, é uma boa provocação. Na tela, produz sobretudo estranheza de vale da inquietação.
O boneco digital é menos interessante que o homem real preservado nas imagens de arquivo. Há algo de revelador no Musk antigo, sentado diante de câmeras, defendendo projetos ainda incompletos e tentando convencer o mundo de que a próxima aposta seria decisiva. A gravação não precisa de uma camada artificial para ganhar tensão. A fala verdadeira, registrada no instante em que foi dita, carrega pausas, vaidade e improviso. O avatar repete as palavras, mas remove parte do acidente humano. É tecnologia usada para simular presença e, no processo, deixar a presença mais distante.
O retrato final é o de um anti-herói trágico, um sonhador idealista corrompido pela riqueza e pelo poder — aquilo que Gibney chama de “corrupção por causa nobre” —, mas a explicação fica incompleta. O documentário mostra a queda com mais clareza que suas causas. Por que Musk escolheu esse caminho? O que mudou quando a influência se tornou quase ilimitada? O filme sugere que ele perdeu contato com a realidade e não parece mais feliz, mas não transforma essa sugestão em análise consistente. Talvez uma entrevista com o próprio Musk não resolvesse nada. Talvez apenas desse ao filme outro tipo de material.
O documentário é, portanto, convincente em suas imagens, irregular em sua arquitetura e limitado pela familiaridade do assunto. Gibney sabe montar um arquivo, escolher depoimentos e construir uma acusação sem precisar gritar. Também não consegue evitar a impressão de que duas versões do mesmo projeto foram coladas depois do fato. Musk entrou em cartaz em sessões selecionadas em Nova York e Los Angeles e tinha estreia nacional prevista para 14 de outubro. A pergunta que sobra não é se o filme entende Musk. É se ainda existe, sob tantas camadas de personagem, alguém disposto a responder.


