Perseverance reúne novas pistas sobre a possível vida antiga em Marte

Uma pesquisa apresentada no COSPAR, conferência internacional de pesquisa espacial realizada em Florença, elevou o interesse por uma pergunta antiga: Marte já abrigou vida? A combinação de minerais semelhantes aos produzidos por micro-organismos na Terra com matéria orgânica complexa, identificada pelo rover Perseverance, reforça essa hipótese. Mas há uma diferença crucial entre encontrar sinais compatíveis com vida e encontrar vida propriamente dita. Até agora, a missão oferece indícios indiretos, não uma certidão marciana.

O que os minerais encontrados pelo Perseverance indicam?

Os minerais e a matéria orgânica encontrados pelo Perseverance aumentam a plausibilidade de Marte ter sido habitado no passado, mas não comprovam essa origem biológica.

A pesquisa foi apresentada no COSPAR, em Florença, evento organizado pelo Instituto Nacional de Astrofísica da Itália (INAF). Segundo Teresa Fornaro, pesquisadora do Observatório Arcetri do INAF e professora de astrobiologia, a combinação observada chama atenção porque certos minerais são produzidos por micro-organismos terrestres, enquanto a matéria orgânica complexa oferece outro componente compatível com processos biológicos. O problema é que a matéria encontrada em Marte sofreu alterações, e sua estrutura atual não permite rastrear com segurança como ela se formou.

Por que a possível vida marciana estaria no subsolo?

A vida marciana teria maior probabilidade de ter sobrevivido no subsolo, protegida da radiação intensa que atinge a superfície do planeta.

Fornaro afirmou à agência ANSA que, caso tenha existido, essa vida provavelmente assumiu a forma de micro-organismos subterrâneos. Abaixo da superfície, eles estariam menos expostos à radiação e poderiam obter energia das próprias rochas, em vez de depender de condições semelhantes às encontradas na Terra. É uma hipótese austera, quase sem paisagem: nada de florestas marcianas ou criaturas caminhando sob dois sóis, apenas organismos microscópicos aproveitando reações químicas em um ambiente hostil. A amostra que sustenta parte da discussão foi coletada no verão de 2024 e ainda depende de análises adicionais.

 

Quando será possível confirmar se Marte teve vida?

A confirmação exigirá analisar na Terra as amostras coletadas em Marte, porque os dados atuais ainda são indiretos e sujeitos a interpretações alternativas.

Uma dessas amostras contém traços considerados potencialmente biológicos, mas a origem desses sinais permanece em aberto. Sean Duffy, administrador da NASA, descreveu o resultado como o momento em que a humanidade chegou mais perto da vida em Marte. A frase tem o tamanho habitual de um anúncio histórico; o laboratório, felizmente, continua falando mais baixo. O Perseverance começou a explorar o planeta em 2021, dentro da missão Mars 2020, originalmente planejada para durar um ano marciano, equivalente a cerca de 687 dias terrestres. A missão foi estendida por tempo indeterminado, e o rover continua coletando rochas e regolito.

Como a missão ExoMars pode avançar nessa investigação?

A missão ExoMars pretende procurar evidências mais diretas com o rover Rosalind Franklin, projetado para perfurar até dois metros abaixo da superfície marciana.

Conduzida pela Agência Espacial Europeia (ESA), a missão tem lançamento previsto para 2028 e pouso esperado para 2030, conforme as informações apresentadas. O Trace Gas Orbiter, enviado em 2016, já estuda a atmosfera de Marte. O Rosalind Franklin deverá levar instrumentos avançados e investigar camadas que rovers anteriores não alcançaram, concentrados principalmente na superfície. Essa capacidade é decisiva porque a radiação altera materiais expostos ao ambiente marciano e pode apagar justamente os sinais que os pesquisadores procuram. A resposta, portanto, talvez esteja menos na paisagem visível do que no que ainda permanece enterrado.

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