O que um estudo com recém-nascidos revela — e ainda não revela — sobre meninos e meninas

A velha pergunta sobre comportamento, natureza e criação ganhou um experimento de poucos minutos — realizado quando os participantes ainda nem tinham completado dois dias de vida. Pesquisadores da Universidade de Cambridge observaram recém-nascidos com cerca de 33 horas diante de dois vídeos: um rosto humano e um berço de Newton, aquele conjunto de esferas metálicas que bate de um lado para o outro. Meninas passaram proporcionalmente mais tempo olhando para o rosto. Isso sugere uma preferência visual mais forte, não uma sentença sobre personalidade, sociabilidade ou futuro.

Os dois grupos olharam um pouco mais para o rosto do que para o objeto em movimento. A diferença apareceu na proporção e no tempo absoluto: as meninas passaram cerca de dez segundos a mais diante do rosto, em comparação com o berço de Newton. Entre os meninos, não houve diferença estatisticamente significativa entre os tempos dedicados aos dois vídeos. A leitura mais prudente é simples: naquele experimento, naquele momento, as meninas demonstraram uma preferência mais nítida pelo estímulo social.

É tentador transformar o resultado em uma história pronta. Meninas nasceriam mais interessadas em pessoas; meninos, menos. Só que recém-nascidos não chegam ao mundo com manual de instruções, e um vídeo de um rosto não mede exatamente o desejo de conversar, abraçar ou fazer amizade. Mede atenção visual. Parece um detalhe, mas é o detalhe que impede uma observação interessante de virar caricatura de gênero.

O que o experimento realmente mediu?

O estudo mediu a duração do olhar de recém-nascidos diante de um rosto humano e de um berço de Newton, não a sociabilidade que eles terão ao crescer. As crianças foram observadas com aproximadamente 33 horas de vida, antes que pudessem acumular experiências sociais relevantes fora do útero. O desenho é engenhoso pela simplicidade: dois estímulos, uma diferença de atenção e uma pergunta antiga reaparecendo em escala microscópica.

O resultado, porém, não acompanha os bebês ao longo da infância. Portanto, não permite dizer se a preferência inicial prevê linguagem, empatia, comportamento social ou qualquer outro traço posterior. Uma revisão publicada em 2025 encontrou um quadro menos arrumado: não havia diferença significativa entre meninos e meninas na fixação do olhar em rostos humanos. A mesma revisão também não encontrou diferença no choro contagioso, quando um bebê começa a chorar em resposta ao choro de outro.

O que pode explicar a diferença entre os grupos?

A diferença pode estar relacionada a fatores anteriores ao nascimento, mas o estudo não identifica uma causa única. Os pesquisadores citam os hormônios sexuais, incluindo o aumento de testosterona observado nos meninos no início da gestação, cerca de 2,5 vezes maior que a exposição média das meninas. Esse hormônio participa do desenvolvimento físico e cerebral, embora transformar essa associação em explicação fechada seja um salto comprido demais.

Outra hipótese envolve maturação cognitiva. Meninas apresentariam, em média, desenvolvimento mais rápido durante a infância, e diferenças sutis de maturação já poderiam aparecer no período neonatal. Isso talvez ajude a processar imagens complexas, como rostos, com um pouco mais de eficiência. Mas existe uma pedra no sapato: os vídeos não eram idênticos em cor, movimento e composição. Mesmo com tentativas de equilibrar essas características, algum aspecto visual — e não o caráter social do rosto — pode ter atraído mais as meninas.

A socialização também não desaparece só porque o bebê acabou de nascer. Adultos podem olhar, falar e tocar meninos e meninas de maneiras discretamente diferentes desde os primeiros dias, embora os pesquisadores considerem esse efeito provavelmente pequeno no experimento. Não sabemos quanto pesa cada possibilidade: hormônios, maturação, estímulos visuais ou interação adulta. Sabemos apenas que uma diferença apareceu cedo, sob condições específicas, e que outras pesquisas não desenham o mesmo contorno.

O berço de Newton continua balançando, portanto, mas a conclusão não deve seguir o mesmo movimento pendular entre “tudo é biologia” e “tudo é criação”. O estudo acrescenta uma peça ao quebra-cabeça do desenvolvimento; não entrega a imagem da caixa. Antes de chamar atenção neonatal de personalidade, ainda é preciso observar o que acontece depois que a vida começa a oferecer rostos de verdade.

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