Entenda por que as canetas emagrecedoras ainda estão longe de quem mais precisa

As canetas emagrecedoras ampliaram a eficácia do tratamento contra a obesidade, mas continuam fora do alcance da maioria dos brasileiros. O problema não é apenas o preço do medicamento: envolve renda, acompanhamento médico, alimentação, atividade física e a ausência de oferta pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto a tecnologia avança no consultório, o acesso permanece preso à velha lógica de que saúde é direito universal, desde que a pessoa consiga pagar.

Por que as canetas emagrecedoras continuam inacessíveis?

As canetas emagrecedoras continuam inacessíveis porque o custo mensal do tratamento supera a capacidade financeira da maioria das famílias brasileiras. Um levantamento da NielsenIQ Brasil, divulgado em abril, apontou que esses medicamentos estavam presentes em cerca de 5% dos lares do país. Entre os usuários, 84% relataram impacto alto ou moderado no orçamento mensal.

O contraste fica mais áspero quando se observa a dimensão do problema. Dados mais recentes do Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, condição associada a diabetes, câncer e doenças cardiovasculares. A ferramenta mais eficaz, portanto, chega primeiro a uma minoria. É uma espécie de elevador privativo instalado num prédio onde a maioria ainda sobe pela escada.

Quanto custa tratar a obesidade com esses medicamentos?

O tratamento com tirzepatida custa entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil por mês, enquanto versões de semaglutida ficaram até R$ 1 mil mais baratas após a queda da patente. A redução abriu espaço para fabricantes brasileiros e aumentou a concorrência entre os produtos disponíveis.

Em junho, as farmácias receberam a Ozivy, primeira caneta brasileira com semaglutida, produzida pelo laboratório EMS. Na quarta-feira, dia 29, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou registros de outros cinco medicamentos baseados no mesmo princípio ativo. O Ministério da Saúde informou que pediu prioridade para registros de semaglutida e liraglutida destinados ao tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, apostando que mais concorrência reduzirá os preços.

A conta, porém, não termina na caixa do remédio. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, combina a ação sobre os receptores hormonais GLP-1 e GIP e ainda mantém preço elevado. Sua patente só deve expirar daqui a cerca de uma década, segundo as informações apresentadas. Para quem recebe salário mínimo, uma economia de R$ 1 mil não transforma um tratamento caro em tratamento acessível; apenas muda o tamanho do abismo.

Por que o tratamento não termina na aplicação da caneta?

O tratamento da obesidade exige medicamento, acompanhamento nutricional e atividade física, combinação que amplia o custo e a desigualdade de acesso. As canetas que simulam o GLP-1 elevaram a perda de peso possível de cerca de 5% a 10%, observada em medicamentos mais antigos, para até 17%; com a tirzepatida, o índice pode chegar a 22%.

Esses resultados são relevantes, mas não transformam a obesidade numa falha individual corrigível por uma injeção semanal. Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), observa que alimentação saudável e exercício dependem do ambiente. É preciso haver parques, equipamentos públicos, tempo disponível, segurança e acesso a alimentos adequados. A prescrição pode ser moderna; o bairro continua sendo o mesmo.

O especialista define obesidade e desnutrição como distúrbios nutricionais ligados ao contexto social. A doença não nasce apenas no corpo de uma pessoa, mas também nas condições que moldam sua rotina. Quando o debate reduz tudo a força de vontade, transforma desigualdade em culpa e vende como escolha individual aquilo que também é produto de renda, território e oportunidade.

Quem consegue usar as canetas emagrecedoras?

A maioria dos usuários das canetas emagrecedoras tem mais recursos financeiros e, segundo especialistas, muitas vezes não possui indicação terapêutica. O uso se espalha entre pessoas que buscam o chamado emagrecimento social, isto é, a pressão para reduzir o peso e alcançar um padrão corporal específico.

Enquanto isso, pacientes com obesidade e indicação médica enfrentam uma decisão de orçamento. A endocrinologista Rachel Teixeira relata casos de pessoas perguntando se podem parcelar três meses de tratamento no cartão, embora saibam que precisarão comprar novas doses depois. O tratamento não é uma assinatura de streaming que se cancela sem consequência: ao interromper o uso, a tendência é o peso retornar ao patamar inicial.

Por essa razão, médicos avaliam a situação socioeconômica antes de indicar a melhor estratégia. Teixeira afirma que, para pacientes com IMC acima de 30, existe responsabilidade de oferecer algum tratamento medicamentoso, mas isso não significa empurrar uma dívida para dentro da receita. Se o custo não cabe no orçamento, alternativas mais baratas podem ser consideradas, sem transformar a impossibilidade de pagar em fracasso clínico.

O que acontece quando o acesso empurra pacientes para o mercado ilegal?

O mercado ilegal oferece medicamentos contrabandeados, inclusive produtos vindos do Paraguai, sem garantia de pureza, transporte adequado, armazenamento ou composição confiável. A Anvisa condena essa prática porque o paciente não consegue verificar o que realmente está dentro da caneta.

Bruno Gualano resume o risco: não se sabe como esses produtos foram transportados, em que condições chegaram ao consumidor ou se contêm impurezas. A aparência de uma embalagem pode ser convincente; a farmacologia, infelizmente, não se deixa auditar pelo design da caixa.

Para o endocrinologista Paulo Miranda, coordenador do Departamento Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a procura pelo contrabando mostra a urgência de políticas públicas efetivas. A ausência de canetas emagrecedoras no SUS divide os pacientes entre aqueles que conseguem comprar regularmente e aqueles que assumem riscos para obter um tratamento necessário.

Miranda defende que essas medicações sejam incluídas por um custo aceitável para o público que pode se beneficiar delas. A discussão não deveria ser travada entre tecnologia e estilo de vida, nem entre corpo magro e corpo gordo. O ponto mais simples é também o mais incômodo: um tratamento que funciona, mas só chega a quem pode pagar, revela menos sobre o futuro da medicina do que sobre o presente da desigualdade.

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