Uma equipe que fazia varreduras com detectores de metal em uma área de minas terrestres na Coreia do Sul encontrou algo bem mais antigo que o perigo que procurava evitar: uma arma de bronze com cerca de 600 anos. O pequeno canhão manual, chamado Hwangja Hwatong, traz uma inscrição de 28 caracteres que registra especificações, peso, nome e até o responsável por sua fabricação. A peça pode ser a arma de pólvora mais antiga já encontrada na Coreia — embora a data exata ainda não esteja resolvida.
O que foi encontrado na montanha Geumjeongsan?
A descoberta é um Hwangja Hwatong, nome traduzido como “canhão de mão de caracteres amarelos” ou “tubo de fogo de caracteres amarelos”. A arma tem pouco menos de 25 centímetros de comprimento e pesa pouco mais de 900 gramas. Compacta, cabia no transporte individual, uma qualidade importante numa época em que o arco ainda dominava os campos de batalha.
O achado ocorreu em novembro de 2023, durante uma varredura de segurança antes da instalação de uma trilha no monte Geumjeongsan, em Naju, cerca de 280 quilômetros ao sul de Seul. A região é conhecida pela presença de minas terrestres, motivo suficiente para que pesquisadores não tivessem explorado o terreno com a liberdade habitual. A ironia é quase perfeita: procurando explosivos modernos, encontraram uma arma que dependia de pólvora medieval.
O Instituto Nacional de Pesquisa do Patrimônio Cultural e o Instituto de Pesquisa de Naju examinaram o objeto com raios X e análise metalúrgica. O cano é feito de uma liga de cobre, estanho e chumbo, com menos de 10% de estanho. Essa proporção ajudava a evitar que o bronze se rompesse durante o disparo. Prata, silício e enxofre também apareceram nos vestígios, compatíveis com técnicas comuns de fundição da Idade Média.
O que diz a inscrição gravada no cano?
A inscrição identifica a arma e seu fabricante, um artesão chamado Seok, além de informar medidas e o nome do supervisor da produção. Um caractere equivalente ao número oito aparece na boca do cano, provavelmente como número de fabricação ou de inventário. Não é uma etiqueta moderna, mas cumpre função parecida: deixa uma trilha administrativa num objeto feito para a guerra.
O texto gravado também menciona um ano Jeongsa, o 57º dentro de um ciclo de 60 anos. O problema é que esse sistema se repete, e a inscrição não resolve sozinha qual ciclo está em jogo. Por isso, os pesquisadores trabalham com duas possibilidades: dezembro de 1377 ou dezembro de 1437. Sessenta anos separam as datas; séculos de história cabem nessa diferença.
Se a fabricação ocorreu em 1377, a arma pertence à dinastia Goryeo e coincide com o começo da produção estatal de armas de pólvora. Naquele período, o desenvolvimento pode ter respondido ao aumento das incursões de piratas japoneses. Se o ano for 1437, o Hwangja Hwatong é do reinado de Sejong, associado à padronização da artilharia e a uma fase de aperfeiçoamento ativo dessas armas. O bronze, desta vez, não entrega o álibi completo.
Como funcionavam as primeiras armas de pólvora?
O Hwangja Hwatong tem uma câmara cilíndrica para a pólvora, característica das primeiras armas de fogo. A carga de pólvora e o projétil eram colocados no mesmo tubo, sem uma câmara separada como nas armas posteriores. É uma solução simples, quase brutal na aparência, mas suficiente para deslocar o equilíbrio entre força humana, distância e destruição.
Essas armas podiam lançar flechas e outros projéteis muito mais longe — e com impacto muito maior — do que um arqueiro alcançaria sozinho. A transição não foi instantânea, nem apagou o arco de uma hora para outra. Ainda assim, objetos como esse mostram o momento em que a metalurgia, a administração militar e a pólvora começaram a formar uma nova linguagem de guerra. A pequena peça encontrada em Naju talvez seja uma das primeiras frases preservadas desse idioma.


