Veja como um olho único de 600 milhões de anos pode ter ajudado a formar nossa visão

Um novo modelo evolutivo propõe que as retinas pareadas dos vertebrados, incluindo as humanas, descendem de um único órgão sensível à luz, situado no centro da cabeça de um animal marinho que viveu há cerca de 600 milhões de anos. A hipótese também relaciona esse antigo olho mediano aos sistemas pineal e parapineal, ligados à percepção luminosa e, nos humanos, à regulação do ciclo de sono.

O estudo, publicado na revista Current Biology, foi desenvolvido por Dan-Eric Nilsson, da Universidade de Lund, e por George Kafetzis, Michael J. Bok e Thomas Baden, da Universidade de Sussex. Não existe fóssil comprovando a existência desse animal de um olho só. Trata-se de uma reconstrução baseada na comparação entre células fotossensíveis, órgãos visuais e circuitos neurais de diferentes grupos animais.

Como um olho mediano poderia originar duas retinas?

Um olho mediano ancestral pode ter fornecido células e circuitos neurais que evoluíram depois para formar as retinas esquerda e direita dos vertebrados. A criatura reconstruída teria corpo semelhante ao de um verme, viveria no mar, provavelmente em uma toca, e filtraria a água para obter alimento. Em uma fase anterior, talvez possuísse agrupamentos de células sensíveis à luz nos dois lados da cabeça.

Essas estruturas laterais não precisavam produzir imagens detalhadas para serem úteis: detectar dia, noite ou a orientação do corpo já ajudaria na sobrevivência. Quando o animal adotou um modo de vida mais sedentário, a visão lateral teria perdido parte de sua vantagem. As células centrais, porém, permaneceram e se organizaram em um órgão simples, capaz de perceber luz. Mais tarde, os descendentes voltaram a nadar ativamente, e a seleção natural encontrou ali material reutilizável para uma visão mais sofisticada.

O que a hipótese revela sobre a evolução da retina?

A proposta afirma que a evolução não precisou construir um sistema visual do zero: ela reorganizou estruturas já existentes quando detectar alimento, obstáculos e predadores voltou a ser decisivo. O antigo órgão central teria se expandido lateralmente, contribuindo para as retinas pareadas e também para os sistemas pineal e parapineal dos primeiros vertebrados.

Essa reconstrução ajuda a explicar por que a retina reúne células de linhagens evolutivas diferentes. Bastonetes e cones pertencem à linhagem dos fotorreceptores ciliares, enquanto células ganglionares, amácrinas e horizontais têm vínculos evolutivos com fotorreceptores rabdoméricos. Em muitos animais, essas linhagens participam de sistemas separados; no ancestral proposto, elas já poderiam coexistir no mesmo órgão.

Um estudo de 2024, publicado em Nature Communications, dá suporte à antiguidade desse circuito ao comparar células da retina de lampreias-marinhas com as de camundongos, galinhas e peixes-zebra. Muitos tipos celulares envolvidos no processamento visual já estavam presentes no início da evolução dos vertebrados.

A ligação com a glândula pineal é igualmente curiosa, embora não autorize uma conclusão definitiva. Em vários vertebrados, os sistemas pineais detectam luz diretamente. Nos humanos, a glândula pineal não enxerga nem recebe luz de forma direta: produz melatonina, hormônio que ajuda a sincronizar o relógio interno com o ciclo de dia e noite. Se o modelo estiver correto, enxergar com dois olhos e sentir sono depois do escurecer seriam heranças diferentes de um mesmo órgão primitivo.

O “ciclope” de 600 milhões de anos continua sendo uma criatura reconstruída, não uma descoberta fóssil. Esse detalhe é o freio necessário contra a manchete fácil: a hipótese é uma leitura comparativa da anatomia e da evolução de espécies vivas. Ainda assim, ela oferece uma imagem poderosa. A visão humana talvez não tenha surgido como projeto acabado, mas como uma gambiarra ancestral que ganhou novas funções quando o animal mudou de vida.

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