Bill Gates vê a inteligência artificial como um evento evolutivo, mas não no sentido confortável da palavra. À medida que sistemas aprendem a executar tarefas intelectuais e robôs humanoides avançam sobre o trabalho físico, milhões de pessoas podem perder espaço. O problema, segundo ele, não está apenas na capacidade das máquinas, mas no incentivo empresarial: contratar o robô, demitir o humano e seguir adiante. A prosperidade pode aumentar. A rede de proteção, não necessariamente.
Na avaliação de Gates, a substituição deve alcançar quase todas as categorias de trabalho. Primeiro, as habilidades de invenção; depois, as atividades de escritório; por fim, com robôs humanoides, parte do esforço físico humano. É uma sequência menos parecida com a chegada de uma nova ferramenta e mais com a troca gradual do operador pelo próprio sistema. A diferença importa porque governos terão de financiar educação, requalificação e assistência justamente quando a arrecadação ligada ao trabalho estiver encolhendo.
Ele defende, por isso, novas fontes de receita. Uma possibilidade seria criar impostos sobre o uso de IA, talvez na forma de uma cobrança por token — a unidade usada para medir o processamento de modelos. Gates também afirma que bilionários deveriam pagar mais. Diz ter desembolsado US$ 14 bilhões em impostos ao longo da vida, mas que aceitaria ter pago US$ 40 bilhões. Não é uma proposta modesta; é uma régua para a discussão.
Como a IA pode afetar empregos e impostos?
A IA pode reduzir a demanda por trabalhadores em tarefas intelectuais e físicas, enquanto obriga os governos a repensar a arrecadação e o financiamento da rede de proteção. A conta não fecha sozinha: se empresas substituem pessoas por máquinas, a receita tradicional do trabalho perde força, mesmo que a economia produza mais.
Gates também aponta um problema fiscal mais amplo. Em vários países ricos, incluindo os Estados Unidos, os gastos públicos e a arrecadação caminham cada vez mais separados. Ele considera inevitável elevar impostos em algum momento, mas admite que parte das despesas terá de ser contida. A IA torna essa equação mais áspera, porque o ganho de produtividade pode ficar concentrado nos donos da tecnologia enquanto o custo da transição se espalha pela sociedade.
Há, claro, o lado luminoso da máquina: a descoberta de medicamentos pode acelerar, e aplicações científicas antes caras ou lentas podem se tornar acessíveis. Mas Gates chama o avanço tecnológico de um teste real para a qualidade dos governos. Não basta ter modelos poderosos; é preciso decidir quem se beneficia, quem paga e quem fica sem ocupação. Parece administração pública. É administração pública, só que com servidores que escrevem código.

Quais são os riscos mais urgentes da inteligência artificial?
Os riscos mais imediatos, para Gates, são o bioterrorismo e os ataques cibernéticos; até o fim da década, sistemas de IA também poderão operar além do controle humano. Por isso, os próximos três ou quatro anos serão decisivos para tratar seriamente dos problemas de alinhamento, isto é, da possibilidade de uma IA perseguir objetivos incompatíveis com os interesses humanos.
O Reino Unido tenta responder com uma combinação de regulação, capacidade estatal e investimento. O governo anunciou £100 milhões para um laboratório de biosegurança voltado ao monitoramento de ameaças biológicas e ao desenvolvimento de contramedidas médicas. O projeto terá até £200 milhões em créditos de modelos oferecidos por Anthropic e OpenAI. O Instituto de Segurança de IA receberá mais £120 milhões para testar as capacidades dos modelos.
Outros £60 milhões serão destinados a um escudo cibernético nacional, £70 milhões a um centro de vulnerabilidades em tempo real e £23 milhões ao Instituto de Economia da IA, presidido pelo vencedor do Nobel Simon Johnson. O fundo soberano britânico de IA ganhará £120 milhões, aumento de cerca de 25%, divididos entre investimentos em empresas promissoras e pesquisa aplicada em segurança cibernética e saúde.
Por que Estados Unidos, China e Reino Unido precisam cooperar?
Estados Unidos e China precisarão tratar alguns riscos da IA como um desafio à humanidade, não como uma disputa de soma zero entre Estados. A frase resume o dilema das chamadas potências intermediárias, como o Reino Unido, que tentam preservar autonomia num setor dominado por dois gigantes.
A estratégia britânica não exige reproduzir toda a cadeia de produção, dos chips aos modelos, mas escolher capacidades estratégicas que outros países tenham dificuldade de dispensar. Entre as possibilidades estão uma atuação internacional nas avaliações de segurança, infraestrutura computacional doméstica e conhecimento em desenho de chips. É uma aposta seletiva, não uma fantasia de autossuficiência. Mesmo assim, depender de tecnologias estrangeiras deixa qualquer governo com pouco espaço de manobra.
Gates ainda reconheceu arrependimento por sua relação com Jeffrey Epstein, financista condenado por crimes sexuais e tema de uma audiência no Congresso americano em junho. Disse que foi prejudicial ter passado tempo com ele e que espera ter aprendido algo capaz de superar a dor e os problemas causados. A inteligência artificial, nesse retrato, não chega a um mundo organizado: encontra governos pressionados, interesses concentrados e decisões humanas que já deram errado antes. A máquina pode ser nova. A responsabilidade, não.

