A Odisseia de Nolan: por que os gregos não ligam para a cor de Helena de Troia

A estreia mundial da Odisseia de Christopher Nolan, reacendeu uma velha discussão que parece importar mais a quem está longe do Mediterrâneo do que a quem cresceu à sombra do Partenon. Enquanto setores conservadores americanos se engalfinham com a escolha de Lupita Nyong’o para viver Helena de Troia, a Grécia observa a polêmica com a serenidade de quem já viu esse filme antes — literalmente, em outras versões, e metaforicamente, nos quase três milênios em que a epopeia de Homero vem sendo recontada.

O grau de fidelidade ao texto original não é, para os gregos, o ponto central da conversa. Em um país onde a Odisseia é matéria obrigatória no sétimo ano e sobrevive em tudo, da literatura ao teatro de rua, a epopeia não chegou ao século XXI apesar das releituras: chegou por causa delas. A cada nova encenação, a cada tradução, a cada traição calculada do cânone, o poema se prova mais resistente que o mármore.

O que a escola grega ensina sobre adaptações

Na sala de aula de Filippos Mantzaris, que leciona a obra para pré-adolescentes em Atenas, a discussão não passa pelo purismo textual. “O que queremos que as crianças entendam é que cada nova criação é exatamente isso, uma nova criação”, disse à Associated Press. O trabalho ali é outro: os alunos debatem se a inteligência de Odisseu vale mais que sua força bruta, se a vingança contra os pretendentes de Penélope é moralmente justificável, se o herói que volta da guerra endurecido e mata dezenas para retomar o trono é, de fato, um modelo a ser seguido.

São exercícios de interpretação que transformam o texto antigo em laboratório ético para o presente. Kyriakos Agapiou, de 12 anos, resumiu o que extraiu das aulas com uma frase que qualquer roteirista de Hollywood gostaria de ter escrito: “Aprendi que tudo é possível e que nunca devemos desistir”. A leitura de um clássico, quando bem mediada, entrega exatamente o que Nolan busca no cinema: um mundo coerente no qual o espectador se reconhece.

O teatro como porta de entrada para o mito

Não é só na escola que a história respira. O ator Manos Pintzis, que encarnou Ulisses em uma montagem local, defende que levar o mito ao palco — e, por extensão, à tela — cumpre uma função que o texto sozinho não alcança. “Você não diz a uma criança: ‘simplesmente leia a história porque precisa fazer isso’, porque ela resistirá quando algo lhe é imposto”, explicou. “Quando a criança vê tudo isso se desenrolar diante de seus olhos, isso se transforma em um passo valioso em direção ao aprendizado, em direção à vontade de estudar por iniciativa própria.”

É uma observação que desarma o argumento de que adaptações profanam o original. A imagem em movimento, o corpo do ator, a luz no cenário — tudo isso funciona como isca para o texto, não como substituto dele. Nikos Varelas, engenheiro agrônomo, levou o filho de 4 anos para assistir a uma adaptação teatral depois de ler com ele versões infantis da Ilíada e da Odisseia. “É nosso dever como pais, como gregos”, disse. O dever, note-se, não é preservar uma pureza imaginária: é garantir a transmissão.

A fúria americana que não atravessou o Atlântico

Enquanto isso, a milhares de quilômetros dali, Elon Musk usava sua plataforma para acusar Nolan de “profanar” a Odisseia ao escalar uma atriz negra como Helena de Troia — sem ter visto um frame do filme. A reação, previsível na forma e no timing, alimentou o ciclo de indignação que move as redes sociais americanas, mas encalhou nas costas gregas. O público local está acostumado a ver seus mitos encarnados por estrangeiros: o escocês Gerard Butler gritou “Isso é Esparta!” sem que ninguém questionasse sua linhagem dórica; o americano Brad Pitt foi Aquiles em Troia; o irlandês Colin Farrell viveu Alexandre, o Grande.

Nolan, na verdade, não inovou em nada nesse quesito — apenas repetiu uma tradição centenária do cinema, com a diferença de que agora as redes sociais amplificam o desconforto seletivo de quem nunca reclamou do loiro Brad Pitt calçando as sandálias do mais grego dos heróis. Em entrevista ao Telegraph, o diretor deu de ombros: “Essas conversas que acontecem antes de as pessoas verem o filme são sempre irrelevantes, porque quem as tem ainda não sabe de fato o que é o filme”.

O subsídio estatal e a acusação de ideologia

Uma das poucas vozes discordantes na Grécia veio do partido nacionalista Niki, que criticou o governo por conceder cerca de 6 milhões de euros (algo em torno de R$ 34,8 milhões) em subsídios para apoiar a produção local. O argumento, temperado com citações a Musk, era de que os contribuintes gregos estariam financiando a imposição de uma “ideologia do tipo woke” sobre sua identidade cultural.

A ministra da Cultura, Lina Mendoni, respondeu com a contundência de quem entende o papel do Estado na arte — ou, mais precisamente, entende o perigo de confundi-lo com o de censor. “Não cabe ao Estado dizer a um criador como ele deve interpretar artisticamente uma obra ou um mito”, declarou à revista Lifo. E arrematou com a pergunta que deveria encerrar o assunto: “Estamos realmente tendo uma conversa sobre se o Estado deveria censurar Christopher Nolan?”.

Por que a Odisseia sobreviveu a quase três milênios

Christos Tsagalis, professor de literatura grega antiga na Universidade Aristóteles de Tessalônica, oferece a chave para entender por que a polêmica é, no fundo, uma discussão sobre nada. As obras de Homero sobreviveram precisamente por terem se tornado universais — e universais não são as que permanecem intocadas, mas as que suportam ser tocadas por todos. “Acho maravilhoso que algo criado em um momento específico por um povo específico seja compartilhado por tantas pessoas em todo o mundo. É uma cultura compartilhada”, disse.

O que está em jogo não é a cor da pele de Helena, mas se o filme capta o essencial de uma história que já foi contada em hexâmetros, em prosa, em teatro de arena, em desenho animado e agora em película de 70mm. Se o mundo criado por Nolan for coerente — e sua filmografia sugere que será —, o público entrará nele e o compreenderá. O resto é ruído de algoritmo. A epopeia, essa continua. Como um filme, disse Tsagalis. Como um bom filme.

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