A imagem de maior resolução já obtida do Sol mostra estruturas com menos de 20 quilômetros, e pode ajudar a explicar como sua atmosfera fica tão quente. O registro foi feito pelo Telescópio Solar Daniel K. Inouye, da National Science Foundation, instalado no National Solar Observatory, em Maui, no Havaí. Não é apenas uma fotografia mais nítida para emoldurar: o detalhe revela movimentos do plasma e do campo magnético que permaneciam escondidos em observações anteriores.
Há uma razão prática para olhar de perto. A energia magnética do Sol alimenta fenômenos como erupções solares e ejeções de massa coronal, explosões que lançam enormes quantidades de plasma e gás ao espaço. Quando esse material alcança o campo magnético da Terra, surgem tempestades geomagnéticas. Elas produzem auroras extraordinárias, mas também podem interferir em comunicações, redes elétricas, GPS e satélites. Entender como a energia se acumula antes de ser liberada é uma forma de estudar o clima espacial sem esperar que a estrela escolha o pior momento para dar seu espetáculo.
O que aparece na imagem do telescópio Inouye?
A imagem registra formas onduladas associadas à instabilidade de Kelvin-Helmholtz, um fenômeno causado pelo encontro de dois fluidos que se movem em velocidades diferentes. A mesma dinâmica aparece em nuvens, ondas do oceano e atmosferas de gigantes gasosos como Júpiter e Saturno. O nome homenageia os físicos que observaram o efeito pela primeira vez, por volta de 1870. No Sol, porém, a escala e o ambiente são outros: partículas de plasma circulam sob a influência da rotação solar e de campos magnéticos intensos, transformando uma ondulação aparentemente delicada em pista sobre processos capazes de liberar energia colossal.
O Telescópio Inouye é descrito como o instrumento mais poderoso de seu tipo e conseguiu distinguir características com menos de 12 milhas de extensão. Esse alcance permite observar movimentos que as imagens anteriores misturavam numa textura indistinta, como pixels grandes demais para contar a história. Os pesquisadores relacionam os detalhes ao chamado “entrelaçamento do fluxo” — flux braiding —, no qual as linhas do campo magnético se enrolam umas nas outras, formando uma espécie de trança. A tensão cresce até que a configuração se rompe, processo associado a erupções e eventos semelhantes.
Por que a instabilidade pode explicar a coroa solar?
A instabilidade de Kelvin-Helmholtz talvez facilite a transferência da energia magnética para escalas menores, onde ela finalmente se dissipa como calor. Essa hipótese conecta as espirais observadas ao antigo enigma da coroa solar, a atmosfera externa que alcança milhões de graus, embora a superfície seja muito mais fria. O físico David Kuridze disse ao The Guardian que a descoberta pode atacar um dos maiores mistérios da física solar e da astrofísica nas últimas cinco décadas. A imagem, portanto, não encerra a investigação; ela oferece uma engrenagem visível para um mecanismo que antes era sobretudo inferido.
O valor desse registro está justamente em trocar uma explicação ampla por uma cena concreta: campos magnéticos se torcendo, fluidos deslizando e energia descendo por uma cascata de escalas. Ainda será necessário confirmar como as instabilidades participam do aquecimento da coroa e da formação das erupções, mas a observação estreita o terreno da especulação. O Sol continua sendo uma esfera de plasma a 150 milhões de quilômetros daqui, não um laboratório dócil. Pela primeira vez, uma parte minúscula de sua turbulência aparece com definição suficiente para que os pesquisadores façam perguntas melhores.

