A energia solar está prestes a ultrapassar a nuclear como fonte global de eletricidade. Em 2026, ela deverá responder por quase 10% da geração mundial, contra apenas 1% uma década atrás. O salto não veio de uma única descoberta, mas da combinação entre painéis baratos, baterias mais acessíveis, demanda crescente e consumidores cansados de redes caras ou instáveis. A mudança é grande — e tem menos a ver com promessa futurista do que com planilhas, telhados e obras que já estão acontecendo.
Dave Jones, cofundador da Ember, chamou de “insano” o fato de a geração solar superar a de todas as usinas nucleares do planeta. Dados da Ember indicam que a ultrapassagem ocorreu por margem estreita em 2025 e deverá se ampliar em 2026. O detalhe importante está no ritmo: no ano passado, a solar respondeu por três quartos do crescimento da demanda mundial por eletricidade, superando a expansão da energia eólica. A fonte deixou de ser uma coadjuvante simpática. Virou a principal máquina de adicionar eletricidade ao sistema.
Por que a energia solar cresceu tão depressa?
A energia solar cresceu tão depressa porque seus equipamentos ficaram baratos, rápidos de instalar e fáceis de distribuir em muitos mercados. Jan Rosenow, professor de política energética e climática da Universidade de Oxford, define a solar como o motor da transição elétrica. O painel fotovoltaico, sozinho, pode custar menos de US$ 100 e continuar produzindo por 30 ou 40 anos, segundo Jones. Não há combustível para comprar depois. Não há mina nova esperando licenciamento para cada manhã ensolarada.
A queda de preços registrada em 2023 e 2024 empurrou a tecnologia para uma faixa que o especialista descreve, com certa acidez, como “ofensivamente barata”. A expressão é exagerada? Talvez. Mas explica o que mudou. O investimento inicial continua incluindo instalação, inversores, conexão e, em alguns casos, baterias; ainda assim, o custo do painel deixou de ser o grande obstáculo. Quando uma tecnologia modular pode ser instalada em uma casa, numa fazenda ou numa usina gigantesca, ela encontra muitos caminhos para crescer.
A China continua sendo, de longe, o maior mercado solar do mundo e também o principal exportador de painéis. Seu crescimento interno começou a desacelerar, mas as vendas para outros países seguem aumentando. Na Austrália, mais de quatro milhões de residências já tinham painéis solares — mais de um terço dos lares, segundo o Climate Council. É a velha lógica da rede distribuída: em vez de esperar uma obra monumental, instala-se uma solução no lugar onde a eletricidade será usada.

O que países e famílias estão fazendo com a solar?
Países e famílias estão adotando a energia solar porque ela oferece eletricidade própria em lugares onde a rede é cara, instável ou lenta para chegar. No Paquistão, a expansão ocorreu em grande parte por decisão dos próprios consumidores, sem depender de empréstimos, segundo Jones. Histórias parecidas apareceram no Líbano e na Nigéria, países em que a precariedade do fornecimento transformou o painel em equipamento de autonomia — não em peça de propaganda ambiental.
Isso também altera a política energética. Uma família pode agir sem esperar que governo ou concessionária construa uma nova linha, aprove uma tarifa ou resolva um apagão. Em regiões ensolaradas, a instalação doméstica passou a competir com a paciência. E paciência, como se sabe, não costuma sobreviver a uma conta de luz salgada. A expansão não é uniforme, evidentemente: importação, financiamento, regulamentação e qualidade da rede continuam pesando. Mas a economia já empurra a tecnologia mesmo quando a política pisa no freio.
Nos Estados Unidos, tarifas e políticas federais podem encarecer projetos e desacelerar a expansão em relação ao que seria possível. Alicia Zhao, especialista em trajetórias de mitigação da Universidade de Maryland, ressalta, porém, que a solar ainda está entre as fontes mais baratas para novas usinas no país. Renováveis respondem por mais de 90% da nova capacidade elétrica americana, segundo a análise citada por ela. Data centers e eletrificação voltaram a elevar a demanda por energia depois de décadas de estabilidade. A segurança energética, nesse caso, pode acabar ajudando a solar por motivos bastante prosaicos.

As baterias resolveram o problema da intermitência?
As baterias resolveram boa parte do problema diário da solar, mas ainda não o armazenamento de longa duração. A geração fotovoltaica se concentra durante o dia; baterias permitem guardar o excedente do meio-dia e entregá-lo no começo da noite, quando a demanda costuma subir. Jan Rosenow afirma que, em regiões ensolaradas, solar combinada com armazenamento já é rotineiramente mais barata que novas usinas fósseis. A matemática mudou de turno: o sol trabalha de manhã, a bateria cobre o expediente da noite.
A queda no preço das baterias tem sido tão relevante quanto a dos painéis. Isso torna possível construir sistemas capazes de deslocar eletricidade por algumas horas, reduzindo a necessidade de acionar usinas a gás ou carvão para acompanhar o consumo. Mas nuvens prolongadas, períodos de monções e a diferença entre estações continuam sendo problemas mais difíceis. Guardar energia de uma tarde para a noite é uma coisa; guardar energia de uma estação para outra é outra — não, o contrário não resolve a conta.
Por isso, o limite da solar já não está principalmente no painel ou no preço. Está nas redes de transmissão, no armazenamento e na velocidade com que novas cargas serão eletrificadas. Julia Souder, do Long Duration Energy Storage Council, advertiu que eletrificar sem flexibilidade pode criar um sistema frágil. A eletrificação não é automaticamente resiliente. Ela precisa de planejamento, gestão da demanda e infraestrutura para não transformar uma solução barata em um gargalo caro.
O que vem depois da ultrapassagem da energia nuclear?
Depois de ultrapassar a nuclear, a solar deverá avançar sobre uma fatia maior da energia total, não apenas da eletricidade. Dave Jones resume a ambição dizendo que ela pode deixar de ser a “rainha da eletricidade” para se tornar a “rainha da energia”. Isso envolve veículos, aquecimento, indústria e produção de combustíveis, setores que hoje dependem em grande parte de petróleo, gás ou carvão. O painel no telhado é apenas a primeira peça; a rede inteira terá de aprender a conversar com ele.
A tecnologia também está se espalhando para formatos menos óbvios. Sistemas solares plug-in foram aprovados em alguns países e estados americanos, incluindo a Califórnia. A agrivoltaica combina painéis com produção de alimentos, aproveitando a mesma área para geração elétrica e cultivo ou pastagem. Em Kentucky, uma fazenda solar permite que ovelhas pastem entre os módulos, mantendo a vegetação baixa e produzindo carne alimentada em pasto. É uma solução elegante? Nem sempre. Mas mostra que o debate sobre uso da terra pode ganhar respostas concretas.
Em 2026, o crescimento global talvez desacelere pela primeira vez, principalmente por causa da China. Uma mudança nas regras de apoio e remuneração provocou uma corrida de instalações em 2025, antes da entrada do novo regime. Fora da China, porém, Jones afirma que mais painéis estão sendo instalados do que no ano anterior. A ressalva é direta: se os módulos chineses ficarem difíceis de importar, a expansão perderá velocidade.
O ponto decisivo é que a solar cresceu além das previsões mais comuns de uma década atrás e ajudou a reduzir a construção de novas usinas a carvão. Ainda há obstáculos técnicos, regulatórios e territoriais; não existe passe livre para uma matriz elétrica complexa. Mas o centro da pergunta mudou. Já não é saber se a solar vai crescer. É saber se redes, baterias e instituições conseguirão acompanhá-la antes que o próximo dia ensolarado chegue.

