O Paraguai foi vendido durante anos como uma espécie de terra prometida para brasileiros cansados dos impostos, da burocracia e da instabilidade política do Brasil. Bastaria atravessar a fronteira, abrir uma empresa, transferir o patrimônio ou mudar a residência fiscal para encontrar um ambiente mais livre, barato e amigável aos negócios. A propaganda era sedutora. A realidade, ao que parece, resolveu apresentar a conta.
O colapso do Ueno Bank, um dos maiores símbolos da modernização financeira paraguaia, transformou essa promessa em um pesadelo para milhares de correntistas, empresários e investidores. O banco, que afirmava atender cerca de 3 milhões de clientes, entrou em processo de resolução após o Banco Central identificar uma insuficiência gravíssima de capital. O escândalo derrubou o presidente Santiago Peña, colocado em prisão domiciliar após sofrer impeachment em 6 de novembro.
Para brasileiros que apostaram na mudança para o Paraguai, a crise tem um significado particularmente amargo: descobrir que impostos menores não garantem instituições mais sólidas, fiscalização eficiente ou proteção efetiva ao dinheiro.

O dinheiro atravessou a fronteira. O risco também.
Nos últimos anos, influenciadores, consultores e defensores de um liberalismo econômico simplificado transformaram o Paraguai em vitrine de oportunidades. Tributação reduzida, custos operacionais menores e facilidades para empreender passaram a ser apresentados como argumentos quase irresistíveis.
Mas havia uma pergunta que nem sempre recebia a mesma atenção: quem protege o patrimônio quando as instituições encarregadas de fiscalizar o sistema financeiro estão sob suspeita?
A resposta começou a aparecer nas telas dos celulares de clientes do Ueno. Aplicativos deixaram de funcionar, transferências foram interrompidas e recursos ficaram temporariamente inacessíveis.
Entre os atingidos estão brasileiros que se mudaram para o país para estudar, trabalhar ou empreender. A imprensa brasileira relatou o caso de uma comerciante em Hernandarias que mantinha no Ueno suas economias e recebia pagamentos de clientes por meio do banco. Com o bloqueio, o problema deixou de ser apenas financeiro: tornou-se uma ameaça à continuidade do negócio.
É preciso lembrar que dinheiro depositado em conta-corrente não é necessariamente investimento especulativo. Pode ser capital de giro, salário, reserva de emergência ou a poupança de uma vida. Nenhuma dessas pessoas precisa ter assumido voluntariamente um risco elevado para acabar envolvida em um colapso bancário.
O escândalo que atingiu o coração do poder
O caso é ainda mais grave porque o Ueno não cresceu apenas com a confiança dos consumidores. A instituição concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos ligados à previdência e à saúde.
Ao mesmo tempo, investigadores identificaram problemas relacionados a empréstimos concedidos a empresas vinculadas aos controladores do banco. A deterioração patrimonial foi tão profunda que, depois de ajustes contábeis, a solvência ficou abaixo da metade do mínimo legal.
O então presidente Santiago Peña havia mantido participação societária no grupo controlador até 2025. Seu governo também foi acusado de favorecer a instituição e interferir na supervisão regulatória. Peña nega irregularidades, e a apuração das responsabilidades individuais prossegue.
O que se vê, portanto, é uma contradição difícil de ignorar: um país promovido como exemplo de liberdade econômica abrigava uma instituição em rápida expansão, abastecida por recursos estatais e envolvida em suspeitas que alcançaram o centro do poder político.
Quando a liberdade de mercado convive com fiscalização insuficiente e possíveis privilégios para grupos próximos ao governo, o resultado está longe do ideal de concorrência transparente. Parece muito mais uma velha estrutura de favorecimento, agora vestida com a linguagem moderna das fintechs.
A pirâmide das expectativas
Não há comprovação de que o Ueno Bank tenha operado uma pirâmide financeira no sentido jurídico do termo. Mas a trajetória do banco e a retórica que acompanhou sua expansão permitem uma comparação incômoda: uma pirâmide de expectativas, sustentada pela promessa de prosperidade, crescimento acelerado e confiança em instituições que acabaram submetidas a uma crise devastadora.
O produto vendido aos brasileiros não era apenas uma conta bancária. Era uma ideia de país: um lugar onde o Estado atrapalharia menos, o capital renderia mais e o empreendedor estaria protegido dos problemas que conhecia no Brasil.
A quebra dessa narrativa não significa que todo investimento no Paraguai seja ruim, nem que cada banco ou empresa local compartilhe os problemas do Ueno. Significa, contudo, que a estabilidade anunciada precisa resistir a testes muito mais exigentes do que campanhas de marketing, rankings tributários e depoimentos de investidores satisfeitos.
Quem ficou no Brasil também pode pagar a conta
O alerta não se limita a quem atravessou a fronteira.
Brasileiros que continuam morando no Brasil, mas transferiram recursos para contas, aplicações ou negócios no Paraguai, também precisam reavaliar sua exposição. O risco é particularmente relevante para quem manteve depósitos no Ueno ou investiu em instrumentos e fundos com ativos ligados à instituição.
A crise já motivou medidas regulatórias envolvendo fundos que possuíam depósitos ou instrumentos financeiros do banco, demonstrando como problemas de uma instituição podem alcançar outros veículos de investimento.
Isso não autoriza concluir que todo capital brasileiro aplicado no Paraguai esteja bloqueado ou ameaçado. O tamanho da exposição depende da instituição, do tipo de ativo, das garantias disponíveis e dos contratos.
No caso dos depósitos bancários, existe um fundo de garantia, com cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por depositante e instituição. É uma proteção relevante, mas não elimina atrasos, transtornos de liquidez nem a incerteza sobre valores superiores ao limite.
Também não protege automaticamente qualquer modalidade de investimento ou o capital aplicado diretamente em empresas paraguaias.

O imposto baixo pode sair muito caro
A questão central não é condenar a busca legítima por eficiência tributária. Empresários têm razões concretas para comparar jurisdições, custos e oportunidades.
O problema começa quando essa comparação é reduzida a uma única variável: quanto se paga de imposto.
A segurança de um investimento depende também da independência dos reguladores, da qualidade das demonstrações financeiras, da capacidade de fiscalização, da estabilidade jurídica e da efetividade das garantias patrimoniais.
Um país pode cobrar menos impostos e ainda assim oferecer riscos institucionais elevados. E um banco pode apresentar tecnologia moderna, publicidade sofisticada e milhões de clientes sem possuir a solidez que sua imagem sugere.
A crise paraguaia não prova que o liberalismo econômico seja, por definição, uma fraude. Mas expõe o perigo de transformar uma visão econômica em propaganda infalível, como se redução de impostos fosse sinônimo automático de competência, honestidade e segurança.
No fim, o caso Ueno oferece uma lição que deveria acompanhar toda decisão de investimento internacional: a fronteira pode mudar, a moeda pode mudar e a alíquota pode diminuir. O risco não desaparece.


