Durante três anos, o fotógrafo Fernando Faciole acompanhou tamanduás-bandeira no Cerrado e no Pantanal para mostrar uma ameaça concreta: a expansão das rodovias e da agricultura está aumentando os atropelamentos e deixando filhotes órfãos. Entre 2017 e 2020, 766 tamanduás-bandeira foram encontrados mortos ao longo de estradas em Mato Grosso do Sul. O trabalho começou com biólogos e veterinários, mas mudou de rumo depois que um animal monitorado foi atropelado no dia seguinte. A câmera, então, deixou de registrar apenas a pesquisa e passou a encarar o acostamento, onde a paisagem produtiva brasileira cobra sua conta em silêncio.
Por que os tamanduás-bandeira estão morrendo nas rodovias?
Os tamanduás-bandeira estão morrendo nas rodovias porque a expansão agrícola destrói hábitats e amplia o tráfego necessário para transportar safras pelo Cerrado e Pantanal.
O número de 766 animais encontrados mortos entre 2017 e 2020 em Mato Grosso do Sul coincide com o avanço de lavouras e estradas abertas para conectá-las. O tamanduá-bandeira já não é um animal veloz; seus movimentos lentos, somados à dificuldade de enxergar, tornam a travessia especialmente perigosa. Quando uma fêmea morre, o filhote muitas vezes fica sozinho, sem a dieta especializada e os cuidados de que precisa. Mesmo em centros de reabilitação, a sobrevivência não é garantida. A estrada não é apenas uma faixa de asfalto: é a linha final de uma transformação territorial que começa muito antes, na conversão do hábitat.
Faciole concentrou parte das buscas na BR-262, em Mato Grosso do Sul, considerada uma das estradas mais fatais para a vida selvagem, incluindo tamanduás-bandeira e outros grandes mamíferos. A rodovia atravessa áreas do Cerrado e do Pantanal e se conecta a uma rede extensa de caminhos. Um plano federal de mitigação começou a ser implementado na região, abrindo espaço para medidas como cercas adequadas e passagens de fauna. A solução parece prosaica, quase sem o brilho de uma invenção tecnológica: fazer o animal atravessar por onde deve, e não por onde o carro passa. É justamente esse tipo de engenharia modesta que costuma salvar vidas.
Como o projeto de fotografia mudou depois de um atropelamento?
O projeto mudou quando Ty, um tamanduá monitorado e equipado com coleira, foi atropelado apenas um dia depois de ser acompanhado pela equipe.
Quando começou a matéria, em 2023, Faciole pretendia documentar biólogos e veterinários que monitoravam os animais, ajustavam coleiras de rastreamento e realizavam exames de saúde. Os especialistas também estabeleciam uma referência para o coração saudável de um tamanduá-bandeira, pesquisa que poderia melhorar a reabilitação de filhotes órfãos. Ty transformou esse plano. O animal, acompanhado pela equipe e aparentemente integrado ao trabalho científico, tornou-se a primeira vítima de atropelamento daquela história quase imediatamente. A partir dali, o fotógrafo passou a participar de buscas ativas nas rodovias e a visitar centros de reabilitação em diferentes regiões do Brasil.
Esses centros apresentavam o outro lado da tragédia. Filhotes como Cali eram alimentados com mamadeira, recebiam cuidados durante o dia e a noite, faziam exercícios e construíam lentamente a força necessária para uma possível volta à natureza. Depois de meses de atenção intensiva, vinha a etapa difícil da reintrodução: os animais precisavam romper vínculos com os cuidadores e não podiam manter contato humano. A imagem de Cali correndo atrás do cuidador logo após a mamadeira carregava uma mistura desconfortável de ternura, tristeza e esperança. O retrato não transformava a dependência em final feliz; mostrava o preço de uma ausência.
Quais dificuldades existem para fotografar um tamanduá-bandeira?
Fotografar um tamanduá-bandeira exige localizar um animal camuflado, trabalhar perto do anoitecer e controlar o próprio cheiro conforme muda o vento.
Os tamanduás-bandeira se camuflam bem e têm hábitos noturnos. É possível passar um dia inteiro procurando sem ver nenhum; quando o sol começa a cair, eles despertam e caminham, justamente quando a luz desaparece. O fotógrafo precisa agir depressa para aproveitar os minutos restantes. A visão limitada do animal não simplifica a tarefa, porque seu olfato é excelente. A equipe jogava areia no ar para verificar a direção do vento e evitar que o tamanduá sentisse sua presença. Há uma pequena ironia nisso: para fotografar um bicho que enxerga mal, é preciso tornar-se invisível ao nariz dele.
Faciole também precisou corrigir um problema de percepção. Muitas pessoas não entendem as proporções do corpo do tamanduá e chegam a compará-lo, em tom de brincadeira, a um “panda de duas cabeças”. Por isso, algumas imagens foram feitas de perto, destacando olhos, orelhas e a relação entre as partes do corpo. No campo, a operação era menos elegante: vento derrubando o difusor de luz, mosquitos cobrindo os fotógrafos e horas de espera por um movimento. A fotografia de conservação depende de equipamento, técnica e paciência, mas também de aceitar que o protagonista pode simplesmente não aparecer. A natureza não trabalha com pauta fechada.
Como é documentar animais mortos às margens da estrada?
Documentar atropelamentos exige decisões rápidas no acostamento, proteção contra o tráfego e força emocional para transformar sofrimento em informação pública.
A médica-veterinária Grazielle Soresini foi a principal parceira de Faciole nessa etapa. Os dois acordavam cedo para aproveitar a luz da manhã e percorriam longos trechos depois de noites em que muitas colisões aconteciam. Dormiam em lugares diferentes ao longo da rota, dirigiam com pouco descanso e mantinham pequenas bandeiras nas janelas para alertar motoristas de que o carro seguia devagar. Ao encontrar um animal, paravam, voltavam pelo acostamento e fotografavam com rapidez. O vento dos veículos que passavam derrubava o difusor; os mosquitos faziam o resto. Certa vez, retornaram pela estrada acreditando ter encontrado um papagaio atropelado. Era alface.
O episódio engraçado não anulava o peso do trabalho. Houve dias em que a equipe encontrou até três tamanduás-bandeira mortos, enquanto cientistas recolhiam amostras biológicas e removiam os cadáveres da pista. Faciole precisava mostrar o que acontecia sem transformar a morte em espetáculo. Uma fotografia de Grazielle segurando um tamanduá na beira da estrada condensou tristeza, impotência e empatia. Antes de apresentar soluções, ele queria que o público entendesse o problema no corpo, não apenas em uma estatística. A imagem funciona porque não oferece a distância confortável de um gráfico. O acostamento aparece como lugar de trabalho, luto e urgência.
Que soluções podem tornar as estradas mais seguras?
Passagens de fauna e cercas melhores podem direcionar os tamanduás para travessias seguras, reduzindo colisões e criando um modelo para outras rodovias brasileiras.
As medidas não eliminam o impacto da expansão agrícola, mas atacam um ponto decisivo: o encontro entre animais e veículos. Cercas bem planejadas impedem que os tamanduás acessem diretamente a pista, enquanto passagens de fauna oferecem rotas alternativas. O princípio é simples; a execução precisa considerar o comportamento da espécie, o relevo e a rede de estradas conectadas. Os tamanduás-bandeira se tornaram o rosto desse problema no Brasil porque tornam visível uma colisão que também ameaça outros mamíferos. Uma rodovia mais segura para a fauna tende a exigir atenção, sinalização e desenho melhores para todos que a utilizam. A infraestrutura pode ser uma arma ou uma ponte, dependendo do projeto.
O percurso de Faciole, entre o acompanhamento científico, os atropelamentos e os centros de reabilitação, termina sem a facilidade de uma redenção completa. Ele encontrou dor, mas também pesquisadores persistentes e possibilidades concretas de mudança. A fotografia cumpre seu papel quando faz o público reconhecer um animal pouco conhecido e compreender sua importância ecológica. No Brasil e em outros países da América Latina, muita gente ainda sabe pouco sobre o tamanduá-bandeira. Conhecê-lo é o primeiro movimento; cobrar estradas planejadas para dividir o território com a vida selvagem é o seguinte. A esperança, aqui, não é uma paisagem cor-de-rosa. Tem cerca, passagem de fauna e trabalho de campo.



