O porta-aviões de gelo que a Segunda Guerra abandonou: conheça o Projeto Habacuque

Durante a Segunda Guerra Mundial, aviões baseados em terra não alcançavam uma faixa do Atlântico onde submarinos alemães atacavam navios aliados. A resposta imaginada pelo inventor britânico Geoffrey Pyke foi tão extravagante quanto engenhosa: um porta-aviões gigantesco, construído quase inteiramente de uma mistura de gelo e polpa de madeira. Batizado de Projeto Habacuque, o navio deveria levar aeronaves até o meio do oceano, mas acabou derrotado por custos, logística e pela própria evolução da guerra.

Por que os Aliados queriam um porta-aviões de gelo?

O Projeto Habacuque foi concebido para cobrir o chamado Atlantic Air Gap, a região do Atlântico fora do alcance dos aviões que partiam de bases terrestres. Ali, submarinos alemães podiam atacar comboios, mergulhar e esperar a ameaça passar, enquanto destróieres precisavam de mais tempo para localizar e perseguir os alvos. Um porta-aviões estacionado naquela área funcionaria como pista avançada, permitindo reabastecer aeronaves, repor munição e manter patrulhas permanentes contra os U-boats.

Pyke trabalhava no quartel-general de Operações Combinadas do Ministério da Guerra britânico e apresentou uma solução que parecia saída de uma história de ficção científica: transformar um bloco flutuante de gelo em infraestrutura militar. Icebergs, porém, racham, cedem e podem virar, porque a maior parte de sua massa fica submersa. O gelo puro não bastava. Era necessário ensinar o iceberg a obedecer.

O que era o Pykrete e por que ele parecia tão resistente?

O Pykrete era uma mistura de água e polpa de madeira projetada para ser mais resistente e estável que o gelo comum. O cientista austríaco Max Perutz havia desenvolvido um material flutuante com água e serragem, protegido por uma camada de polpa de madeira submersa que retardava o derretimento. Pyke alterou as proporções dos componentes até chegar a uma substância moldável, descrita como resistente quase como concreto.

A demonstração que convenceu os responsáveis militares tinha a delicadeza de uma aposta de bar, embora o bar fosse o comando aliado. Para comparar os materiais, Pyke disparou sua pistola contra um bloco de gelo e depois contra um bloco de Pykrete. O gelo se despedaçou; a bala ricocheteou no Pykrete, passou raspando pela calça de um almirante e atingiu a parede. Lord Louis Mountbatten levou a proposta a Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt e oficiais graduados. O nome Habacuque veio do livro bíblico de mesmo nome.

Qual seria o tamanho do porta-aviões Habacuque?

O projeto previa um convés de 2.000 pés, cerca de 610 metros, com 250 pés de largura e pelo menos 40 pés de espessura. Quarenta canhões protegeriam a estrutura, enquanto uma pista de pouso e dois hangares acomodariam até 150 bombardeiros ou caças. A ideia era criar um navio capaz de suportar ondas violentas e ataques de torpedo, uma espécie de glaciar militar com pista de pouso e artilharia.

O detalhe inconveniente estava na temperatura. O Pykrete precisaria ser mantido a exatamente 3 °F, ou -16 °C, para não perder estabilidade. Isso exigiria uma rede de tubos de aço atravessando a estrutura, preenchidos com salmoura para resfriamento. O plano que pretendia economizar aço, portanto, dependia de uma quantidade enorme dele. A piada estava embutida no projeto: para construir um navio de gelo, seria preciso consumir metal em escala industrial.

Por que o Projeto Habacuque foi abandonado?

Um protótipo começou a ser construído no Canadá no outono de 1943, mas logo ficou claro que a estimativa de conclusão para 1944 era otimista demais. A construção exigiria pelo menos oito meses e 8.000 trabalhadores. Também consumiria 300.000 toneladas de polpa de madeira, volume capaz de comprometer a produção canadense de papel por anos, além de 10.000 toneladas de aço e todo o sistema de refrigeração. O porta-aviões barato ganhou, sem cerimônia, a conta de uma pequena cidade.

Enquanto o projeto absorvia recursos, a situação estratégica mudava. Portugal permitiu que os Aliados usassem aeródromos nos Açores, ampliando a cobertura aérea sobre o Atlântico, e o número de porta-aviões de escolta que protegiam a frota mercante também aumentou. A necessidade de um colosso congelado diminuiu até desaparecer. Mountbatten retirou seu apoio, e o Habacuque foi abandonado. A estrutura de madeira e aço do protótipo ainda repousa no fundo do lago Patricia, em Alberta, onde mergulhadores podem observá-la. Deu gelo.

Via

spot_img