O avião não voa mais, mas acaba de ganhar uma segunda vida. Após quase 15 anos estacionado num campo do Walt Disney World, sob o sol e a umidade da Flórida, o Gulfstream I que pertenceu a Walt Disney foi restaurado e agora está em exposição no Palm Springs Air Museum, na Califórnia.
A restauração, concluída em 2026, devolveu ao avião o brilho e o interior que ele tinha nos anos 1960. O trabalho foi tocado por uma coalizão de arquivistas da Disney, engenheiros da Imagineering e especialistas em aviação. Mas a história dessa máquina vai muito além de carpetes beges e poltronas de couro. O avião, apelidado de “The Mouse”, foi um dos primeiros jatos executivos a mostrar que o céu também era lugar de fazer negócios — e de guardar segredos.
Um Gulfstream com matrícula de camundongo
Walt Disney comprou o Grumman Gulfstream I em 1963. A matrícula, N234MM, não escondia a homenagem: MM de Mickey Mouse. Durante quase 30 anos, a aeronave acumulou mais de 20 mil horas de voo e transportou cerca de 83 mil passageiros. Entre eles, estavam não só a família Disney, mas também estrelas de cinema, magnatas e até presidentes americanos — Jimmy Carter e Ronald Reagan passaram por aquela cabine.
O avião media 19,5 metros de comprimento e tinha 23,8 metros de envergadura. Dois motores Rolls-Royce Dart turboprop de 2.220 cavalos cada garantiam velocidade de cruzeiro de 560 km/h, teto de 9.100 metros. Para a época, era um desempenho respeitável. Hoje, um Boeing 747 comercial passa fácil dos 900 km/h. Mas o Mouse não foi feito para bater recordes de velocidade — e sim para encurtar distâncias dentro do império que Walt construía entre a Califórnia e a Flórida.
Foi a bordo desse avião que Disney fez o reconhecimento aéreo do terreno pantanoso que viraria o Walt Disney World. Também era ali que ele lia roteiros, longe de olhos e ouvidos curiosos.
Privacidade como diferencial competitivo
Havia uma razão estratégica para o investimento em aviação privada ainda nos anos 1960: segredos de estúdio. Voar em aviões comerciais significava expor conversas sobre projetos a qualquer passageiro ao lado. “O avião permitiu que Walt continuasse a tocar os negócios do dia a dia sem se preocupar com alguém ouvindo suas conversas sobre assuntos do estúdio”, explicou Edward Ovalle, gerente dos arquivos da Disney, em um texto para o Smithsonian.
Essa lógica de confidencialidade a bordo antecipou em décadas o que hoje é padrão na aviação executiva. O Mouse foi um pioneiro não só no design, mas na função: escritório voador. Por dentro, o avião acomodava 15 passageiros e três tripulantes. Tinha dois banheiros — um para o chefe, outro para os demais —, uma cozinha compacta, poltronas estilo lounge, um sofá e uma grande mesa de madeira. A estética seguia o modernismo de meados do século: tons creme, ferrugem e bege, móveis de madeira clara e estofados marrons.
Mas o visitante não conseguia escapar do camundongo onipresente. Guardanapos de coquetel, cinzeiros, caixas de fósforo — tudo trazia o rosto do Mickey. Até o relógio do painel de instrumentos tinha o personagem. Na época, fumar a bordo era legal e comum; o próprio Walt era fumante. Um detalhe curioso: uma divisória transparente do chão ao teto separava a área de Walt do resto da cabine. Dentro dela, folhas recolhidas do jardim da família Disney. Um toque pessoal numa máquina de negócios.
Ressuscitar um ícone sob o sol da Flórida
Depois de ser aposentado em 1992, o avião ficou em exposição no Walt Disney World até 2014, quando foi removido para um campo de armazenamento. Sem os motores, vendidos havia tempos, e com as vedações das janelas deterioradas, a umidade e o calor fizeram estragos. O interior apodreceu. A pintura descascou. Para trazê-lo de volta, foi preciso desmontar quase tudo e recriar cada detalhe a partir de especificações originais fornecidas pela Disney.
A equipe de restauração — que incluiu o Phoenix Air Group e o museu de Palm Springs — refez a cozinha, a área de passageiros, a cabine e todos os acessórios temáticos. Também lixou e repintou o exterior no esquema laranja e preto dos anos 1960. Palm Springs foi escolhida como novo lar porque a família Disney tinha propriedades na região e costumava passar temporadas ali. Agora, o Museu do Ar de Palm Springs exibe a relíquia, e os visitantes podem entrar e caminhar pelo avião.
O ingresso custa US$ 25. Nada de passes furta-fila como os Lightning Lane dos parques — ao menos por enquanto. Ver o Mouse restaurado é mais do que nostalgia. É um lembrete de que, muito antes dos jatos executivos de hoje, um avião com orelhas de camundongo ajudou a desenhar o mapa do entretenimento moderno.
A restauração de uma máquina assim é, no fundo, uma forma de engenharia reversa do tempo. Cada rebite recolocado, cada encosto refeito, é uma tentativa de congelar um instante em que o futuro do entretenimento ainda era um rascunho a bordo de um Gulfstream.



