Uma nova espécie de serpente da Nova Guiné recebeu um nome que parece ter saído de um cartaz de rock: Lielaphis slashi, homenagem a Saul Hudson, o Slash, guitarrista do Guns N’ Roses. A escolha partiu de Sara Ruane, pesquisadora do Field Museum, em Chicago, e fã do músico desde a infância. O artigo científico que descreve a espécie foi publicado em 11 de agosto na revista Zootaxa. A história tem guitarras, cobras e uma coincidência particularmente bem afinada: Slash também é apaixonado por serpentes e por história natural.
Por que a nova serpente recebeu o nome de Slash?
A serpente recebeu o nome de Slash porque a pesquisadora Sara Ruane, fã do guitarrista desde criança, uniu sua paixão musical ao trabalho com répteis.
Ruane conta que acompanha o Guns N’ Roses desde o primeiro ano do ensino fundamental. No quinto ano, já dizia a uma professora que queria ser herpetóloga, profissional dedicada ao estudo de répteis e anfíbios. Aos 12 anos, recebeu pelo correio uma edição da revista Reptiles cuja capa mostrava Slash segurando sua píton-reticulada de estimação. O efeito foi imediato: para a futura cientista, aquele guitarrista era “muito legal”. Décadas depois, a capa deixou de ser apenas uma lembrança de infância e virou parte da etiqueta científica de uma espécie.
A ligação não termina na fotografia. Ao reler uma entrevista antiga, Ruane recordou que Slash dizia gostar de museus, zoológicos e história natural. O músico também havia contado que, quando criança, saía para procurar cobras. Em uma mensagem enviada à Popular Science, ele agradeceu a homenagem e se descreveu como um “herpetófilo” de longa data, isto é, um admirador de serpentes. Disse sentir-se honrado e grato, além de considerar o momento emocionante e inesperado. Para uma espécie recém-descrita, não é exatamente um batismo discreto. Mas também não é um nome aleatório.
Como é a Lielaphis slashi e onde ela vive?
A Lielaphis slashi vive nas florestas da Nova Guiné, mede 71 centímetros e costuma ser encontrada à noite, junto à base de árvores grandes.
A serpente marrom-avermelhada foi avistada pela primeira vez em 2006, durante um estudo de campo noturno conduzido por Chris Austin, coautor da pesquisa e herpetólogo da Universidade Estadual da Louisiana. O horário não é detalhe decorativo: indivíduos desse grupo geralmente aparecem depois do pôr do sol, quando procuram alimento no chão da floresta. A espécie é difícil de observar na natureza, e sua aparência, sozinha, não permitia afirmar que se tratava de uma novidade para a ciência. Foi a análise laboratorial, combinada à avaliação do habitat, que separou a L. slashi de serpentes semelhantes.
Os pesquisadores identificaram características anatômicas próprias e um habitat preferido diferente do observado em espécies próximas. A serpente não representa ameaça para seres humanos. Como outras cobras do gênero, possui dentes grandes na parte posterior da boca, usados para capturar pequenos lagartos de escamas escorregadias e ovos de outros répteis. Isso não significa que ela aja como uma jiboia: a Lielaphis slashi não agarra nem esmaga suas presas por constrição. Seu nome evoca um músico conhecido por riffs cortantes; seu método de alimentação é, felizmente, bem menos dramático.
Batizar espécies é uma forma de registrar relações entre ciência, cultura e memória. Neste caso, o nome aproxima o trabalho de campo de uma referência popular sem apagar a biologia do animal. Antes de virar homenagem, a serpente precisou ser encontrada, comparada e descrita. Só então ganhou sua assinatura taxonômica — e um aceno ao homem da cartola.



