Por que a Starship precisa estar pronta até 2028 para levar astronautas à Lua

A NASA planeja levar seres humanos à Lua novamente na missão Artemis IV, prevista para o início de 2028. O pouso lunar será feito por uma versão modificada da Starship, da SpaceX, mas o foguete ainda está em fase de testes. Se a empresa não provar que consegue operar a nave com segurança, o cronograma — e sua participação na missão — ficará seriamente ameaçado.

O plano prevê que quatro astronautas viajem até a órbita lunar a bordo do foguete Space Launch System (SLS) e da nave Orion, veículos da NASA. Na região da Lua, a Orion deverá acoplar-se à Starship Human Landing System, conhecida como Starship HLS. Dois astronautas passarão para o módulo lunar, descerão à superfície, permanecerão cerca de uma semana realizando atividades científicas e depois retornarão à Orion. Parece um roteiro simples. Não é.

Quais desafios a Starship precisa superar?

A Starship precisa demonstrar voos orbitais confiáveis antes de ser transformada em módulo lunar para a Artemis IV. A resposta é direta: a SpaceX terá de validar o foguete, testar o reabastecimento criogênico em órbita, realizar a acoplagem com a Orion e provar que o veículo consegue pousar e decolar da Lua.

O primeiro voo da Starship ocorreu em 2023 e terminou poucos minutos depois da decolagem, com a explosão do veículo. Para a SpaceX, esse resultado fazia parte de uma estratégia iterativa de desenvolvimento, na qual cada lançamento serve também como teste de engenharia. A abordagem produziu avanços, mas não elimina o calendário. Até setembro de 2026, a Starship havia voado 14 vezes, e o 14º teste marcou um feito importante: o estágio superior Ship alcançou a órbita na primeira tentativa.

Chegar à órbita, contudo, é apenas o começo. A SpaceX precisa mostrar que a operação pode ser repetida sem transformar cada missão em uma aposta. O Starship HLS dependerá da transferência de grandes quantidades de propelente criogênico entre naves no espaço, porque terá de receber combustível em órbita antes de seguir para a Lua. Sem esse reabastecimento, não haverá reserva suficiente para cumprir o trajeto lunar e voltar à órbita.

A acoplagem com a Orion é outro ponto decisivo. A NASA pretende testar esse procedimento durante a Artemis III, planejada para 2027, em uma demonstração na órbita terrestre. Depois virão os testes mais difíceis: pousar o módulo com segurança na superfície lunar e lançá-lo novamente para a órbita da Lua. São etapas independentes, mas o fracasso de qualquer uma delas pode impedir a missão tripulada de 2028 — não, o contrário — obrigar a NASA a rever sua arquitetura.

Existe um plano alternativo para o módulo lunar?

Sim, a Blue Origin pode ser uma alternativa, mas a Blue Moon também está em desenvolvimento e não oferece uma saída pronta. A decisão final deverá considerar a prontidão do módulo e a capacidade de levá-lo até a Lua com segurança, não apenas o contrato já assinado.

A NASA concedeu à SpaceX o contrato do módulo lunar em 2021, quando a missão fazia parte da Artemis III. Em fevereiro de 2026, porém, a agência reformulou a Artemis III como uma demonstração tripulada em órbita terrestre, envolvendo a Ship e a Orion. O retorno de astronautas à superfície lunar foi transferido para a Artemis IV, em 2028. A mudança comprou tempo, mas também tornou a prontidão do pousador uma condição explícita do calendário.

Em março de 2026, a NASA afirmou que a preparação do módulo lunar determinaria qual fornecedor levaria a tripulação até a superfície e de volta à Orion. A formulação mantém a SpaceX como fornecedora contratada, mas deixa aberta a possibilidade de uso da Blue Moon, da Blue Origin, caso a Starship não cumpra os requisitos. O detalhe é que a alternativa corre contra o mesmo relógio.

O foguete New Glenn, responsável por lançar a Blue Moon em direção à Lua, havia voado apenas três vezes até setembro de 2026. Em maio daquele ano, enquanto se preparava para o quarto lançamento, o veículo explodiu na plataforma durante um teste de motor. A Blue Origin, portanto, não aparece como plano B descansado numa prateleira; está em sua própria corrida de engenharia. A Blue Moon também deverá participar do teste em órbita terrestre associado à Artemis III.

Elon Musk resumiu a situação após o acidente do New Glenn com uma frase publicada no X: “Rockets are hard”. É uma obviedade, mas uma obviedade útil. A Starship precisa sair da condição de promessa tecnológica e tornar-se uma máquina operacional: capaz de voar, abastecer-se, acoplar, pousar e partir novamente. Até 2028, cada uma dessas palavras terá de deixar de ser plano e virar procedimento.

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