Donald Trump voltou a vender acesso ao maior lance — desta vez, na forma de um jantar para investidores de uma memecoin. No fim deste ano, os 185 maiores detentores do token $TRUMP devem receber um convite para um evento em um clube de golfe na Virgínia. Os 29 primeiros da lista ainda poderão participar de uma recepção VIP. Um jantar. Um ativo digital. E a presidência dos Estados Unidos no meio da mesa.
O site do evento chama a ocasião de “o jantar mais exclusivo do mundo”, uma escolha de palavras que parece saída de um anúncio de cassino, não de uma agenda presidencial. A lógica, contudo, é bastante concreta: comprar e manter grandes quantidades do token pode render a oportunidade de jantar com Trump. O ingresso não vem impresso. Flutua no preço de uma criptomoeda cujo valor despencou desde o início de 2025.
Memecoins como a $TRUMP são tokens digitais registrados em uma blockchain, mas não funcionam como uma criptomoeda completa, nos moldes do bitcoin. Comprar o ativo não dá participação numa empresa, direito sobre um produto ou qualquer utilidade evidente. Dá, neste caso, uma posição num ranking. E talvez uma cadeira perto do presidente — não, o contrário: a cadeira é justamente o produto.
Como o token $TRUMP se conecta ao acesso político?
O token $TRUMP conecta dinheiro, especulação e acesso político ao usar a posição dos investidores como critério para convidá-los a eventos com Trump. A fórmula já foi testada em maio de 2025, quando o presidente recebeu compradores da memecoin em seu clube na Virgínia, e numa conferência sobre criptomoedas e negócios realizada em Mar-a-Lago.
A repetição importa porque transforma uma iniciativa promocional em modelo de negócio. Quem compra o token não está apenas apostando numa cotação; está tentando comprar proximidade. O mecanismo é simples, quase medieval: acumule mais moedas, suba na hierarquia, aproxime-se do trono. A tecnologia é blockchain. A gramática, bem mais antiga.
Trump não é formalmente o proprietário da empresa que emite a $TRUMP, mas isso não significa que esteja distante do dinheiro. Taxas de transação e outras receitas teriam rendido a ele US$ 636 milhões em 2025. A cifra, sozinha, já faria qualquer jantar parecer uma reunião de acionistas — só que sem acionistas e com sobremesa.
Quanto Trump e sua família lucram com criptomoedas?
Trump e seus filhos também são donos, junto a outros investidores, da World Liberty Financial, empresa que teria gerado US$ 799 milhões para eles em 2025, segundo declarações financeiras apresentadas neste ano. A companhia recebeu ainda um investimento de US$ 500 milhões de um integrante da família real dos Emirados Árabes Unidos no ano anterior.
Há outra memecoin no tabuleiro, a $MELANIA, associada à primeira-dama. Somadas, essas iniciativas formam um ecossistema de tokens, empresas e eventos em que a fronteira entre negócio privado e autoridade pública fica deliberadamente enevoada. Talvez seja esse o ponto: não saber exatamente onde termina a campanha, começa o empreendimento ou entra o Estado.
O jantar, portanto, não é apenas uma excentricidade para colecionadores de criptomoedas. Ele mostra como um ativo sem utilidade clara pode ganhar valor quando é amarrado a uma promessa de proximidade política. O preço da moeda caiu; o preço do acesso, ao que parece, encontrou outro mercado. Resta descobrir quantos lugares cabem à mesa.


