Na televisão dos anos 1980, sutileza era artigo raro. Havia investigadores particulares em Ferraris, soldados de fortuna montando tanques com sucata e famílias milionárias brigando por petróleo. No meio desse desfile de exageros estava Knight Rider, série em que David Hasselhoff interpretava um policial dado como morto, com outro rosto e outra identidade, viajando pelos Estados Unidos ao lado de um Pontiac Trans Am dotado de inteligência artificial.
A série está disponível gratuitamente no Tubi, e sua revisão produz uma surpresa razoável: KITT não parece mais tão absurdo. Ainda não temos carros indestrutíveis saltando obstáculos com o Turbo Boost, é verdade. Mas conversar com uma máquina, pedir informações, delegar tarefas e confiar em suas decisões deixou de ser uma extravagância. Knight Rider não previu exatamente o futuro. Acertou algo mais difícil: a maneira como passaríamos a conviver com a tecnologia.
Por que KITT parece menos futurista hoje?
KITT parece menos futurista hoje porque Michael Knight o utiliza como uma ferramenta cotidiana, sem transformar cada resposta em espetáculo. Essa naturalidade é a parte mais moderna da série.
Michael faz perguntas e espera respostas imediatas. Pede que KITT encontre informações, acompanhe o que acontece ao redor, analise situações e ofereça conselhos. Quando a missão aperta, o carro assume o controle e executa tarefas que seriam difíceis — ou simplesmente impossíveis — para uma pessoa sozinha. Michael também conversa remotamente com KITT por meio de seu relógio, detalhe que parecia extravagante antes de milhões de pessoas começarem a carregar pequenos computadores presos ao pulso.
O ponto não está apenas em KITT falar. Histórias de ficção científica já imaginavam computadores conversacionais muito antes da estreia da série. O que envelheceu bem foi a relação entre os dois. Michael não para para admirar a máquina sempre que ela responde; ele apenas pergunta. A tecnologia é extraordinária, mas o uso é banal. E é justamente assim que assistentes digitais entraram na rotina: indicam caminhos, sugerem conteúdos, respondem dúvidas e executam tarefas sem exigir uma cerimônia.
Carros autônomos ainda não alcançaram a capacidade de KITT para perseguir criminosos, atravessar obstáculos e tomar decisões dramáticas no estacionamento de algum vilarejo. Mas a ideia de um veículo se mover sem que alguém toque no volante já não pertence exclusivamente à televisão. O salto conceitual foi menor do que parecia. Primeiro a máquina impressiona. Depois ela vira hábito.
O que KITT entendeu sobre inteligência artificial?
KITT entendeu que uma inteligência artificial convincente precisa ser mais do que um sistema que entrega respostas corretas: ela precisa manter uma personalidade reconhecível e uma relação consistente com quem a utiliza.
A voz de William Daniels ajudava, naturalmente. KITT era sarcástico, cauteloso, teimoso e, às vezes, presunçoso. Preocupava-se com a imprudência de Michael, questionava suas decisões e não economizava comentários quando uma ideia parecia particularmente estúpida. Michael não tratava KITT como uma ferramenta neutra, e KITT não tratava Michael como alguém despejando comandos numa caixa de texto.
Mais de quatro décadas depois da estreia de Knight Rider, sistemas de inteligência artificial já conseguem compreender linguagem natural, responder perguntas complexas e sustentar conversas que soam surpreendentemente humanas. O problema difícil está em outro lugar. É fazer a interação parecer pessoal e coerente ao longo do tempo, com memória das preferências do usuário, compreensão de sua forma de trabalhar e uma personalidade que não desapareça a cada nova conversa.
Esse continua sendo o sonho de KITT. A versão ideal da inteligência artificial talvez não seja a máquina que sabe tudo, mas aquela com a qual alguém realmente queira conversar. Parece uma distinção pequena; não é. Um assistente que entrega a informação correta resolve uma tarefa. Um assistente que entende contexto, contraria uma decisão ruim e mantém alguma continuidade começa a ocupar outro lugar na vida cotidiana. Ainda não sei se estamos perto disso, mas já ficou claro que acertar fatos é só metade do serviço.
Por que Knight Rider continua tão exagerado?
Knight Rider continua exagerado porque nunca tentou construir um futuro plausível em todos os detalhes; preferiu transformar ideias tecnológicas em aventura de televisão aberta, com carros malignos, dublês e um tanto de purpurina mecânica.
Seria um erro colocá-lo automaticamente ao lado de Blade Runner apenas porque os dois estrearam em 1982 e tocaram no assunto da inteligência artificial. A série não oferece uma cartografia precisa do século XXI. Ela oferece outra coisa: uma lembrança de quando a televisão aceitava ideias grandes, estranhas e francamente desmedidas sem pedir licença ao departamento de plausibilidade.
Até seus elementos mais conhecidos carregam esse espírito. A música de abertura, composta por Stu Phillips, foi levemente inspirada em trechos do balé Sylvia, do século XIX, e mais tarde recebeu samples de artistas como Busta Rhymes, Timbaland & Magoo e Panjabi MC. O scanner vermelho pulsante de KITT veio diretamente dos Cylons de Battlestar Galactica, outra criação de Glen A. Larson. Nada disso é discreto. Ainda bem.
Os roteiros também não tinham medo do ridículo. KITT enfrentou KARR, um protótipo amoral que transformava dois Trans Ams quase indestrutíveis em inimigos naturais. Depois apareceu Garthe Knight, sósia maligno de Michael, permitindo que David Hasselhoff enfrentasse seu adversário mais formidável: David Hasselhoff de cavanhaque. Garthe ainda possuía Goliath, uma carreta blindada quase indestrutível construída para esmagar KITT.
Essa mistura explica a permanência da série. Knight Rider imaginou conversas naturais com inteligência artificial e vínculos afetivos com máquinas, mas embrulhou tudo em Turbo Boost, carros do mal e excesso oitentista. A previsão tecnológica acertou porque não tentou parecer sóbria. O futuro chegou por uma porta lateral, acompanhado de uma Trans Am preta e de uma luz vermelha piscando na grade.
Revisitar a série no Tubi não transforma KITT em um produto contemporâneo, nem apaga as soluções absurdas de seus episódios. O valor está justamente na fricção. A máquina parecia impossível; a dependência de Michael, não. Hoje falamos com sistemas digitais enquanto caminhamos, dirigimos ou trabalhamos, muitas vezes sem lembrar que isso já foi uma fantasia televisiva. KITT errou o desenho do futuro. Acertou o hábito — e talvez seja essa a parte que ainda deveria nos deixar um pouco desconfiados.



