Em 1962, a CIA executou uma operação quase absurda no Ártico: dois agentes saltaram sobre uma estação soviética abandonada, recolheram documentos e foram retirados por um avião em movimento. A tecnologia se chamava Skyhook, e transformava um cabo suspenso por balão em uma espécie de guindaste aéreo para pessoas. O plano nasceu de um problema simples de descrever e difícil de resolver: a estação estava longe demais para navios ou helicópteros, enquanto a pista de pouso havia sido destruída pelo gelo.
Por que a estação soviética foi abandonada?
A estação soviética NP9 foi abandonada porque uma crista de pressão destruiu sua pista de gelo e interrompeu o reabastecimento aéreo.
Em maio de 1961, uma aeronave naval americana localizou a instalação durante um voo de levantamento aeromagnético no Ártico. Os Estados Unidos mantinham estações semelhantes para observar movimentos de submarinos soviéticos; portanto, descobrir como a União Soviética equipava seus postos polares tinha valor evidente. Havia apenas um inconveniente, daqueles que costumam aparecer quando o mapa termina: NP9 estava profundamente embrenhada na calota de gelo, fora do alcance de um quebra-gelo e de helicópteros.
Os soviéticos confirmaram o abandono poucos dias depois. A estação ainda continha materiais de pesquisa e informações operacionais, mas não havia uma maneira convencional de chegar até ela. A CIA precisava colocar homens no local e retirá-los sem pousar uma aeronave. A história oficial da agência resumiu o dilema com secura: o posto era inacessível pelos meios disponíveis. A Guerra Fria tinha dessas delicadezas. Às vezes, uma vantagem estratégica dependia de inventar um modo de apanhar alguém no ar.
Como funcionava o sistema Skyhook?
O Skyhook retirava pessoas do solo usando um balão, um cabo de náilon e os ganchos instalados na dianteira de um avião em voo.
O inventor Robert Edison Fulton Jr. apresentou o sistema em 1958, inspirado por mecanismos usados para recolher correspondência sem pouso. Um arnês era ligado a uma linha de náilon trançado com 500 pés, pouco mais de 150 metros. Um cilindro portátil inflava um balão de hélio, que erguia o cabo. Quando a aeronave passava, suas hastes metálicas inclinadas capturavam a linha e levantavam a pessoa presa ao arnês.
O método parecia uma mistura de correio aéreo, pescaria e uma decisão administrativa tomada às três da manhã. Ainda assim, os testes avançaram. Primeiro vieram manequins; depois, um porco, que chegou inteiro ao avião, embora desorientado. Ensaios com seres humanos, realizados no verão de 1958, indicaram que o impacto era menor que o de uma abertura de paraquedas. A sensação foi descrita como um “chute no traseiro”, formulação pouco elegante, mas provavelmente mais honesta que “experiência aeronáutica suave”.
Como a Operação Coldfeet recuperou os segredos?
A Operação Coldfeet recuperou dois agentes e quase 150 libras de materiais soviéticos usando um B-17 adaptado ao Skyhook.
A primeira estação, NP9, derivou para longe demais antes da aprovação do plano. Em março de 1962, porém, os soviéticos abandonaram a NP8, localizada a cerca de 600 milhas da base aérea canadense de Resolute Bay. Em 28 de maio, um B-17 Flying Fortress decolou levando o tenente Leonard A. LeSchack, geofísico antártico, e o major James Smith, paraquedista e especialista em língua russa. Uma tentativa anterior havia fracassado porque a tripulação não encontrou a estação.
Dessa vez, os dois saltaram sobre o gelo. Depois que Smith confirmou por rádio a localização, o avião retornou à base para receber o equipamento de recuperação. Os agentes teriam 72 horas para vasculhar a estação. O resgate, previsto para 31 de maio, foi adiado pelo mau tempo e ocorreu em 2 de junho, sob baixa visibilidade e ventos de 30 nós. Eles haviam reunido cerca de 150 libras de filmes revelados, documentos e amostras de equipamentos, guardados em uma bolsa de lona que quase foi levada pelo vento.
O que a missão revelou sobre a tecnologia?
Os materiais indicaram que a União Soviética possuía experiência avançada em pesquisa polar, oceanografia e guerra antissubmarina.
Para o capitão John Cadwalader, responsável pela operação, a inteligência coletada era importante, mas o teste do Skyhook tinha valor próprio. A missão demonstrou que equipes poderiam ser lançadas de paraquedas, realizar investigações em áreas inacessíveis e retornar sem pista, estrada ou helicóptero. A tecnologia recebeu depois a designação STAR, abreviação de “surface-to-air-recovery”, e continuou em aplicações humanas até a década de 1980. Um integrante de forças especiais morreu durante exercícios Flintlock em 1982, e o sistema deixou de ser usado para extrações humanas.
Para cargas não humanas, o Skyhook sobreviveu até meados dos anos 1990, quando helicópteros de longo alcance com reabastecimento aéreo tornaram o método obsoleto. Hollywood, entretanto, não abandonou uma imagem tão boa. O mecanismo apareceu em Thunderball, de 1965, depois em The Green Berets, de 1968, e voltou ao imaginário popular em The Dark Knight, de 2008. Lucius Fox não estava inventando moda: a CIA realmente havia encontrado uma maneira de embarcar alguém em um avião sem esperar que o avião pousasse.


