Por que tanta gente está exausta — e como aliviar essa conta

Quatro anos depois do início da pandemia de COVID-19, muita gente continua cansada de um jeito que não se resolve com uma noite de sono. Não é simples preguiça, falta de disciplina ou incapacidade de voltar à rotina. O corpo passou tempo demais em alerta, e a vida tratou a retomada como se bastasse apertar um botão.

A psicóloga Naomi Holdt oferece uma explicação plausível: atravessamos anos de medo, luto, incerteza e adaptação; depois, tentamos compensar o tempo perdido correndo em todas as direções. Trabalho, escola, relações, dinheiro, planos. Tudo voltou ao mesmo tempo — ou pareceu voltar —, mas ninguém recomeçou com o tanque cheio.

Por que a retomada da rotina deixou tanta gente esgotada?

A retomada deixou tanta gente esgotada porque o alívio aparente veio acompanhado de uma cobrança para recuperar rapidamente tudo o que havia sido interrompido. Depois de quase dois anos de vigilância, perdas e mudanças sucessivas, a expectativa passou a ser funcionar normalmente. O problema é que normalidade não é um interruptor; é uma negociação lenta com aquilo que aconteceu.

Em uma publicação no Facebook, Holdt descreveu pessoas chegando ao fim de 2021 como quem atravessa uma linha de chegada arrastando os pés: confusas, desgastadas, movidas por restos de adrenalina. Em 2022, segundo a reflexão, muita gente ainda carregava choque, trauma, tristeza e a lembrança de uma existência surreal. A agenda, entretanto, não recebeu o memorando. Continuou cheia.

Então veio a corrida para alcançar o atraso. Era preciso recuperar aulas, entregas, viagens, encontros, desempenho, renda e até uma versão convincente de felicidade. O raciocínio parecia razoável: quanto mais ocupados estivéssemos, menos tempo sobraria para pensar no que doía. Só que o cérebro não arquiva luto por falta de espaço na agenda. Ele apenas empilha o assunto em algum canto.

O sistema nervoso simpático, responsável por preparar o organismo para responder a ameaças, permaneceu em alerta durante boa parte daquele período. Isso não significa que todas as pessoas tenham desenvolvido um transtorno, nem permite diagnosticar uma população inteira à distância. Significa algo mais modesto e mais útil: viver sob incerteza cobra energia. E a cobrança continua chegando, mesmo quando o perigo imediato diminui.

Como lidar com o cansaço sem transformar descanso em culpa?

Lidar com esse cansaço exige reconhecer que a recuperação não acontece no mesmo ritmo da reabertura da vida. O corpo e a mente precisam de tempo para processar perdas, medo e instabilidade; acelerar esse processo costuma produzir mais desgaste, não uma cura expressa.

Holdt recomenda uma pausa deliberada: respirar, lembrar quem você é e considerar o que atravessou. Parece conselho de calendário motivacional, eu sei. Mas há uma diferença entre uma frase bonita e uma prática simples: interromper por alguns minutos a lógica da urgência, perceber o próprio estado e reduzir uma cobrança desnecessária. Às vezes, o primeiro gesto de recuperação é parar de chamar exaustão de fracasso.

Isso pode significar abrir pequenos bolsões de silêncio, diminuir compromissos quando houver margem, dormir sem transformar o descanso em prêmio e aceitar que algumas tarefas terão de esperar. A vida não pode parar por completo — aluguel, filhos e boletos não costumam respeitar processos internos —, mas pode haver alguma escolha sobre a velocidade. Devagar não é desistir. É devolver ao organismo uma chance de sair do modo de emergência.

Crianças e adolescentes também atravessaram a turbulência, embora frequentemente recebam menos crédito por isso. A volta às aulas, às atividades e à convivência não apaga o que foi vivido; apenas muda o cenário. Adultos podem oferecer presença, escuta e expectativas menos rígidas, sem exigir que jovens transformem sofrimento em desempenho impecável.

Há ainda uma dimensão coletiva nessa história. Se muitas pessoas estão usando uma placa invisível de manuseie com cuidado, talvez a resposta não seja exigir que todas escondam a placa. Gentileza, nesse caso, não é enfeite moral. É uma forma prática de reduzir pressão enquanto cada um tenta entender qual será sua versão possível de rotina.

Não sei se existe um retorno completo ao que chamávamos de normal. Talvez a tarefa seja descobrir uma normalidade menos automática, capaz de incluir limites, silêncio e recuperação. A exaustão não precisa ser a identidade de ninguém, mas também não precisa ser negada para que o calendário pareça em ordem. Às vezes, seguir em frente começa quando a gente deixa de correr para provar que já está bem.

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