Veja o que esperar de “Musk”, o documentário de quase quatro horas sobre Elon Musk

Quase quatro horas com Elon Musk parecem uma penitência. No documentário “Musk”, Alex Gibney transforma esse tempo em um retrato amplo, incômodo e, em vários momentos, aterrador do empresário. O filme percorre sua trajetória desde a fundação da Zip2, em 1995, até a ascensão política, a compra do Twitter, o comando do DOGE e a transformação em primeiro trilionário do mundo, segundo a produção. A estreia nos cinemas está marcada para 16 de outubro de 2026, com intervalo de dez minutos.

O documentário de Alex Gibney é longo, mas sustenta a duração?

Sim, a duração de três horas e 45 minutos é sustentada por uma montagem que conecta negócios, política e vida privada sem tratar cada episódio como uma ilha. A sessão para imprensa no Festival Internacional de Cinema de Toronto começou às 9h e terminou às 13h; ainda assim, a impressão foi de que haviam passado cerca de duas horas.

Gibney não parece interessado em produzir uma coleção de revelações bombásticas. O método é outro: reunir fios que o público conhece de maneira fragmentada — Tesla, SpaceX, Starlink, Grok, Twitter, DOGE e o pronatalismo de Musk — e costurá-los num estudo de personagem. O resultado tenta mostrar menos o inventor genial isolado e mais a arquitetura de poder construída ao redor dele.

O diretor já filmou Enron, Eliot Spitzer, Vladimir Putin e Elizabeth Holmes. A comparação não é decorativa. Para Gibney, Musk representa uma velha figura em embalagem nova: o homem de confiança, o promotor de ações, o vendedor capaz de transformar promessa em valor de mercado. A tecnologia muda. A gramática da persuasão, não tanto.

Como o filme representa Musk sem uma entrevista com ele?

O filme representa Musk por meio de declarações públicas alimentadas em sistemas de inteligência artificial, que geram um avatar digital capaz de recitar suas próprias palavras. A solução surgiu porque ele não participou da produção e, antes mesmo de ser procurado, chamou Gibney de “idiota” em uma publicação.

A escolha combina com o tema central do documentário. Musk começa falando sobre a teoria da simulação, segundo a qual nossa realidade poderia ser um programa de computador. Para explicar sua hipótese, ele compara a evolução dos videogames, de Pong aos jogos on-line hiper-realistas, capazes de reunir milhares de pessoas no mesmo ambiente virtual.

Gibney devolve a provocação usando um simulacro. O rosto artificial é estranho porque não tenta esconder sua artificialidade; ele lembra que o personagem público de Musk já é, em boa medida, uma construção feita de posts, promessas, apresentações e frases lançadas ao mercado. A produção também recorre a uma estética de videogame. Quando Musk aparece comandando cortes no governo federal pelo DOGE, surge como personagem de um jogo de tiro em primeira pessoa, empunhando uma motosserra animada.

É uma imagem fácil, talvez até óbvia, mas funciona porque traduz a escala da intervenção política em linguagem de entretenimento. O Estado vira fase. Funcionários viram obstáculos. A motosserra é o botão de ação.

O que o filme revela sobre a vida pessoal de Elon Musk?

O filme apresenta a vida pessoal de Musk como uma disputa permanente pelo controle da narrativa, segundo relatos de ex-companheiras e familiares entrevistados. Justine Musk, sua primeira esposa, afirma que aprendeu o termo “gaslighting” durante o relacionamento e descreve uma dinâmica de críticas, controle e alterações da realidade.

O casal teve seis filhos, e o primeiro, Nevada, morreu de síndrome da morte súbita infantil dez semanas depois do nascimento. Em 2022, Musk escreveu que segurava o bebê quando sentiu seu último batimento cardíaco. Justine contesta essa versão e diz que era ela quem segurava a criança. O documentário não transforma a dor em espetáculo barato, mas usa a divergência para mostrar como duas pessoas podem sair do mesmo acontecimento carregando versões incompatíveis.

Ela também recorda que, na noite do casamento, Musk teria dito: “Eu sou o alfa nesta relação”. Em outra lembrança, quando dizia ser esposa, não funcionária, ouvia como resposta que, se fosse sua funcionária, seria demitida. O casamento, em sua descrição, alternava “guerra, paz, guerra, paz”. Não é exatamente uma legenda de álbum de família.

Ashley St. Clair, que tem um filho com Musk, afirma que ele tentou manter a paternidade em sigilo oferecendo US$ 15 milhões e US$ 100 mil mensais durante 21 anos, mediante um acordo de confidencialidade. Ela também relata que Musk abordava mulheres pelo Twitter para oferecer doação de esperma como parte de seu projeto de ter muitos filhos. A frase usada por ela é grotesca e memorável: “uma metralhadora giratória de esperma nas mensagens diretas”.

Grimes, mãe de três dos filhos de Musk, aparece brevemente. O documentário menciona que, enquanto os dois esperavam o segundo filho, Musk teve gêmeos com Shivon Zilis, sua colega, por fertilização in vitro. Depois vieram disputas de guarda. A produção fala em 14 filhos conhecidos, possivelmente mais, e em um complexo construído em Austin para reunir crianças e mães — informação que precisa ser lida como apresentada pelo filme, não como inventário definitivo.

O passado familiar ajuda a explicar o personagem?

O documentário usa os relatos da família para compor o ambiente em que Musk cresceu, mas não oferece uma chave simples para decifrar o adulto. Errol Musk descreve uma infância marcada por bullying e agressões. Maye Musk fala de uma casa caótica, na qual Errol a chamava de estúpida e feia várias vezes por dia e ocasionalmente a agredia.

Errol também aparece associado a declarações controversas sobre reprodução. Em 2022, ao defender ter um segundo filho com a própria enteada, disse ao jornal The Sun que a única razão de estarmos na Terra seria reproduzir. O detalhe parece saído de uma novela de ficção científica ruim. Não saiu.

A jornalista de tecnologia Kara Swisher resume, no filme, uma possível lógica de Musk: ele acreditaria ter genes superiores e, por isso, precisaria procriar. A produção não apresenta isso como diagnóstico clínico, mas como interpretação de uma política íntima que se mistura ao discurso público sobre natalidade, futuro e sobrevivência da humanidade.

Esse é um dos méritos do retrato: a vida privada não aparece como fofoca separada do restante. O número de filhos, as relações de poder e a obsessão com o futuro são apresentados como partes de uma mesma visão de mundo. Talvez a conexão seja forte demais. Talvez não. O espectador fica com a tarefa desagradável de decidir.

Como “Musk” questiona as promessas da Tesla?

O filme questiona as promessas da Tesla ao contrastar apresentações de Musk com exemplos concretos de tecnologias que não alcançaram a escala anunciada. Em um dos episódios, ele afirma ter resolvido o problema da autonomia limitada dos carros elétricos com estações capazes de trocar rapidamente baterias que pesam mais de 450 quilos.

A produção mostra que apenas uma estação-piloto foi construída, em Harris Ranch, na Califórnia. O corte é seco. A promessa é grande; a instalação, solitária. É o tipo de montagem que dispensa um narrador dizendo ao público o que pensar.

A direção autônoma recebe tratamento ainda mais severo. O documentário reúne declarações em que Musk diz que os motoristas poderiam jogar videogame ou dormir enquanto o carro dirige. Em seguida, mostra o conhecido vídeo ao som de “Paint It Black”, apresentado como demonstração da tecnologia, e a fala de um ex-engenheiro da Tesla, que afirma ter escrito código durante a gravação para fazê-la funcionar. O material também teria passado por edição.

O filme relaciona essa estratégia à decisão de usar câmeras em vez de sensores lidar mais avançados para orientar o piloto automático. Depois, exibe imagens perturbadoras de acidentes fatais que, segundo a produção, estariam ligados ao sistema. A cifra mencionada é superior a 60 mortes, embora os detalhes dos casos variem e muitos acordos tenham sido fechados entre a Tesla e as famílias. São alegações graves; a edição as coloca no centro da pergunta sobre a distância entre demonstração, marketing e segurança.

Por que Musk mudou de posição sobre inteligência artificial e política?

O filme apresenta a guinada política de Musk como uma combinação de convicção, ressentimento e interesse estratégico. Ele teria passado de um cético radical da inteligência artificial, que previa a extinção da humanidade ou sua redução a animal de estimação, a um dos mais ruidosos defensores da tecnologia, integrando o chatbot Grok ao aparato militar dos Estados Unidos.

A pandemia aparece como ponto de inflexão. Durante boa parte de sua exposição pública, Musk se descrevia como liberal nos costumes e centrista na economia. Depois, tornou-se um crítico estridente dos lockdowns, reabriu uma fábrica da Tesla no condado de Alameda apesar das regras locais e, de acordo com o documentário, cerca de 450 casos de covid-19 foram registrados posteriormente.

O neurocientista e podcaster Sam Harris, que era próximo de Musk antes do rompimento, diz que algum interruptor teria sido acionado na cabeça do empresário. A imagem é boa, embora simplifique um homem que o próprio filme passa quase quatro horas complicando.

Na interpretação apresentada por Kara Swisher, investigações abertas contra Musk e suas empresas teriam sido o motivo real para sua aproximação com Donald Trump. Se Kamala Harris vencesse, diz ela, ele estaria em apuros; ajudar Trump seria uma forma de obter proteção política. Musk aparece respondendo que, se Trump perdesse, ele estaria “ferrado”. A frase, curta e vulgar, talvez explique mais do que páginas de manifesto.

O que fica depois das quase quatro horas?

O documentário não termina oferecendo uma sentença definitiva sobre Musk. Ele passa por Twitter/X, SpaceX, DOGE, Starlink, a destruição da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e alegações judiciais envolvendo o uso do Grok para criar pornografia infantil, além de mostrar como esses negócios e conflitos se conectam.

Gibney chama Musk de “inventor habilidoso do próprio valor” e afirma que sua influência é extremamente perigosa para a democracia mundial. Musk, por sua vez, diz que o diretor reuniu uma lista de pessoas ressentidas ou que nem o conhecem e acusa Gibney de não ter integridade. A guerra de versões começa antes dos créditos e provavelmente não termina neles.

O título pergunta, em silêncio, o que Elon está construindo. Uma empresa? Um império de infraestrutura? Uma persona capaz de converter atenção em capital e capital em poder? O filme sugere várias respostas, mas recusa a mais confortável.

St. Clair oferece a sua: “Elon é uma bomba nuclear”. A frase encerra o documentário sem desarmá-lo. Depois de quatro horas, resta ao público decidir se viu um visionário, um trapaceiro, um produto de mercado — ou a combinação dos três, acesa na tela como aquela velha promessa de que o futuro já chegou.

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