Uma estátua colossal de Ramessés II, encontrada em duas partes com 96 anos de intervalo, foi reunida e voltou a ocupar seu lugar original no Egito. A descoberta combina arqueologia, acaso e um problema bastante moderno: a água subterrânea ameaçando uma pedra com mais de 3.200 anos.
O que os arqueólogos encontraram em 1930?
Em 1930, o arqueólogo alemão Günther Roeder encontrou a metade inferior de uma estátua que provavelmente representava Ramessés II e chegava a cerca de 23 pés de altura. A peça apareceu a aproximadamente 150 milhas ao sul do Cairo, na província de Minya, perto da atual cidade de El Ashmunein.
O lugar não era um endereço qualquer no mapa. Na Antiguidade, a região era conhecida como Khemnu, capital provincial durante o Império Antigo, entre 2649 e 2130 a.C. Sob o domínio romano, recebeu o nome de Hermópolis Magna. O deserto ao redor guardava vestígios de sua longa história, embora “guardar” seja uma palavra generosa para algo enterrado sob areia, água e séculos de obras humanas.
Como a parte superior da estátua foi localizada?
A parte superior foi localizada no início de 2024 por uma equipe egípcio-americana e anunciada em março daquele ano, depois de permanecer enterrada por quase um século.
O fragmento estava deitado de bruços e tinha aproximadamente 12,5 pés de altura. A imagem de Ramessés II mostra o faraó usando um nemes, o tradicional adereço real, encimado por uma cobra. O detalhe mais surpreendente não estava apenas no rosto ou na escala, mas na superfície: os arqueólogos encontraram vestígios de pigmentos azuis e amarelos ainda aderidos à pedra.
Yvona Trnka-Amrhein, professora assistente de clássicos da University of Colorado Boulder e uma das líderes da equipe, explicou à Reuters que o local fica perto do Nilo e sofreu mudanças no lençol freático depois da construção da Barragem Baixa de Assuã. O arenito poderia ter se desfeito em areia ou o calcário ter se degradado até virar pouco mais que um bloco de rocha. A descoberta deu certo porque a pedra resistiu.
Por que os pigmentos antigos importam?
Os pigmentos azuis e amarelos podem ajudar a reconstruir a aparência original da estátua e esclarecer o contexto de sua criação.
Para quem vê hoje um colosso de pedra, a ideia de uma escultura egípcia colorida talvez pareça uma licença artística de museu. Não é. A cor fazia parte da linguagem visual dessas obras, assim como o tamanho, a posição e as inscrições. Análises futuras poderão indicar como a estátua foi pintada e quais elementos do templo se relacionavam a ela.
Trnka-Amrhein afirmou que a equipe sabia ser plausível encontrar a outra metade, mas não estava procurando especificamente por ela. Essa diferença entre hipótese e descoberta continua sendo uma das partes menos glamorosas e mais honestas da arqueologia. O pesquisador formula uma possibilidade; o solo decide se vai colaborar.

Onde a estátua está agora?
Após a aprovação do Comitê Permanente de Antiguidades Egípcias, a restauração começou em setembro de 2025 e terminou no início de 2026.
As duas partes foram reunidas, e a estátua voltou a ser erguida em sua posição original, na entrada norte do templo de El Ashmunein. O conjunto mede aproximadamente 22 pés, pesa mais de 40 toneladas e é formado por quatro elementos principais: os segmentos superior e inferior do corpo, além de três blocos de base com inscrições, apoiados sobre fundações sem entalhe.
Segundo a equipe, trata-se da primeira estátua colossal completa identificada no Médio Egito e também da primeira da região estudada com métodos arqueológicos modernos. A diferença é substantiva: não se trata apenas de colar uma peça quebrada, como quem remenda um vaso. É devolver escala, posição e contexto a um monumento que passou milênios fora de cena.
O que ainda pode ser descoberto em Hermópolis Magna?
O trabalho continuará até 2027 para localizar as fundações do portal do templo e investigar outros vestígios enterrados em Hermópolis Magna.
A pesquisa integra o City of the Baboon Project, colaboração entre o Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito e o departamento de clássicos da University of Colorado Boulder. As prospecções previstas para 2026 e 2027 devem procurar a estrutura que a estátua guardava e mapear o que permanece sob o terreno.
O achado não encerra uma história; ele reabre uma planta baixa. A metade inferior encontrada em 1930 deixou uma pergunta esperando por 96 anos. Agora que Ramessés II está novamente de pé, a próxima pergunta é menos cinematográfica e mais interessante: o que mais o solo de El Ashmunein decidiu esconder?
PS: as imagens deste post são recriações com IA a partir de fotos dos artefatos.



