Energia solar para todos até 2030: o que falta para essa meta sair do papel

Levar energia limpa e acessível a todas as pessoas até 2030 é uma meta ambiciosa, mas deixou de parecer ficção distante. A expansão da energia solar, a queda no preço das baterias e o avanço das fontes renováveis mudaram a conta. Ainda faltam infraestrutura, financiamento e vontade política — justamente os itens mais difíceis de instalar. Uma carta aberta assinada por Bill McKibben, Christiana Figueres e Catherine McKenna convoca governos, empresas, instituições e cidadãos para acelerar esse esforço. O ponto não é prometer uma placa solar em cada telhado amanhã. É decidir se o planeta continuará pagando caro por uma tecnologia antiga.

A energia solar já cresce rápido o bastante?

Sim, a energia solar cresce em ritmo recorde, embora ainda não seja suficiente para garantir eletricidade universal até 2030. Segundo o centro de pesquisas Ember, a capacidade instalada aumentou 30% em 2025 na comparação com o ano anterior e ficou mais de dez vezes maior do que em 2015. A geração solar também registrou, naquele ano, seu avanço mais acelerado em oito anos.

O dado ajuda a explicar por que especialistas passaram a tratar a energia solar como uma tecnologia de escala, não como um acessório ecológico para consumidores de renda alta. Catherine McKenna a descreve como “a forma mais barata de eletricidade da história”. A frase é forte, talvez forte demais para caber em todas as realidades locais, mas aponta para uma mudança concreta: os módulos solares ficaram mais baratos, e as baterias também. Produzir eletricidade durante o dia e guardá-la para depois já não é uma extravagância técnica.

Em 2025, as fontes renováveis superaram o carvão pela primeira vez em um século na matriz global de eletricidade, segundo a Ember. Isso não significa que o carvão desapareceu, nem que a transição esteja resolvida. Significa que a direção do crescimento mudou. A velha usina continua de pé; o problema é que a alternativa deixou de ser pequena.

Quanto seria necessário para levar eletricidade a todos?

Para levar eletricidade a todos, o mundo precisaria ampliar a capacidade renovável de cerca de 3 terawatts para algo próximo de 50 terawatts, segundo Eicke Weber. Um terawatt equivale a 1.000 gigawatts; uma usina nuclear típica tem capacidade próxima de 1 gigawatt. A comparação é imperfeita, mas serve para dimensionar o tamanho do salto.

Hoje, o planeta adiciona aproximadamente 1 terawatt de nova capacidade fotovoltaica por ano, com grande parte desse crescimento concentrada na China. Se o ritmo continuar e outros países conseguirem acompanhar, a expansão deixa de ser uma promessa abstrata e vira uma operação industrial gigantesca. Painéis, redes de transmissão, baterias, crédito e profissionais precisam aparecer em conjunto. Uma peça atrasada emperra a máquina inteira.

Os números sobre o acesso atual variam conforme a fonte e o critério usado. O conteúdo cita cerca de 655 milhões de pessoas sem eletricidade e também uma estimativa próxima de 1 bilhão de pessoas sem acesso confiável. A diferença não é detalhe estatístico: ter uma ligação formal à rede não equivale a contar com energia estável para estudar, conservar alimentos ou administrar um pequeno negócio.

Na África Subsaariana, McKenna afirma que o ritmo da eletrificação precisaria triplicar para que o acesso universal fosse alcançado até 2030. A energia solar pode encurtar o caminho porque muitas comunidades sem rede elétrica não precisam esperar pela construção de uma infraestrutura centralizada. Sistemas locais, combinados com armazenamento, permitem uma espécie de salto tecnológico — não, o contrário: evitam repetir uma etapa cara e poluente.

Quais são os principais obstáculos para a transição?

Os principais obstáculos são financiamento, infraestrutura de rede e decisão política, não a ausência de tecnologia. Eicke Weber, ex-diretor do Instituto Fraunhofer para Sistemas de Energia Solar, afirma que os recursos técnicos já existem e que também há dinheiro suficiente para bancar a expansão. O entrave está em mobilizar esse dinheiro na escala necessária, sobretudo nos países que mais precisam ampliar o acesso.

A intermitência do Sol continua sendo uma questão prática. Painéis não produzem à noite, e nuvens alteram a geração durante o dia. As baterias ajudam a equilibrar essa variação, mas exigem fabricação, mineração, manutenção e conexão a redes capazes de distribuir a energia. A resposta, portanto, não é escolher entre solar e eólica como quem escolhe time de futebol. É combinar fontes, armazenamento, hidrelétricas e bioenergia, de acordo com as condições de cada região.

Hans-Josef Fell, um dos responsáveis pela formulação da Lei alemã de Energias Renováveis, sustenta que as projeções costumam subestimar a velocidade das transformações. À frente do Energy Watch Group, ele avalia que um sistema global baseado em renováveis poderia obter entre 60% e 70% de sua oferta a partir da energia solar. O restante viria principalmente da energia eólica, além de hidrelétricas e bioenergia. A estimativa é ousada. Também é menos absurda do que parecia alguns anos atrás.

A meta de energia limpa até 2030 é possível?

A meta é tecnicamente possível, mas alcançar energia limpa e acessível para todos até 2030 exigiria uma mobilização política e financeira sem precedentes. Weber compara o esforço aos grandes projetos históricos, enquanto Fell admite que mesmo atingir 90% do objetivo já seria um feito extraordinário. A distância entre 90% e 100% não é um rodapé; envolve as comunidades mais remotas, as redes mais frágeis e os governos com menos capacidade de investimento.

China e Paquistão são apontados como exemplos do potencial de aceleração. Ainda assim, não existe um modelo único que possa ser copiado sem adaptação. Um país pode priorizar grandes usinas; outro pode precisar de sistemas distribuídos em aldeias, ilhas ou regiões montanhosas. A engenharia muda com o território. O financiamento também deveria envolver governos, bancos multilaterais de desenvolvimento e empresas privadas, em vez de depender de uma única fonte.

O debate costuma ser apresentado como uma escolha entre custo e clima. Só que os combustíveis fósseis também carregam custos, riscos e impactos que aparecem na conta de saúde, na instabilidade dos preços e nos desastres ambientais. McKenna chama essa dependência de aposta em uma tecnologia do passado. Talvez a frase seja mais útil como provocação do que como diagnóstico completo: petróleo, gás e carvão ainda sustentam boa parte do sistema mundial. Mas a pergunta mudou. Já não é se a energia solar consegue crescer; é se governos aceitarão crescer na mesma velocidade.

Em Lesoto, no Quênia ou em qualquer lugar onde uma rede confiável ainda não chegou, o painel solar representa mais do que uma fonte de eletricidade. Pode significar iluminação, comunicação, refrigeração e atividade econômica sem a longa espera por uma usina convencional. A corrida até 2030 não será vencida apenas com placas brilhando ao sol. Será decidida no crédito aprovado, no fio instalado e na escolha política feita antes de a próxima noite cair.

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