J. Paul Getty chegou ao Guinness como o homem mais rico do mundo em 1966, mas sua fortuna não nasceu apenas de uma descoberta de petróleo. Ela combinou uma herança empresarial sólida, investimentos no setor petrolífero, disciplina quase mesquinha para gastar e uma capacidade incomum de transformar medo em método. O resultado foi uma vida cercada por obras-primas, cães de ataque, um leão chamado Nero e uma solidão que nem todo o dinheiro do mundo conseguiu dissolver.
Como J. Paul Getty se tornou o homem mais rico do mundo?
J. Paul Getty se tornou o homem mais rico do mundo ao ampliar o negócio petrolífero herdado do pai e explorar propriedades com reservas de petróleo.
Getty ganhou seu primeiro US$ 1 milhão aos 24 anos, depois que petróleo foi encontrado em um campo de sua propriedade em Oklahoma. O dinheiro não veio, portanto, de uma invenção reluzente nem de um golpe de sorte isolado, embora a sorte tenha comparecido à reunião. Veio de terra, perfuração e uma estrutura empresarial já em funcionamento. Seu pai, George Getty, havia comprado 1.100 acres no território indígena de Oklahoma, em 1903, por US$ 5 mil, equivalentes a cerca de US$ 190 mil em valores atuais. A descoberta transformou aquela compra em uma fortuna.
Quando George morreu, em 1930, aos 74 anos, deixou uma riqueza estimada em US$ 10 milhões, ou aproximadamente US$ 200 milhões atualizados. Getty recebeu apenas US$ 500 mil, cerca de US$ 10 milhões atuais, porque o pai desaprovava sua vida pessoal, incluindo um casamento seguido de divórcio. O próprio magnata reconhecia que a origem de seu império estava menos em alguma qualidade secreta do que na obrigação de continuar um negócio próspero. É uma explicação pouco cinematográfica. Justamente por isso, parece mais honesta.
Qual era a relação de Getty com o sucesso e o dinheiro?
Getty atribuía o sucesso à combinação de trabalho, inteligência, imaginação, independência e circunstâncias familiares, sem apontar uma fórmula única.
Uma de suas máximas era: “Acorde cedo, trabalhe duro e encontre petróleo”. A frase tem a elegância brutal de um manual que esqueceu de explicar onde fica o petróleo. Em artigos publicados na revista Playboy e depois reunidos no livro How to Get Rich, Getty defendia uma visão independente e recomendava não se deixar conduzir pelo que os outros diziam. Ainda assim, quando entrevistado por Alan Whicker, da BBC, em 1963, não conseguiu identificar com precisão o ingrediente decisivo de sua própria ascensão.
Getty dizia que talvez fossem necessárias 37 qualidades para alcançar grande sucesso; alguém com 35 delas poderia prosperar, mas em escala menor. Não sabia, porém, quais eram as duas qualidades ausentes. Também afirmou não possuir nenhuma característica extraordinária que faltasse à maioria das pessoas bem-sucedidas. Citou ética de trabalho, inteligência e imaginação, mas admitiu desejar uma personalidade mais agradável, maior habilidade de conversação e mais talento para entreter. A autocrítica não o tornava simpático, mas retirava do personagem aquela camada de vendedor de curso que o tempo costuma acrescentar aos ricos.
Por que Getty vivia como se sua mansão fosse uma fortaleza?
Getty transformou Sutton Place em uma fortaleza porque combinava riqueza ostensiva, medo de sequestro e uma necessidade permanente de controlar o ambiente.
Em 1959, comprou Sutton Place, uma mansão em estilo Tudor, no condado de Surrey, no sudeste da Inglaterra. A propriedade havia servido como residência de verão de Henrique 8º e tinha 72 cômodos, 700 acres, duas piscinas, 30 casas e alojamentos, quadras de tênis e um riacho com trutas. Não era exatamente um esconderijo modesto. Mesmo assim, Getty instalou um sistema de segurança que conectava todos os cômodos, incluindo os 14 banheiros. Portas e janelas receberam barras, e placas de “Proibida a Entrada” apareceram pela propriedade.
O magnata também mantinha cães policiais, guarda-costas e assessores. Segundo seu neto John Paul Getty 3º, as cercas eram eletrificadas e tinham arame farpado no topo; um leão de estimação chamado Nero circulava pelo terreno. Getty dizia não temer algo específico. Falava em precaução, em possíveis “malucos” capazes de explodir a casa com dinamite e, com uma lógica muito própria, afirmava que tinha os cães principalmente porque gostava deles. Em 1973, o sequestro do neto na Itália deu uma forma concreta a um medo que antes parecia excentricidade aristocrática.
O sequestro do neto mudou a imagem pública do bilionário?
O sequestro tornou pública a avareza de Getty, mas também revelou a lógica financeira fria que orientava suas decisões familiares.
John Paul Getty 3º tinha 16 anos quando foi sequestrado e permaneceu em cativeiro por cinco meses. Os sequestradores enviaram uma parte de sua orelha a um jornal e exigiram US$ 16 milhões, equivalentes a cerca de US$ 120 milhões atuais. Getty recusou-se a pagar imediatamente, argumentando que tinha outros 14 netos e que qualquer pagamento poderia estimular novos sequestros. Depois, negociou um resgate de US$ 2,8 milhões, aproximadamente US$ 21 milhões em valores atuais. A contribuição exata do avô não foi divulgada.
A história se encaixava em uma reputação construída muito antes. Getty esperava do lado de fora de exposições caninas até o preço do ingresso baixar e jantava tarde em restaurantes para evitar a taxa adicional cobrada quando uma orquestra se apresentava. Também instalou orelhões em Sutton Place para que os convidados não acumulassem contas de chamadas de longa distância. A economia tinha algo de ritual. Ele possuía bilhões, mas tratava algumas despesas como se fossem uma invasão de domicílio. De certo modo, eram: cada moeda atravessando a porta precisava apresentar documento.
Como Getty conciliava luxo, coleções de arte e avareza?
Getty conciliava avareza cotidiana e luxo monumental separando o prazer de possuir símbolos de riqueza do prazer de pagar por cada pequena despesa.
Em julho de 1960, organizou uma festa em Sutton Place que custou o equivalente a US$ 400 mil atuais e recebeu mais de 2 mil convidados, entre aristocratas, celebridades e membros da alta sociedade. O evento ficou especialmente memorável quando um fotógrafo insistente foi jogado na piscina. Getty, que tinha medo de voar e de viajar em navios transatlânticos, administrava dali seu império petrolífero. Fazia refeições em uma mesa de quase cinco metros, acompanhado apenas por seu pastor alemão. A mesa era grande o bastante para uma corte; a companhia, não.
A casa reunia pinturas de Veronese, Gainsborough, Renoir, Rembrandt e Rubens. Em Malibu, Getty mantinha mais de 600 peças em uma propriedade aberta ao público em 1954 como o Museu J. Paul Getty. A coleção mostra que sua relação com o dinheiro não era simples recusa do consumo. Ele gastava em obras, terrenos, segurança e arquitetura, mas desconfiava de despesas que parecessem efêmeras ou impostas por convenção. Uma pintura de mestre podia sobreviver séculos; a taxa da orquestra, presumivelmente, não.
O dinheiro trouxe felicidade para J. Paul Getty?
Para Getty, o dinheiro trouxe responsabilidade, vigilância e poder, mas não produziu a leveza que ele associava aos melhores momentos da vida.
Quando morreu, em 1976, aos 83 anos, sua fortuna era estimada em US$ 4 bilhões, equivalentes a cerca de US$ 23,5 bilhões em valores atuais. Getty ganhava em um dia mais do que uma pessoa média poderia ganhar ao longo de toda a vida. Ainda assim, dizia nunca ter se sentido cheio de dinheiro. Em uma formulação quase impossível de contestar, afirmou que talvez tivesse algum dinheiro se vendesse tudo. O bilionário parecia tratar a riqueza como uma propriedade que exigia manutenção, não como uma reserva disponível para descanso.
Ele também rejeitava a ideia de que grandes responsabilidades financeiras fossem chave para a felicidade. Depois da morte do pai, disse ter perdido a sensação de leveza que possuía antes. Sua rotina era a de um esquilo na gaiola: correr para continuar exatamente no mesmo lugar. Getty não se considerava especialmente solitário, porque estava ocupado demais para perceber a solidão. É uma distinção engenhosa, embora a solidão raramente respeite a agenda do proprietário.
O que a vida de Getty revela sobre a riqueza?
A vida de Getty revela que acumular riqueza e desfrutar riqueza são atividades diferentes, governadas por impulsos que nem sempre conversam.
Em 1963, ele contou a Whicker que alguns de seus melhores momentos não haviam custado nada: estar em uma praia, sobre uma prancha de surfe, esperando uma grande onda, seguindo até a areia. O sol era gratuito. As ondas também. A observação não transforma Getty em um filósofo de praia, nem apaga a dureza de suas decisões. Apenas expõe uma contradição persistente: o homem que construiu uma fortuna petrolífera e cercou uma mansão de barras, cães e arame farpado encontrava prazer em coisas que não podia comprar.
Getty ficou famoso por ser o homem mais rico do mundo, mas sua história não oferece uma receita limpa para repetir. Há herança, oportunidade geológica, disciplina empresarial, medo, controle e uma dose considerável de excentricidade. O leão Nero e a mesa de cinco metros são imagens fáceis; o dado mais incômodo está em outro lugar. No fim, a fortuna ampliou o alcance de suas escolhas, mas não resolveu a pergunta que ele próprio evitava responder: o que, exatamente, faz alguém se sentir rico?







