Philip Morrison ajudou a montar a Fat Man, a bomba de plutônio lançada sobre Nagasaki em 9 de agosto de 1945, e depois passou a vida defendendo aviso prévio e controle internacional das armas nucleares. Seu relato expõe menos uma decisão isolada do que um mecanismo difícil de interromper: projeto secreto, guerra em andamento, ordens já distribuídas e autoridades incapazes de parar para olhar o que haviam construído.
Trinta anos depois, o físico descreveu ao jornalista Melvyn Bragg, da BBC, em 1975, a distância entre conhecer os efeitos de uma arma por meio de cálculos e enxergar a destruição diante dos olhos. Essa distância é o centro moral da história. Números explicam a explosão; não explicam sozinhos o que acontece quando uma cidade deixa de ser uma abstração.
Qual foi o papel de Philip Morrison no Projeto Manhattan?
Morrison entrou no Projeto Manhattan pelo Metallurgical Laboratory, em Chicago, e depois foi para Los Alamos, dirigido por seu antigo professor J. Robert Oppenheimer. Ali ajudou a montar a bomba de plutônio Fat Man, usada contra Nagasaki. Esteve também no teste Trinity, em 16 de julho de 1945, a primeira detonação nuclear da história. Em uma das tarefas mais delicadas do programa, transportou o núcleo de plutônio no colo, no banco traseiro de um sedã Dodge, de Los Alamos até o campo de provas em Alamogordo, no Novo México.
Depois viajou para Tinian, ilha das Marianas logo ao sul de Saipan, de onde partiam os B-29 responsáveis pelos ataques. Aos 30 anos, supervisionou a montagem da bomba e seu carregamento no B-29 Bockscar, em 9 de agosto, apenas três dias após Hiroshima. O cenário era industrial — mas os números que ele registrou descreviam a campanha incendiária convencional: seis pistas de quase duas milhas cada, no que chamou de “maior aeroporto do mundo”, navios-tanque descarregando milhares de toneladas de gasolina de aviação e um B-29 decolando a cada quinze segundos durante uma hora e meia, segundo o depoimento que prestou a um comitê do Senado em dezembro de 1945.
Por que a bomba de Nagasaki pareceu diferente dos ataques convencionais?
A bomba atômica parecia diferente porque concentrava em um único artefato uma destruição que antes exigia centenas ou milhares de aeronaves. Morrison contrastou a operação nuclear com os ataques incendiários, que envolviam navios, depósitos de bombas, especialistas em armamentos e frotas inteiras de aviões.
Em Tinian, a Fat Man era cercada por cerca de 25 pessoas de Los Alamos, algumas cabanas Quonset convertidas em laboratórios e um prédio protegido por barricadas. Depois da meia-noite, quando o campo estava praticamente deserto, um único avião percorreu a pista e seguiu para a cidade inimiga. A diferença não estava apenas na tecnologia. Estava na compressão brutal entre preparação e consequência: uma equipe pequena, uma aeronave, uma bomba e uma cidade inteira convertida em alvo.
Quantas pessoas morreram nos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki?
As estimativas variam muito e permanecem em disputa. Em Nagasaki, cerca de 40 mil pessoas morreram na explosão inicial; a contagem até o fim de 1945 costuma ser fixada em torno de 70 mil, e projeções mais altas atribuem ao ataque mais de 100 mil mortes ao longo dos anos seguintes. Em Hiroshima, entre 70 mil e 80 mil pessoas morreram imediatamente, e o total chegou a aproximadamente 140 mil ainda antes do fim daquele ano.
Esses números incluem pessoas atingidas por queimaduras, ferimentos e doença aguda provocada pela radiação. Morrison integrou a equipe científica que avaliou os danos e descreveu o encontro com um funcionário japonês entre os escombros de Hiroshima. A frase atribuída a ele — “Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável” — condensa o choque de perceber que uma única aeronave havia destruído uma área maior e com menos possibilidade de resistência ou fuga do que um ataque de mil aviões.
Por que os cientistas não conseguiram interromper o uso das bombas?
Os cientistas não interromperam o projeto porque a guerra, as expectativas de uma batalha no Pacífico e a cadeia de comando transformaram a continuidade em um impulso quase automático. Morrison liderou jovens físicos que defendiam uma demonstração pública antes de qualquer ataque contra o Japão — proposta que Oppenheimer desestimulou com firmeza.
A ideia era convidar uma delegação internacional para o deserto e exibir a arma antes de empregá-la contra uma cidade. Ele próprio reconheceu, porém, que isso parecia uma ilusão nas circunstâncias de uma guerra. Franklin D. Roosevelt morreu em 12 de abril de 1945, antes de saber se as bombas funcionariam e antes da definição sobre seu uso. Morrison avaliava que Roosevelt talvez tivesse prestígio suficiente para fazer o projeto retroceder. Harry S. Truman ouviu falar de um “projeto imenso” nas horas seguintes à posse, pela boca do secretário de Guerra Henry Stimson, mas só foi informado em detalhe em 25 de abril, quando Stimson e o general Leslie Groves lhe apresentaram o programa completo.
Por que a segunda bomba foi lançada tão rapidamente?
A segunda bomba foi lançada rapidamente porque as ordens militares — a diretriz de 25 de julho de 1945 ao general Carl Spaatz — previam o emprego de bombas adicionais assim que estivessem prontas, sem pausa obrigatória para avaliar os efeitos. Nas palavras de Morrison, não se tratava de uma primeira e de uma segunda bomba: era lançar a bomba um e, em seguida, a bomba dois.
Três dias separaram Hiroshima e Nagasaki. Na leitura do físico, Truman tomou uma decisão, mas também foi tomado por ela: interromper um projeto desenvolvido durante anos, contrariar militares e reorganizar a cadeia de comando exigiria uma ruptura política extraordinária. O plano original previa continuar lançando bombas durante um ano, se necessário. Morrison chegou a preparar um esboço, um cronograma, um substituto e os procedimentos para participar dessas operações. A guerra fabricara a rotina antes que alguém pudesse fabricar a dúvida.
O que os cientistas sentiram ao ver a destruição?
Os cientistas sabiam intelectualmente o que a bomba faria, mas compreenderam sua dimensão apenas quando viram a realidade dos mortos, dos feridos e das cidades destruídas. Para Morrison, essa diferença entre números e sofrimento vivo era enorme: eles sabiam, mas não sentiam.
Na noite do bombardeio de Hiroshima, houve uma festa na base de Tinian, sobretudo entre soldados e integrantes da Força Aérea, que associaram o ataque ao fim da guerra. Muitos cientistas não participaram. Eles permaneceram abatidos, pensando no que Morrison chamou de “fim do mundo”. A imagem funciona porque não depende de uma conversão repentina: os pesquisadores já conheciam os efeitos previstos. O que mudou foi a passagem do papel para a paisagem, da literatura técnica para uma cidade sem possibilidade de resposta.
Morrison se arrependeu de ter participado do projeto?
Morrison disse que, apesar da oposição determinada e obstinada que mantinha ao uso da bomba, não via como poderia ter agido de outro modo — e que nunca pensou em parar. A rejeição à proliferação nuclear veio depois da guerra, não durante.
Questionado se os Aliados teriam lançado uma bomba sobre Berlim caso ela estivesse pronta antes da derrota alemã, respondeu que sim, “num piscar de olhos”. O inimigo alemão era percebido como a ameaça principal, e essa resposta revela como a moral do projeto estava ligada à identidade do adversário. Ainda em 1945 ele ajudou a fundar a Association of Los Alamos Scientists e, em seguida, a Federation of American Scientists, da qual foi o primeiro presidente. Como professor de Cornell a partir de 1946 — o MIT só viria em 1965 —, fez campanha contra a “terceira bomba” e defendeu que os Aliados deveriam ter dado um aviso apropriado. A condenação posterior não apaga a participação; torna o relato mais incômodo, porque nasce de alguém que esteve dentro da máquina.
Que lição o relato deixa sobre decisões tecnológicas?
O relato mostra que uma tecnologia destrutiva não precisa de unanimidade moral para avançar; basta que seus participantes aceitem cada etapa como inevitável. Morrison não descreveu cientistas ignorantes dos riscos, mas pessoas que conheciam os cálculos e ainda assim não encontraram uma alavanca política capaz de deter o processo.
Essa é a parte que ultrapassa 1945 sem precisar de analogias fáceis com qualquer novidade contemporânea. Projetos complexos distribuem responsabilidade entre laboratórios, militares, burocracias e autoridades. Quando a decisão chega ao topo, muitas escolhas já parecem antigas demais para serem desfeitas. A bomba de Nagasaki não foi apenas uma explosão: foi também o resultado de uma sequência organizada para continuar. Morrison passou a defender um aviso porque, olhando para trás, viu o ponto ausente da operação — um momento formal de pausa, julgamento e responsabilidade antes do irreversível.




