Um livreiro escondeu um AirTag dentro de um livro raro, incluiu o volume em uma encomenda a granel e acompanhou sua viagem pelos Estados Unidos. O rastreador terminou em um armazém da Amazon em Las Vegas, identificado como VGT3, onde funcionários dizem que livros são desmontados para acelerar a digitalização. A descoberta não prova, sozinha, que todo o material alimenta sistemas de inteligência artificial, mas dá endereço, método e escala a uma suspeita antiga dos livreiros: empresas estariam comprando livros em massa para extrair seu conteúdo e depois destruindo os exemplares.
O que o AirTag revelou sobre a operação da Amazon?
O AirTag revelou que uma remessa de livros raros chegou ao centro VGT3, uma operação da Amazon dedicada à digitalização de volumes impressos.
A investigação foi publicada por Emanuel Maiberg, da 404 Media, e também examinada pela Ars Technica. Funcionários ouvidos pela reportagem descreveram um processo de eficiência industrial, não de preservação bibliográfica: grandes remessas chegam ao armazém, as lombadas são cortadas e as páginas passam pelo escâner com mais rapidez. O livro físico, nesse percurso, deixa de existir como livro. A porta do local exibe um dinossauro segurando um volume e mostrando os dentes, imagem que parece uma piada corporativa até você lembrar que o dinossauro está prestes a comer justamente o objeto que deveria guardar.
Discussões em fóruns de funcionários acrescentam uma nota curiosa. No começo do ano, a equipe teria ficado sem livros para escanear, e alguns trabalhadores temeram o fechamento do armazém. Em determinado momento, o estoque acabou completamente. A operação, porém, continuou ativa. A falta temporária de material combina com a ideia de uma cadeia de abastecimento específica, baseada em grandes compras, e não com uma biblioteca pública de fluxo constante.
Por que os compradores procuram ISBNs, e não livros famosos?
Os compradores parecem perseguir ISBNs e edições específicas porque cada código representa uma unidade distinta de material impresso.
Livreiros já haviam percebido um padrão difícil de explicar pelo valor comercial tradicional. As encomendas não se concentravam necessariamente em primeiras edições celebradas, autores conhecidos ou exemplares visualmente atraentes. Em vez disso, apareciam livros antigos de baixo preço, obras nunca traduzidas de idiomas pouco lidos e títulos impressos em tiragens pequenas. A explicação ganha peso porque, segundo discussões revisadas pela 404 Media, os funcionários escaneiam o código de barras ou o ISBN antes de digitalizar o livro. O comprador não está escolhendo apenas uma obra; está preenchendo uma lacuna de catálogo.
Para um sistema de treinamento, essa lógica é mais compreensível do que parece. A edição importa porque textos diferentes, traduções diferentes e reimpressões diferentes ampliam o conjunto de dados. Para um livreiro, contudo, o valor de um exemplar raro também está na história, na proveniência, no idioma, na materialidade e no fato de ele ter sobrevivido. O escâner vê uma sequência de palavras. O mercado de livros vê um artefato. A colisão entre essas duas leituras produz o desconforto central do caso.
Por que livros impressos antes de 2022 ficaram mais disputados?
Livros publicados antes de aproximadamente 2022 são disputados porque oferecem uma reserva finita de textos presumidamente escritos por humanos antes da proliferação de conteúdo gerado por modelos.
A premissa foi resumida por Mike Pearl, em reportagem do Gizmodo: até perto de 2022, livros eram escritos por pessoas, e o estoque desse material é finito. Modelos treinados repetidamente em texto produzido por outros modelos podem perder qualidade, um fenômeno frequentemente descrito como degradação por dados sintéticos. Isso transforma papel velho em matéria-prima para uma indústria que, durante anos, tratou a abundância textual como se fosse uma lei da natureza. Não era. Era apenas um intervalo histórico com servidores suficientes para fingir que não acabaria.
A mesma pressão já apareceu em outros idiomas e formatos. Uma reportagem mencionada no caso descreveu uma escassez de material em chinês na China. Outra relatou que o Google pagou US$ 10 milhões pelos registros internos de uma companhia aérea falida. O padrão é o mesmo: quando dados novos, variados e confiáveis ficam difíceis de obter, empresas procuram arquivos que antes pareciam entulho administrativo. Um livro antigo, nessa equação, deixa de ser um objeto cultural e passa a ser uma unidade de dados com código de barras.
Amazon pode destruir livros raros para treinar IA?
A Amazon não confirmou que o VGT3 treina inteligência artificial, mas também não esclareceu a finalidade da digitalização ou prometeu proteger obras raras.
À 404 Media e à Ars Technica, a empresa declarou apenas que compra livros por canais comerciais para desenvolver e melhorar produtos e serviços usados pelos clientes. A frase é compatível com a investigação, mas não a confirma. Também não responde se os livros são usados em treinamento de modelos, pesquisa interna, reconhecimento óptico de caracteres ou alguma combinação dessas atividades. O silêncio não é prova de culpa; é, porém, uma resposta insuficiente para uma operação que aparentemente destrói os exemplares depois da leitura.
A comparação com concorrentes torna a omissão mais incômoda. A Anthropic disse à BBC que seus programas de aquisição de dados não compram nem destroem livros raros ou antiquários. A xAI teria feito declaração semelhante. A Anthropic também realiza digitalização destrutiva: documentos judiciais citaram o Project Panama, descrito como uma iniciativa para escanear livros em grande escala, com destruição dos exemplares no processo. A diferença está no limite declarado. A Anthropic separa o estoque comum de obras raras; a Amazon, publicamente, não estabeleceu limite algum.
O que a lei diz sobre digitalização destrutiva?
Nos Estados Unidos, a compra e a digitalização de livros podem ser legais quando o uso é considerado transformador, mas isso não resolve a questão cultural.
Em 2025, o juiz William Alsup decidiu que o uso, pela Anthropic, de livros comprados era altamente transformador e se enquadrava no fair use. A lógica inclui a destruição da cópia física: existe um exemplar antes da digitalização e uma cópia digital depois, sem multiplicação indiscriminada do acervo físico. A decisão ajuda a explicar por que a prática pode sobreviver juridicamente, mas não transforma qualquer destruição em ato neutro. Copyright é uma parte do problema; preservação, memória e acesso público são outras.
O enquadramento também varia conforme o país. Emily Hudson, especialista em propriedade intelectual de Oxford, disse à BBC que, no Reino Unido, a criação da biblioteca de treinamento e o próprio treinamento partem da necessidade de autorização do titular dos direitos. Enquanto a disputa legal avança, os livreiros continuam divididos. Stuart Manley, da Barter Books, celebrou a venda de títulos encalhados por décadas, como exemplares de O código Da Vinci. Derek Walker, da McNaughtan’s, traçou outra fronteira: destruir uma edição acadêmica comum é diferente de destruir o único exemplar conhecido de uma edição do século XVIII.
O que ainda precisa ser esclarecido?
O caso precisa de três respostas: a finalidade exata do VGT3, a proteção para livros raros e um registro do material destruído.
A primeira pergunta é direta: a Amazon usa os escaneamentos para treinar modelos de inteligência artificial? A declaração atual não diz. A segunda é igualmente concreta: a empresa adotará uma exceção para obras raras e antiquárias, como afirmam seus concorrentes? A terceira parece menos jurídica, mas talvez seja a mais importante: alguém está catalogando quais livros passaram pelo armazém? Um arquivo privado de treinamento não devolve ao mundo um exemplar que foi cortado, triturado ou descartado.
Livreiros já suspeitavam da destruição em escala, mas não conseguiam apontar para uma instalação específica. Um AirTag mudou essa parte da história. Agora há uma rota, um endereço, um procedimento descrito por trabalhadores e uma declaração corporativa que responde sem responder. Para a Amazon, o próximo passo não deveria ser apenas defender a legalidade da compra. Deveria ser explicar que tipo de acervo está sendo consumido — antes que a eficiência transforme perda irreversível em simples linha de processamento.



