Um condor-andino e um cisne-trombeteiro podem pesar quase a mesma coisa: cerca de 11 quilos. Ambos precisam vencer a gravidade para permanecer no ar, mas gastam energia de maneiras radicalmente diferentes. O cisne bate as asas durante aproximadamente 99% do voo; o condor, apenas 0,1%. Segundo uma nova pesquisa, o condor usa 79% menos energia para percorrer a mesma distância. Em condições favoráveis, voar pode ser mais econômico que nadar — resultado que bagunça uma regra antiga da locomoção animal.
Por que nadar sempre pareceu o jeito mais barato de viajar?
Nadar costuma ser considerado o meio de transporte energeticamente mais econômico para um animal porque a água sustenta parte do seu peso. O peixe não precisa combater a gravidade a cada instante, embora ainda precise vencer a resistência do próprio meio. Voar vem depois: a ave precisa produzir sustentação para não cair. Correr, em geral, custa mais, pois o animal sustenta o corpo enquanto acelera repetidamente pernas e tronco. Essa comparação é descrita pelo custo de transporte, medida que estima quanta energia é necessária para mover determinada massa por determinada distância. É uma espécie de consumo de combustível da zoologia.
O problema está nas condições em que esse cálculo costuma ser feito. Muitos experimentos ocorreram em laboratórios: peixes nadaram em tanques, aves voaram em túneis de vento e mamíferos correram em esteiras. O ambiente controlado facilita a medição do gasto energético, mas retira da equação uma coisa bastante relevante: a atmosfera. Na natureza, o céu não é simplesmente o fundo azul atrás do bicho. Ele se move, oferece correntes ascendentes, muda de direção e pode carregar o viajante por quilômetros. A conta feita em laboratório, portanto, nem sempre descreve a viagem real.
“Para nós, o céu pode parecer apenas o pano de fundo dos animais voadores, mas é um recurso essencial que pode alterar drasticamente o custo de uma jornada”, afirmou Martina Scacco, primeira autora do estudo. A frase parece óbvia depois que alguém a pronuncia. Antes, não era tanto. Comparar um animal nadando em um tanque com um condor aproveitando uma coluna de ar é como comparar um ciclista numa bicicleta ergométrica com outro descendo uma serra — não, o contrário: ainda há esforço, mas o terreno participa da viagem.

Como as aves transformam o ar em energia?
As aves planadoras conseguem reduzir drasticamente o gasto energético porque aproveitam correntes ascendentes de ar quente. Essas correntes, chamadas térmicas, surgem quando o Sol aquece o solo e faz o ar acima dele subir. O pássaro entra numa dessas colunas, circula para ganhar altitude e depois plana em direção ao destino, perdendo altura até encontrar outra térmica. Assim, ele troca batidas musculares por uma sequência de subida e deslizamento. A energia não veio do nada: veio do Sol, que aqueceu a paisagem e movimentou a atmosfera.
A imagem mais simples é a de um elevador seguido por uma descida até o próximo elevador. O condor sobe sem precisar gerar toda a sustentação com os músculos, depois percorre uma longa distância planando. Águias e abutres fazem isso com tanta frequência que, vistos do chão, parecem presos num círculo imóvel. Não estão parados. Estão usando uma infraestrutura invisível, feita de diferenças de temperatura e movimento do ar. E há uma ironia discreta nessa eficiência: o animal mais pesado da comparação pode ser justamente o que menos trabalha com as asas.
Para medir esse comportamento fora do laboratório, uma equipe internacional de 68 cientistas reuniu dados de 17 anos de registros de GPS e acelerômetros. O conjunto incluía aproximadamente 850 aves e morcegos de 38 espécies. Os pesquisadores também analisaram quatro anos de observações por radar de aves menores, organizadas em 12 categorias de tamanho. Ao todo, foram quase 200 mil segmentos de voo baseados em GPS, além de milhares de observações de radar. Os animais iam de aves com pouco mais de 12 gramas a grandes planadores com mais de 11 quilos.
O GPS indicou por onde os animais passaram e em que velocidade. Os acelerômetros ajudaram a separar os movimentos caros, como as batidas de asa, daqueles mais econômicos, como o planeio e a ascensão. Depois, a equipe cruzou esses registros com informações sobre vento e correntes de ar ascendente. Não se tratava apenas de observar uma ave no céu, mas de estimar quanto custava cada trecho da viagem nas condições encontradas. Um detalhe importante, embora menos fotogênico: os valores de energia são modelos calculados a partir do movimento, não medições metabólicas diretas.

Os maiores voadores são realmente mais eficientes?
Sim, as espécies maiores tendem a bater menos as asas e a gastar menos energia por unidade de massa e distância. Isso não significa que um animal grande consuma menos energia em termos absolutos; significa que o custo relativo de deslocamento pode ser menor. O estudo encontrou esse padrão entre aves planadoras, que usam o tamanho do corpo, o formato das asas e o comportamento de voo para extrair mais benefício das correntes ascendentes. Massa, nesse caso, não é apenas um fardo. Pode ser parte da solução.
Nos voos de sete espécies de abutres, os pesquisadores reuniram trajetos que somavam mais de 4,3 milhões de quilômetros, distância suficiente para dar mais de cem voltas na Terra. Os animais acumularam cerca de 128 mil dias de voo. Ainda assim, dependendo da espécie, passaram apenas de 0,1% a 7% do tempo batendo as asas. O condor-andino, o mais pesado entre os abutres comparados, foi também o que menos utilizou esse movimento. A ave não economiza por preguiça. Economiza porque conhece o mapa físico do ar.
Há, porém, uma contrapartida. Aves grandes e especializadas em planar dependem mais de condições atmosféricas adequadas. Se as térmicas aparecem no lugar certo, a viagem pode ser extraordinariamente barata. Se não aparecem, a flexibilidade diminui. Aves menores são menos dependentes de correntes ascendentes e conseguem manter o voo com mais autonomia, mas pagam por isso com mais batidas de asa. Não existe almoço grátis, nem mesmo quando o restaurante é uma coluna de ar aquecido pelo Sol.
O resultado mais surpreendente é que alguns desses voadores podem viajar de forma mais econômica que animais nadadores, contrariando a classificação tradicional do custo de transporte. Isso também muda a maneira de pensar sobre migração. Uma rota mais longa, mas acompanhada por ventos favoráveis e térmicas bem distribuídas, pode exigir menos energia que um caminho curto atravessado em condições ruins. A distância no mapa não é a distância no corpo. Talvez seja essa a parte que os cálculos antigos deixavam fora da moldura.
As consequências podem alcançar o estudo das migrações num período de mudanças atmosféricas. Alterações nos ventos e nas correntes ascendentes podem modificar a energia necessária para viajar e até influenciar os lugares que determinadas aves conseguem alcançar. O estudo publicado na revista Science não fecha essa conta. Ele mostra que o custo de locomover-se depende do animal e do ambiente que o transporta. Um condor visto do chão parece apenas deslizar. Lá em cima, está fazendo contabilidade com o Sol, o relevo e o vento — e talvez nós ainda estejamos olhando para o céu como quem olha apenas para o teto.

