Entenda por que o El Niño de 2026 ficou tão forte

O El Niño atual já é apontado como o mais forte desde o início dos registros, embora ainda nem tenha chegado ao pico previsto. A explicação passa por dois mecanismos: uma enorme reserva de água quente acumulada no Pacífico e uma sequência de ventos que empurrou esse calor para o leste. O resultado é um oceano transferindo energia em escala planetária — e uma pergunta inevitável: por que justamente este evento saiu tanto da curva?

Como a La Niña preparou o terreno para o El Niño?

A La Niña acumulou água quente no Pacífico ocidental, criando a reserva de calor que alimentou o El Niño de 2026. Durante a La Niña, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo do equador, empurrando a água aquecida pelo Sol em direção à Austrália e à Indonésia. Esse movimento forma a chamada “piscina quente”, uma camada de oceano tão volumosa que eleva o nível do mar no oeste do Pacífico em até 20 centímetros.

Quanto maior fica essa piscina, mais instável ela se torna. Se os ventos alísios enfraquecem ou mudam de direção, a água acumulada começa a escorrer de volta para o centro e o leste do oceano. A superfície do Pacífico equatorial esquenta de maneira anormal, e nasce um El Niño. Sua força depende de três coisas bastante concretas: quanto calor foi guardado, quão quente está a reserva e quanto dela consegue atravessar o oceano rumo à costa da América do Sul.

O problema — ou a peculiaridade — é que o oceano vem aquecendo nas últimas décadas por causa do aquecimento global. A piscina quente esfria durante o El Niño e esquenta durante a La Niña, mas parte do ponto de partida já está mais elevada. Em dezembro de 2025, o conteúdo de calor no Pacífico ocidental estava bem acima do normal, embora não fosse o maior já observado.

Michael McPhaden, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, observou que esse dado, sozinho, não anunciava necessariamente um evento extraordinário. O El Niño de 2023–2024, por exemplo, começou com uma reserva ainda maior, acumulada depois de uma “tripla queda”: três anos consecutivos de La Niña, acompanhados por ventos alísios mais fortes que o normal. La Niñas costumam durar de nove a 12 meses. A anterior durou muito mais, e deixou um estoque respeitável de calor.

O que os ventos fizeram para intensificar o fenômeno?

Uma sequência de fortes rajadas de vento de oeste empurrou a água quente para o leste e acelerou o desenvolvimento do El Niño. Não se trata apenas de um vento soprando sobre a superfície, como quem passa a mão numa toalha molhada. Cada rajada desloca para baixo a camada de água quente e produz uma onda de Kelvin, que atravessa o Pacífico em cerca de seis a oito semanas.

Essas ondas aumentam progressivamente a espessura da camada aquecida no Pacífico oriental. O limite entre a água quente da superfície e a água fria das profundezas, chamado termoclina, desce. Em algumas áreas, ele estava mais de 80 metros abaixo do normal. O número é quase uma pequena coluna de edifício escondida sob o oceano. E muda tudo.

Quando a termoclina se aprofunda, fica mais difícil para a água fria subir até a superfície. O Pacífico oriental passa a exibir uma camada extensa de água quente, que libera quantidades enormes de calor para a atmosfera. É por isso que o El Niño não fica restrito ao mapa do oceano: a energia disponível altera chuvas, secas, temperaturas e tempestades em regiões muito distantes.

Uma das rajadas mais importantes ocorreu em abril, quando três ciclones tropicais se formaram aproximadamente ao mesmo tempo no Pacífico ocidental. Ciclones giram no sentido anti-horário ao norte do equador e no sentido horário ao sul. Perto da linha do equador, os ventos associados a esses sistemas acabam soprando para leste. A coincidência meteorológica forneceu um empurrão vigoroso à água quente.

Bob Henson, meteorologista e autor, havia chamado atenção para a possibilidade de que esses ciclones fortalecessem o El Niño ainda nascente. Quanto mais forte o impulso dos ventos de oeste, mais fácil fica para o fenômeno crescer. A atmosfera deu o tranco; o oceano, que já guardava calor, fez o restante.

O aquecimento global causou este El Niño recorde?

O papel direto do aquecimento global na força deste El Niño ainda não está estabelecido. Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, considera a relação uma questão em aberto, porque o número de El Niños e La Niñas observados na era moderna é pequeno demais para revelar uma tendência confiável.

Os cientistas tentam ampliar essa janela usando registros naturais, como corais. Um estudo recente com corais das ilhas Galápagos sugeriu que a mudança climática pode favorecer El Niños mais fortes, mas há lacunas importantes no registro. Sem uma sequência contínua e confiável de eventos anteriores à era dos instrumentos, qualquer conclusão definitiva fica manca.

Os modelos climáticos também não resolveram o impasse. As simulações estão praticamente divididas entre a possibilidade de os El Niños aumentarem ou diminuírem de intensidade à medida que o planeta esquenta por causa das emissões humanas. É um daqueles casos em que a computação produz muitas casas decimais e pouca unanimidade — não por falha da ciência, mas porque o sistema climático é uma engrenagem com peças demais.

Existe, porém, uma distinção importante. Ainda que o aquecimento global não explique sozinho a intensidade deste episódio, ele amplia os danos provocados por um El Niño. Oceanos mais quentes favorecem maior evaporação; mais vapor na atmosfera pode alimentar chuvas intensas e inundações. Continentes mais quentes enfrentam secas severas, e a vegetação ressecada oferece combustível para incêndios maiores.

O que este super El Niño pode provocar no planeta?

O El Niño de 2026 deve provocar um aumento expressivo da temperatura média global porque o oceano está liberando calor extraordinário para a atmosfera. O fenômeno funciona como um interruptor irregular: não inventa todos os extremos do clima, mas reorganiza a distribuição de calor e umidade em grande escala.

As consequências podem incluir continentes mais quentes, chuvas torrenciais, enchentes, secas extensas e incêndios florestais mais destrutivos. A intensidade em cada região dependerá dos padrões atmosféricos locais, mas a tendência geral é clara: um El Niño excepcional deixa menos margem para o clima permanecer comportado. O planeta não recebe um boletim único; recebe uma coleção de perturbações.

Também é preciso separar o que já se sabe do que ainda será investigado. A combinação entre a reserva de calor deixada pela La Niña, as rajadas de vento de oeste, as ondas de Kelvin e o aprofundamento da termoclina explica por que o evento ganhou tanta força. A parcela exata do aquecimento global nessa combinação continua em disputa.

O quadro, ainda assim, oferece uma prévia desconfortável do futuro descrito por Michael Mann: oceanos mais quentes, mais evaporação, inundações maiores, continentes mais quentes, secas piores e incêndios mais extensos. Talvez este El Niño seja uma aberração estatística. Talvez seja uma amostra antecipada de um clima que perdeu o antigo compasso. O oceano, por enquanto, continua empurrando sua água quente para leste.

Via

spot_img