O problema mais perigoso da inteligência artificial em escritórios de advocacia talvez não seja a alucinação. É a honestidade fora de hora: o sistema responde corretamente a uma pessoa que não deveria ter acesso àquela informação. Em um ambiente com barreiras éticas, negociações confidenciais e dados sensíveis, saber a resposta não basta. É preciso saber quem está perguntando.
Essa é a aposta da Intapp, empresa de software criada no início dos anos 2000 depois de uma reclamação curiosa. Um advogado que analisava um pedido de patente da companhia percebeu que o próprio escritório era desorganizado justamente naquela área e perguntou se poderia licenciar o produto. O diretor de tecnologia do escritório gostou tanto da solução que deixou o emprego, entrou na Intapp como primeiro vendedor e abriu a porta para outros clientes. O resto veio por indicação — negócio antigo, mecanismo ainda bastante eficiente.
Por que a Intapp escolheu um mercado tão específico?
A Intapp atende grandes escritórios e empresas de serviços profissionais, um mercado amplo em dinheiro e estreito em exigências. A companhia vende software para escritórios de advocacia e contabilidade, bancos de investimento, gestoras de private equity e consultorias. John Hall, CEO da empresa, descreve esse público como “grandes firmas organizadas em sociedades” e estima que ele movimente cerca de US$ 4 trilhões em receita anual nos Estados Unidos.
O número parece convidativo, mas a dificuldade está escondida na administração cotidiana. Uma firma pode ter 3 mil funcionários, centenas de clientes e documentos que não podem circular livremente. Quem pode consultar determinado arquivo? Quem deve ficar afastado de uma negociação? Como provar, dois anos depois, que o bloqueio foi aplicado? Criar um modelo de linguagem é difícil. Criar um sistema que conheça a hierarquia de permissões de uma firma e registre suas decisões é outro bicho.
A Intapp também acumulou uma vantagem menos vistosa que um modelo novo: dados específicos e infraestrutura de conformidade construídos ao longo de duas décadas. A empresa não captou capital de venture capital antes da abertura de capital, em 2021. Seu crescimento foi alimentado pelo próprio nicho, uma escolha pouco habitual no Vale do Silício e bastante útil quando o assunto é conhecer, nos detalhes, a burocracia alheia.
O que significa uma IA governada?
Uma IA governada responde levando em conta a identidade, as permissões e as restrições éticas de quem fez a pergunta. Essa é a diferença central entre a plataforma Celeste, da Intapp, e assistentes genéricos ou ferramentas voltadas à prática jurídica, como Harvey e Legora, parceiros ou concorrentes mencionados pela companhia.
John Hall resumiu o problema de maneira desconfortavelmente simples: os sistemas horizontais podem dizer a verdade, mas a pessoa que recebe a resposta talvez não pudesse conhecê-la dentro da firma. Imagine alguém protegido por uma barreira ética em uma operação. O usuário pergunta, insiste, reformula o pedido e, com algum talento para conduzir a conversa, consegue chegar ao dado. Não houve alucinação. Houve vazamento — uma espécie de sinceridade com crachá errado.
A Celeste foi apresentada em um evento de produtos realizado em fevereiro e chegou à disponibilidade geral em 15 de julho. A proposta é aplicar ao software as mesmas restrições que alcançam os funcionários: barreiras éticas, regras sobre informação relevante não pública e exigências de independência. Um sócio impedido de participar de uma negociação deveria receber da ferramenta a mesma resposta que receberia de um colega responsável: nenhuma resposta. Cada interação também deixa uma trilha de auditoria, caso reguladores façam perguntas depois.
É aí que o produto se distancia do chatbot que simplesmente tenta responder ao comando. A informação pode até existir no sistema, mas isso não significa que deva aparecer na tela. Parece uma distinção semântica. Não é. Em um escritório, a pergunta correta pode ser a que o sistema se recusa a responder.
Os resultados justificam o entusiasmo com a empresa?
Os resultados financeiros da Intapp foram robustos no ano fiscal encerrado em 30 de junho. A receita recorrente anual na nuvem chegou a US$ 495,7 milhões, alta de 29% em um ano. A ARR total alcançou US$ 590,5 milhões, crescimento de 22%, enquanto a receita ficou em US$ 577,8 milhões, avanço de 15%.
A empresa também apresentou lucro líquido ajustado de US$ 103,6 milhões e fluxo de caixa livre de US$ 144,7 milhões, equivalente a 25% da receita. O número de clientes que pagam mais de US$ 1 milhão por ano subiu de 109 para 142. A Microsoft participou da venda de oito dos dez maiores contratos, e mais de 30 migrações para a nuvem foram assinadas no quarto trimestre, recorde da companhia.
O mercado reagiu. Em 14 de agosto, as ações acumulavam alta aproximada de 20% desde a divulgação do balanço e de 93% em três meses, embora ainda estivessem 16% abaixo do pico histórico de dezembro anterior. Com valor de mercado de US$ 3,07 bilhões, a Intapp era negociada a cerca de 5,3 vezes as vendas e 20,4 vezes a estimativa de lucro futuro. Não é uma pechincha automática, mas também não parece extravagante para uma empresa com crescimento de assinaturas de 27% e geração real de caixa.
O ponto de interrogação está na Celeste. A plataforma só ficou disponível para todos depois do encerramento do ano fiscal de 2026, portanto sua aceitação comercial e sua capacidade de gerar receita ainda precisam aparecer nos números. A administração estima um mercado endereçável de US$ 50 bilhões para software agentivo voltado a serviços profissionais. Talvez essa fatia seja alcançável; talvez o mercado esteja apenas encantado com a palavra “agentivo”. O teste será menos cinematográfico: descobrir se as firmas pagam para que a máquina saiba quando calar a boca.




