O documentário Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, reconstitui a trajetória do líder estudantil Honestino Guimarães e seu desaparecimento durante a ditadura militar. Lançado em 13 de agosto de 2026, o filme combina imagens de arquivo, cartas, poemas, depoimentos e cenas dramáticas interpretadas por Bruno Gagliasso. A proposta não é apenas recuperar uma biografia interrompida, mas fazer o passado conversar com o presente sem transformá-lo em peça de museu.
Por que o filme de Honestino chega agora?
O filme chega agora para recuperar a história de um jovem desaparecido pela ditadura e recolocá-la no debate sobre liberdade, democracia e memória.
A ideia nasceu depois de uma troca de mensagens entre Michiles e Isaura Botelho, ex-companheira de Honestino. Ela enviou ao cineasta um vídeo de Lucas, neto do casal, discursando durante a reinauguração da ponte Honestino Guimarães, sobre o Lago Paranoá, em Brasília. A cena funcionou como uma espécie de curto-circuito entre gerações: o nome que o regime tentou apagar reaparecia na voz de um descendente, em espaço público, décadas depois.
Michiles contou que a história sempre esteve presente, mas também carregava uma dor que ele adiava enfrentar. Depois de assistir ao vídeo, ligou para Isaura e disse que faria um filme sobre “Gui”, apelido usado pelos amigos. Ela então entregou uma caixa com cartas destinadas a familiares e amigos, fotografias, poemas, documentos da Ação Popular e outros objetos pessoais. O produtor e exibidor brasiliense Nilson Rodrigues, que tinha ideia semelhante, tornou-se um dos principais incentivadores do projeto.
Como Honestino combina documentário e ficção?
Honestino combina documentário e ficção para preencher a ausência de imagens em movimento sem fingir que o passado deixou um registro completo.
A equipe fez uma busca ampla pelos arquivos iconográficos conhecidos, mas não encontrou imagens em movimento de Honestino. Restaram fotografias, documentos, cartas, poemas e relatos de pessoas que conviveram com ele. A ausência não é um detalhe de produção; é parte do problema histórico. Quando o Estado sequestra uma pessoa e também controla os vestígios de sua passagem, o cinema precisa trabalhar com lacunas, não escondê-las sob uma aparência artificial de certeza.
Por isso, Bruno Gagliasso interpreta Honestino nas cenas de reconstituição. A escolha segue uma ideia defendida pelo cineasta Alberto Cavalcanti, segundo a qual documentário e ficção não precisariam viver em territórios separados. Michiles descreve a combinação como uma dramaturgia capaz de ligar passado e presente. A atuação não pretende substituir o arquivo, mas iluminar zonas que o arquivo não alcança: a clandestinidade, o medo, a intimidade e a dimensão cotidiana de um militante que também gostava de poesia, romances e cinema.
Quem foi Honestino Guimarães?
Honestino Guimarães foi um líder estudantil, aluno de geologia da UnB e presidente da UNE, desaparecido aos 26 anos pela repressão política.
Nascido em 1947, em Itaberaí, Goiás, Honestino mudou-se para Brasília durante a construção da capital. Ainda no ensino fundamental, participou do movimento estudantil. Em 1965, ingressou no curso de geologia da Universidade de Brasília e, dois anos depois, foi eleito presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília, a Feub. Também se filiou à Ação Popular, organização de oposição ao regime militar.
Em agosto de 1968, as Forças Armadas invadiram o campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte, e prenderam Honestino e outros sete estudantes. Ele ficou detido por aproximadamente quatro meses e foi desligado da universidade antes de ser libertado. Depois da decretação do Ato Institucional nº 5, em dezembro daquele ano, passou a viver na clandestinidade em São Paulo, onde presidiu a União Nacional dos Estudantes. Mais tarde, transferiu-se para o Rio de Janeiro usando identidade falsa.
Em 10 de outubro de 1973, agentes do Centro de Informações da Marinha prenderam Honestino. Na prisão, ele conseguiu enviar à mãe um bilhete codificado informando que estava detido. Nunca mais foi visto. Deixou a filha Juliana, então com três anos. Em setembro de 2013, a Comissão Nacional da Verdade retificou seu atestado de morte e reconheceu que ela ocorreu em consequência de atos de violência praticados pelo Estado brasileiro.
Que memória o filme pretende preservar?
O filme pretende preservar uma memória política e humana, mostrando Honestino como agente de sua época, não como símbolo congelado pela tragédia.
Na leitura de Michiles, Honestino era um jovem que enfrentava os desafios de sua geração e sonhava com uma transformação social baseada na justiça. Como estudante de geologia, enxergava os recursos naturais brasileiros como patrimônio relacionado à soberania nacional. Essa combinação de militância, formação técnica e imaginação política impede que sua figura seja reduzida a uma fotografia de desaparecido. Há um personagem antes do desaparecimento, com desejos, amizades, leituras e uma maneira particular de atravessar o perigo.
O diretor recorda um episódio de 1970, em São Paulo. Honestino vivia na clandestinidade quando os dois foram ao Cine Bijou, na praça Roosevelt, assistir a Satyricon, de Federico Fellini. Michiles estava nervoso com a segurança do amigo. Ao perceber a apreensão, Honestino segurou seus ombros e disse: “Calma, companheiro, a hora agora é de diversão. Vamos ao Fellini”. A frase não dissolve a violência daquele período, mas devolve ao militante uma coisa que as narrativas oficiais costumam retirar: o direito de viver também os intervalos.
Essa dimensão explica o título e a ambição do projeto. Tornar alguém “agente do seu tempo” significa reconhecer as escolhas feitas sob condições concretas, sem projetar sobre 1970 as respostas políticas de 2026. Também significa evitar o hábito preguiçoso de transformar qualquer personagem histórico em profeta. Honestino não precisa ter previsto o presente para continuar sendo relevante; basta observar o que defendeu, o que perdeu e o que o país ainda não resolveu.
Qual é o impacto histórico de recuperar esse caso?
Recuperar o caso de Honestino reforça a dimensão humana dos desaparecimentos políticos e mantém aberta a busca por verdade, responsabilidade e restos mortais.
O relatório final da Comissão Nacional da Verdade registrou 434 mortes e desaparecimentos políticos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985. Em 210 casos, incluindo o de Honestino, os restos mortais nunca foram entregues às famílias. O número é grande o bastante para virar estatística e específico o bastante para exigir resistência a esse apagamento. Cada registro envolve uma casa que ficou esperando, uma família sem sepultura e um Estado que demorou décadas para reconhecer sua responsabilidade.
Michiles afirma que não realizou o filme pensando em provocar uma reação social determinada. Ainda assim, espera que o público descubra esse brasileiro e que a obra desperte, em alguém que conheça informações sobre o caso, a vontade de revelá-las. É uma expectativa modesta apenas na aparência. Em histórias de desaparecimento, uma lembrança, um documento ou um depoimento podem alterar o que parecia definitivamente perdido.
As primeiras sessões, segundo o diretor, emocionaram o público e receberam reação estimulante da crítica especializada. O longa também foi exibido em sessão privada no Cine Alvorada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e convidados. A recepção institucional, porém, não substitui a circulação nas salas. Um filme sobre memória só completa seu percurso quando deixa de ser assunto de cerimônia e encontra espectadores dispostos a encarar o que foi escondido.
O que saber sobre a produção de Honestino?
Honestino é uma produção brasileira de 2026, dirigida por Aurélio Michiles e distribuída pela Pandora Filmes, com Bruno Gagliasso no papel principal.
O roteiro é assinado por Aurélio Michiles e André Finotti, com produção de Nilson Rodrigues e produção executiva de Caetano Curi. A direção de fotografia é de André Lorenz Michiles, ABC; a direção de arte, de Kita Flórido; o figurino, de Isabel Lorenz Michiles; e a montagem, de André Finotti. A pesquisa de arquivo foi realizada por Michiles, Mariana Couto, Patricia Freyer e Tereza Eleutério.
A equipe técnica inclui Miriam Biderman, ABC, na supervisão de edição de som, e Ricardo Reis, ABC, no desenho de som e na mixagem. Flavia Tygel assina a trilha sonora original, enquanto Fafá de Belém interpreta a música-tema. A obra reúne depoimentos de familiares, amigos e militantes, além de participações de Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e da biógrafa Betty Almeida.
O resultado é um filme sobre um desaparecimento, mas não apenas sobre a ausência. Ao juntar arquivo e encenação, a produção tenta reconstruir a presença possível de Honestino: o estudante, o dirigente, o clandestino, o leitor, o amigo e o pai. A história termina sem corpo, mas não sem vestígios. Cartas, poemas, fotografias e testemunhos continuam fazendo aquilo que a repressão tentou impedir: dar nome, rosto e consequência a uma vida interrompida.


