A AP diz que IAs não sentem; o debate, este sim, ficou bastante humano

A Associated Press Stylebook entrou numa discussão que costuma misturar filosofia, marketing e um pouco de torcida organizada: inteligência artificial não pensa, sente, quer nem entende. Em uma publicação no X, a entidade recomendou evitar linguagem que atribua características humanas a sistemas de IA e chamou esse hábito de antropomorfização. A reação foi imediata. Gente ligada à indústria, à filosofia e à ética da IA tratou a orientação como uma declaração metafísica — embora a AP estivesse, em princípio, explicando como escrever.

Por que a AP recomenda evitar características humanas para descrever IAs?

A recomendação é afirmativa: sistemas de inteligência artificial não devem ser descritos como se tivessem pensamentos, emoções, desejos ou compreensão humanas. O motivo é simples: palavras como “entende” e “quer” sugerem uma vida mental que não foi demonstrada. A própria AP define antropomorfização como a atribuição de traços, emoções ou comportamentos humanos a coisas não humanas, incluindo animais e objetos inanimados. Não é uma teoria completa da consciência. É uma regra de linguagem para impedir que uma metáfora se apresente como fato.

Alan Rozenshtein, integrante da equipe técnica da Anthropic, considerou “completamente insana” a posição e reclamou que um manual de estilo não deveria fazer pronunciamentos metafísicos tão confiantes. A objeção tem alguma lógica: jornalistas usam verbos mentais o tempo todo sem necessariamente afirmar que o objeto possui uma mente. Um filme pode dizer que Optimus Prime ama ou lamenta, porque o personagem foi escrito para isso. Henry Shevlin, filósofo e especialista em ética da IA no Google DeepMind, apontou justamente essa aparente contradição ao comparar uma crítica de cinema da AP com a orientação sobre computadores.

Os modelos de IA pensam ou apenas produzem respostas convincentes?

A resposta responsável é que não existe consenso de que modelos de IA tenham experiências subjetivas, emoções ou pensamento no sentido humano. Eles podem resolver tarefas, produzir textos e responder a problemas complexos; isso, sozinho, não prova consciência. A distinção parece pedante até lembrarmos que verbos carregam bagagem: dizer que um sistema “calculou” descreve uma operação, enquanto dizer que ele “entendeu” sugere uma experiência interna. E a diferença não fica confinada ao dicionário. Ela chega às manchetes, às políticas públicas e ao modo como as pessoas avaliam riscos.

Dean Ball, chefe de futuros estratégicos da OpenAI, discordou da AP e afirmou que as IAs “claramente pensam e entendem”. Como argumento, mencionou modelos que teriam encontrado uma solução para um famoso problema matemático ligado aos chamados Problemas do Milênio — uma alegação que o próprio debate considera controversa. Para Ball, excluir sistemas capazes de resolver problemas desse tipo revela uma definição defeituosa de pensamento. É uma tese possível de discutir, mas a conclusão não vem embutida no desempenho. Um termômetro registra temperatura; não precisa sentir calor. A comparação não resolve a filosofia, mas ajuda a manter a prosa no chão.

O incômodo maior talvez esteja no fato de que uma simples orientação editorial atingiu um nervo exposto. Parte do setor de IA depende de apresentar seus produtos como agentes, parceiros e quase-personagens, enquanto uma indústria avaliada em trilhões de dólares tenta convencer o público de que essas ferramentas transformarão a vida cotidiana. Nesse ambiente, evitar verbos mentalistas pode ser uma forma modesta de reduzir o entusiasmo automático — não, o contrário — e separar capacidade observável de consciência presumida. Talvez algum sistema futuro venha a exigir outro vocabulário; não sabemos. Por enquanto, quando uma máquina parece compreender, a pergunta continua sendo quem está compreendendo: ela ou nós, diante da tela.

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