Uma pesquisa publicada em 2026 no JAMA Network Open acompanhou 6.400 pessoas e reuniu registros de cerca de 360 mil gases intestinais. O horário que se destacou foi o começo da noite: os episódios aumentaram depois das 18h e diminuíram novamente após as 22h. A ciência, enfim, decidiu encarar uma questão que costuma ficar restrita ao sofá, ao elevador e àquele silêncio constrangedor no escritório.
Os participantes anotaram cada ocorrência no celular, usando o aplicativo Chart Your Fart, nome que não parece ter passado por uma reunião de marketing muito longa. Sempre que possível, o registro era feito na hora. Quando o contexto não ajudava — uma reunião, um ônibus lotado, um jantar com gente nova — era permitido anotar depois. Cada pessoa acompanhou pelo menos dois dias úteis e um dia do fim de semana, sem ter realizado mudanças recentes importantes na alimentação.
O cuidado com a dieta tinha motivo. Um aumento no consumo de fibras pode alterar o funcionamento digestivo, provocando mais gases e, em alguns casos, constipação. O tempo médio de acompanhamento foi de dez dias por participante, embora uma pessoa tenha mantido as anotações durante 97 dias. No conjunto, a média ficou em cinco episódios por dia, medida pelos pesquisadores em “flatos por dia” — fls/d, uma unidade que dificilmente ganhará espaço em uma camiseta, mas serve ao propósito.
Homens registraram gases com frequência ligeiramente maior que mulheres. O grupo mais jovem, de 14 a 25 anos, apresentou a menor média; já a faixa de 26 a 45 anos teve a maior. Esses números descrevem o comportamento observado, não uma lei universal do intestino. Há pessoas que transformariam a média em uma manhã e outras que passariam uma tarde inteira sem contribuir para a estatística.
Por que os gases aumentam no começo da noite?
Os gases registrados aumentaram depois das 18h e caíram após as 22h, segundo os dados do estudo. O pico coincidiu com o período em que muita gente termina as atividades do dia, chega em casa e faz a refeição da noite. A comparação com o consumo alimentar mostrou uma relação entre maior ingestão de fibras e maior ocorrência de flatulência. Relação, não prova de causa — não, o contrário —, e essa distinção é a parte menos engraçada da história.
Fibras presentes em alimentos como feijão, brócolis e repolho podem aumentar a produção de gases durante a digestão. Os pesquisadores observaram uma elevação gradual no horário do almoço, uma queda no meio da tarde e um aumento mais forte depois da refeição noturna. Talvez o intestino apenas esteja respondendo ao expediente alimentar; talvez a rotina social também pese. Em casa, longe de colegas e desconhecidos, a censura corporal costuma perder força.
Soltar gases é um processo biológico normal: gases do trato digestivo atravessam o ânus, alguns com odor e outros praticamente sem cheiro. A vergonha é cultural; a química, nem tanto. O levantamento não indica que sentir mais flatulência à noite seja, por si só, sinal de problema. Ele mostra um padrão médio, e médias são criaturas úteis, desde que ninguém tente morar dentro delas.
O que a contagem não consegue medir?
A pesquisa contou episódios, mas não mediu o volume liberado em cada um. Isso importa porque um registro pode representar uma ocorrência discreta ou uma quantidade muito maior de gás. Um estudo publicado em 1991 na revista Gut, usando um cateter retal, encontrou volumes entre 476 e 1.491 mililitros entre indivíduos. Os participantes daquele experimento haviam acrescentado feijão cozido à dieta, portanto os resultados não representam necessariamente a vida cotidiana, mas revelam como a variação individual pode ser ampla.
Também é possível que alguns episódios tenham escapado das anotações. Os voluntários estavam vivendo suas rotinas, sem sensores ou roupas íntimas inteligentes capazes de transformar cada ruído em dado. E muita gente segura gases em público por uma questão de sobrevivência social básica. O aumento noturno pode refletir, em parte, o fato de as pessoas estarem em casa e mais dispostas a deixar a fisiologia seguir seu curso.
O estudo não acompanhou o sono, então não há informação sobre a frequência durante a madrugada. Também não foi possível registrar um dia em que alguém não tivesse soltado gás; caso esses dias existam, a média pode ter ficado artificialmente alta. Ainda assim, anotar os episódios em tempo real oferece uma fotografia razoável do comportamento natural. A conclusão é menos explosiva do que o título sugere, mas talvez mais útil: para a maioria das pessoas, um pouco mais de flatulência à noite parece normal.


