Entre outubro de 1982 e janeiro de 1983, uma equipe binacional resgatou quase 39 mil animais durante o enchimento do reservatório de Itaipu. A operação, batizada de Mymba Kuéra — “os animais”, em guarani — reuniu lanchas, rádios, helicópteros, jaulas improvisadas e uma boa dose de urgência.
O número impressiona, mas a cena explica melhor o tamanho do problema: a água subia, as árvores desapareciam e macacos, cobras, tatus, aves e tarântulas procuravam qualquer pedaço de terra ou galho acima do novo lago. Não era uma operação de laboratório. Era uma corrida dentro de um ecossistema em dissolução.
Como começou o resgate da fauna de Itaipu?
O resgate começou quando o canal que desviava o rio Paraná foi fechado, em 13 de outubro de 1982, e a área destinada ao reservatório passou a ser inundada. A equipe paraguaia, liderada pelo engenheiro agrônomo Darío Pérez Chena, trabalhou até 10 de janeiro de 1983 para retirar animais que não conseguiriam escapar sozinhos.
Itaipu estava sendo construída desde 1973, numa parceria entre Brasil e Paraguai. A usina teria mais de 7 quilômetros de extensão e, na época, se tornaria a maior hidrelétrica do mundo. Para erguer a obra em terreno seco, foi preciso desviar temporariamente o rio. Depois, as comportas seriam abertas e a água ocuparia uma área de aproximadamente 1.350 quilômetros quadrados.
O problema é que aquele espaço não era vazio, à espera de concreto. Fazia parte da Floresta Atlântica do Alto Paraná, um dos grandes reservatórios de biodiversidade da América do Sul, com cerca de 20 mil espécies de plantas, pelo menos 2 mil espécies de animais e aproximadamente 400 espécies de aves. A engenharia tinha uma planta. A floresta, milhares de vidas sem manual de instruções.
A Conferência de Estocolmo, realizada em 1972, havia colocado o meio ambiente no centro da conversa internacional. O projeto de Itaipu surgiu nesse momento de transição, quando grandes obras ainda eram apresentadas como símbolos quase inevitáveis de progresso, mas já começavam a ser cobradas pelos seus efeitos. No lado paraguaio, a pergunta era simples e brutal: seria possível salvar parte daquele patrimônio antes que a água chegasse?
Como 189 pessoas se prepararam para a operação?
A preparação durou anos e começou com um inventário detalhado da área que seria inundada. A equipe registrou plantas, animais, rastros, pegadas e materiais fecais, com a participação de botânicos, zoólogos e engenheiros florestais. O levantamento não servia apenas para saber o que poderia ser encontrado durante o resgate; ele também criou um arquivo da fauna paraguaia.
O grupo principal tinha 189 pessoas, escolhidas por critérios bastante práticos: os integrantes deveriam saber nadar, ter boa visão e audição e, em geral, não passar dos 40 ou 45 anos. Havia ainda cerca de 150 profissionais de apoio, entre médicos, enfermeiros, pilotos de helicóptero, mecânicos e bombeiros. A operação exigia tanto conhecimento de biologia quanto capacidade de não entrar em pânico diante de uma serpente venenosa.
Os socorristas receberam treinamento de técnicos brasileiros e estrangeiros. Trabalhavam a partir de lanchas, comunicando-se por rádios e frequentemente em guarani. Nada de localização por satélite, telefone celular ou aplicativo capaz de transformar cada ocorrência em ponto colorido num mapa. Os motores eram menos desenvolvidos, os equipamentos hoje parecem peças de museu e, mesmo assim, funcionaram.
A equipe carregava kits com soro antiofídico, porque algumas víboras tinham veneno capaz de matar em poucos minutos. Também precisou adaptar jaulas para aves e encontrar maneiras de capturar animais agressivos sem feri-los. Era uma logística de guerra, só que o território inimigo era água subindo e o objetivo não era conquistar terreno, mas devolvê-lo a quem já estava ali.
Quais animais foram resgatados durante a inundação?
Foram resgatados 27.150 animais no lado paraguaio e cerca de 11 mil no lado brasileiro, totalizando quase 39 mil indivíduos. O pico chegou a mais de 600 animais retirados em um único dia, conforme o relato de Pérez Chena. A quantidade não surgiu de uma grande coleta planejada de uma vez, mas de uma sucessão de encontros à medida que a água avançava.
O critério principal era salvar animais que não soubessem nadar ou que, mesmo sabendo, estivessem exaustos e em risco de afogamento. Onças-pintadas não entravam na lista: são excelentes nadadoras e podem atravessar o rio Paraná entre Paraguai e Brasil. Macacos, porém, embora saibam nadar, cansam rapidamente. Na água, o repertório de habilidades de um animal pode evaporar em poucos minutos.
As árvores parcialmente submersas viraram pontos de concentração. Macacos eram encontrados nos galhos, às vezes com filhotes pequenos presos ao pescoço. Aves subiam para caçar insetos e acabavam com as penas da cauda molhadas, perdendo o que lhes permite manobrar no ar. Algumas eram vistas chafurdando na água, situação pouco compatível com a dignidade de um bicho que ainda precisava voar.
Cobras e tarântulas também fizeram parte da operação. Das espécies resgatadas no Paraguai, 45% eram cobras, e metade delas era venenosa. Tatus foram capturados em quantidade e alguns tatupebas foram enviados a Tóquio para estudos científicos, porque a espécie apresenta resistência à lepra. O destino dos animais variava: reservas próximas, instituições de pesquisa e áreas protegidas do mesmo ecossistema.
A contagem, naturalmente, não encerra a história. Insetos, animais subterrâneos e organismos pequenos dificilmente poderiam ser localizados, muito menos transportados em segurança. Pérez Chena reconheceu que muitos morreram, embora a equipe tivesse trabalhado com os recursos e o conhecimento disponíveis. Não houve negligência deliberada, segundo ele. Houve inexperiência, limites técnicos e uma obra que não esperava pela biologia.
Para onde foram levados os animais resgatados?
Grande parte dos animais foi transferida para mais de 100 mil hectares de áreas protegidas dentro do mesmo ecossistema da Floresta Atlântica do Alto Paraná. A escolha tentava evitar um erro conhecido: retirar um bicho de seu ambiente e jogá-lo em outro, como quem muda um móvel de cômodo. O destino precisava oferecer condições minimamente compatíveis com alimentação, abrigo e reprodução.
Centenas de víboras foram levadas ao Instituto Butantan, em São Paulo, referência em pesquisas biológicas e produção de soros antiofídicos. Os caixotes com as cobras saíam de avião às seis da manhã. A imagem tem uma combinação peculiar de precisão e assombro: enquanto a hidrelétrica reorganizava a geografia de um rio, serpentes viajavam para contribuir com a medicina.
O trabalho também deixou uma base para projetos posteriores de conservação. O resgate ajudou a formar o conhecimento sobre a fauna local e influenciou a criação de reservas e iniciativas ligadas à biodiversidade, entre elas o Centro Ambiental Tekotopa, mantido por Itaipu em Hernandarias, no Paraguai. Não transformou a inundação em algo reversível — não, o contrário —, mas reduziu parte da perda e estabeleceu procedimentos que antes praticamente não existiam na região.
Todos os 189 integrantes da equipe retornaram, sem acidentes graves. Houve pequenas mordidas de macacos, naturalmente; a natureza não assinou termo de colaboração. Pérez Chena acredita que talvez apenas 50 ou 60 deles ainda estejam vivos. A operação, no entanto, permaneceu como uma referência sul-americana: quase 39 mil animais retirados antes que o antigo território desaparecesse sob o reservatório.
O que Mymba Kuéra deixou para a conservação?
Mymba Kuéra deixou uma experiência pioneira de resgate de fauna associada a uma grande obra de infraestrutura. A operação não salvou tudo, e seus responsáveis nunca disseram o contrário. Ela mostrou, porém, que inventário, treinamento, equipes multidisciplinares e planejamento podem reduzir danos quando uma transformação ambiental já foi decidida.
Itaipu continuou sendo uma obra monumental. A usina abastece grande parte do consumo de eletricidade do Paraguai e uma parcela relevante do mercado brasileiro, além de manter o recorde mundial de produção acumulada de energia ao longo de mais de quatro décadas de funcionamento. Sua escala ajuda a entender a contradição: a mesma barragem que reorganizou o rio também produziu uma das primeiras operações ambientais de grande porte na região.
Darío Pérez Chena, hoje com 87 anos, vive em Assunção com a esposa, Lucina. Ao recordar aqueles meses, ele fala menos de heroísmo do que de responsabilidade compartilhada. Os socorristas protegiam uns aos outros durante o dia, diz, e trabalharam com a convicção de estar fazendo algo positivo. Talvez seja uma leitura modesta para um episódio tão grande. É justamente por isso que funciona.
O nome Mymba Kuéra significa “os animais”, mas poderia significar também “aquilo que não coube na planta”. A água cobriu a floresta; não cobriu o registro de que havia vida ali, nem a obrigação de aprender com o que foi perdido. Em algum ponto das reservas atuais, uma cobra, um tatu ou um macaco descende daquela fuga organizada. E o lago, quieto na superfície, continua escondendo a pergunta que toda grande obra prefere deixar para depois.




