A construção da Grande Pirâmide de Gizé talvez tenha usado uma rampa em espiral escondida dentro da estrutura, segundo um estudo recente. A hipótese tenta explicar como trabalhadores egípcios movimentaram milhões de blocos, alguns com até 15 toneladas, sem ferro, rodas para cargas pesadas ou polias compostas. Não é a chave definitiva do enigma, mas oferece um mecanismo plausível para uma obra que ainda parece uma provocação dirigida à engenharia moderna.
Como uma rampa interna teria ajudado a erguer a pirâmide?
Uma rampa interna em espiral teria permitido elevar os blocos gradualmente, acompanhando cada novo nível da Grande Pirâmide de Quéops. A proposta, associada ao cientista da computação Vicente Luis Rosell Roig, descreve uma chamada “rampa de borda”, instalada nas extremidades externas de cada camada antes de ser coberta pela construção.
Em vez de manter uma rampa externa gigantesca desde o chão até o topo, os trabalhadores usariam trechos inclinados que avançariam conforme a pirâmide crescesse. Cada novo nível esconderia parte do caminho anterior, deixando no interior possíveis espaços vazios ou corredores residuais. A ideia é engenhosa porque troca uma obra provisória monumental por uma sequência de soluções menores, incorporadas ao próprio monumento. É o tipo de gambiarra que, depois de quatro milênios, ganha nome técnico e passa a frequentar modelos computacionais.
Por que a hipótese dispensa grandes máquinas?
A hipótese se apoia nas tecnologias disponíveis no Egito do Reino Antigo, sem atribuir aos construtores ferramentas que eles não possuíam. O método combinaria cinzéis de cobre, trenós lubrificados com água, cordas, alavancas, obras de terra e barcaças no Nilo.
O estudo publicado na revista NPJ Heritage Science, em março de 2026, modela restrições como inclinação da rampa, largura das passagens, espaço para os trabalhadores e atrito entre os materiais. A proposta não transforma os egípcios em operadores de uma máquina secreta. Ao contrário: trabalha com força humana organizada, madeira, pedra, água e logística. A ausência de registros escritos detalhando o processo deixou um vácuo que costuma ser preenchido por fantasias. Uma simulação com parâmetros explícitos é menos cinematográfica, porém muito mais útil.
Quanto tempo a Grande Pirâmide teria levado para ficar pronta?
As simulações estimam que a Grande Pirâmide poderia ter sido concluída em aproximadamente 20 a 27 anos, considerando a logística completa da obra. O intervalo se aproxima de estimativas já aceitas por historiadores.
O cálculo parte de um ritmo de colocação entre quatro e seis minutos por bloco, assumindo uma distribuição relativamente constante do trabalho. Nesse cenário, apenas a instalação das pedras levaria cerca de 14 a 21 anos. A conta cresce quando entram em cena a extração nas pedreiras, o transporte até o canteiro, a preparação dos blocos, a manutenção das rampas e as pausas dos trabalhadores. Uma pirâmide não é montada apenas no instante em que a pedra toca a pedra; existe todo um sistema invisível antes desse gesto final.
O que o tamanho da pirâmide revela sobre o problema?
A escala da obra torna a hipótese necessária, porque a pirâmide alcança cerca de 481 pés de altura e ocupa uma base com aproximadamente 755 pés de cada lado. Historiadores estimam que ela contenha cerca de 2,3 milhões de blocos.
Esses números explicam por que a discussão não pode se limitar à pergunta sobre como levantar uma única pedra. O desafio era repetir o procedimento milhões de vezes, mantendo alinhamento, ritmo, abastecimento e coordenação durante décadas. Alguns blocos pesavam até 15 toneladas, e a precisão geométrica da estrutura exigia mais do que força bruta. Exigia administração. A hipótese da rampa interna procura justamente conectar o detalhe físico ao funcionamento geral da obra: inclinação, fluxo de pessoas, passagem das cargas e desaparecimento progressivo do caminho sob novas camadas de calcário.
A rampa interna resolve definitivamente o mistério?
Não, a rampa interna oferece uma explicação plausível, mas não encerra as dúvidas sobre a logística e a precisão da construção egípcia. O próprio modelo depende de condições que ainda precisam ser confrontadas com evidências arqueológicas.
Espaços vazios detectados no interior da pirâmide poderiam guardar vestígios de uma rampa ou de estruturas associadas ao método, mas essa possibilidade não equivale à confirmação. Também permanecem perguntas sobre como os trabalhadores organizavam o transporte nos trechos mais altos, como retiravam materiais provisórios e como mantinham a estabilidade durante a elevação. A vantagem da proposta está em deslocar o debate: em vez de procurar uma tecnologia impossível, ela testa uma combinação de ferramentas simples em escala extraordinária. A Grande Pirâmide continua sem manual de montagem. Agora há, pelo menos, um modelo que pode ser medido, criticado e eventualmente derrubado.


