A China prepara o TMS-10, um avião experimental supersônico projetado para transportar de 10 a 15 passageiros e alcançar Mach 2, cerca de 1.300 milhas por hora. Se o desenvolvimento seguir o cronograma anunciado, o demonstrador deverá fazer seu primeiro voo de teste até o fim de 2026. A promessa é reduzir a viagem entre Pequim e Xangai de aproximadamente duas horas para apenas 30 minutos. Promessa, aqui, é a palavra importante.
O projeto entrou na fase final de montagem no início de setembro, segundo informações divulgadas pela China. O avião é desenvolvido pelo Tianmushan Laboratory em parceria com a Universidade de Beihang. Ele representa um salto em relação ao protótipo em escala 1:18 testado em junho de 2025. Naquela ocasião, o modelo voou abaixo de Mach 0,2, enquanto os pesquisadores avaliavam decolagem, estabilidade, controle e pouso em baixa velocidade. O próximo passo é bem menos comportado: levar uma aeronave em tamanho real à velocidade do som e tentar não acordar a vizinhança.
Como o TMS-10 pretende reduzir o estrondo sônico?
O TMS-10 pretende reduzir o estrondo sônico ao impedir que as ondas de choque formadas no nariz e nas asas se combinem em uma única onda mais intensa. Para isso, o desenho combina uma asa dianteira, chamada canard, com uma configuração de cauda em T. Elementos na parte traseira também devem redirecionar e enfraquecer as ondas sonoras antes que elas alcancem o solo. É uma abordagem diferente da adotada pelo X-59, da NASA, que busca transformar o estrondo em um ruído muito mais discreto, descrito como um “solavanco” sônico.
A distinção parece pequena no desenho, mas é decisiva para o uso comercial. Desde o Concorde, o barulho produzido por aeronaves supersônicas limita os voos sobre áreas habitadas e transforma uma questão de engenharia em problema regulatório. O TMS-10 tenta trabalhar com a geometria do avião antes que o som vire uma pancada completa. Não basta voar rápido; é preciso convencer quem está embaixo de que a passagem não foi uma explosão distante. Talvez seja aí que esteja a parte mais difícil do projeto.
Quando o avião chinês poderá voar em velocidade supersônica?
O TMS-10 poderá atingir Mach 2 em cruzeiro, mas ainda precisa concluir testes fundamentais antes de qualquer operação comercial. Os engenheiros, conforme relatado pelo jornal Global Times, ainda precisam finalizar e validar o núcleo do motor, o sistema de escapamento e as entradas de ar. Também serão necessários novos testes com modelos atualizados para fechar o desenho da aeronave. Em velocidade tão alta, o avião enfrenta aquecimento intenso da estrutura, exigências de resistência e a necessidade menos glamourosa de manter passageiros confortáveis.
O projeto também prevê voos subsônicos a aproximadamente Mach 0,95, ou 730 milhas por hora. Essa capacidade pode ser útil quando a rota ou as regras de operação não permitirem romper a barreira do som. Mas o número de Mach, sozinho, não compra uma passagem: entram na conta o motor, o consumo, a manutenção, a certificação e o ruído. O TMS-10 ainda está longe dessa fila de balcões.
A China, portanto, não começa do zero, mas também não está na frente em tudo. O X-59 da NASA já alcançou Mach 1,5, cerca de 990 milhas por hora, voando a 55 mil pés no início de 2026. O avião americano também busca viabilizar o transporte supersônico comercial, embora por uma receita acústica diferente. Um pretende amortecer o estrondo. O outro tenta desmontá-lo antes que nasça. Se o TMS-10 conseguir transformar essa ideia em voo confiável, Pequim e Xangai podem ficar a meia hora de distância — no mapa e, talvez, no relógio.

