O Sol e a Lua podem ajudar a disparar terremotos lentos, mas não porque estejam puxando a crosta como quem puxa uma marionete. A influência é mais discreta: as marés gravitacionais deformam não apenas os oceanos, mas também o solo e as rochas. Em certas falhas geológicas, esse pequeno estresse pode coincidir com o momento certo e ampliar um deslizamento que já estava prestes a acontecer. Um novo modelo sugere que o mecanismo envolve ressonância, como empurrar um balanço no ritmo exato. A força é modesta. O relógio geológico, nem tanto.
O fenômeno estudado é o terremoto lento, uma ruptura que libera energia ao longo de horas, dias ou até períodos mais extensos, em vez de produzir o tranco súbito de um terremoto comum. Para quem está na superfície, quase sempre passa despercebido. Instrumentos sísmicos, porém, registram esses eventos em zonas de subducção, nas quais uma placa tectônica mergulha sob outra. O ponto importante é este: a maré não cria necessariamente a tensão principal da falha. Ela pode funcionar como o último toque em uma porta que já estava mal encostada.
Como o Sol e a Lua interferem nas falhas geológicas?
O Sol e a Lua interferem nas falhas ao gerar pequenas variações periódicas de estresse na crosta terrestre, capazes de acelerar ou modificar o deslizamento em determinadas condições. A Lua é a principal responsável pelas marés oceânicas, mas o Sol também participa do ciclo. A mesma gravidade que movimenta a água produz deformações nas rochas sólidas — as chamadas marés terrestres. Não são alterações cinematográficas, com o chão subindo diante da janela. Os pesquisadores descrevem tensões tipicamente da ordem de alguns quilopascals, comparáveis à pressão de uma mão pressionando suavemente uma superfície.
O modelo analisou uma pequena região de uma falha usando um sistema conhecido como modelo mola-bloco, combinado com uma formulação de atrito dependente da taxa e do estado. Em linguagem menos sisuda, imagine um bloco preso a uma mola, deslizando sobre uma superfície cuja resistência muda conforme a velocidade e a forma como as duas partes se encostam. A simplificação é deliberada. Em vez de tentar reproduzir uma falha inteira, o cálculo observa um único trecho e pergunta quando um empurrão periódico consegue alterar seu comportamento.
O resultado depende do tipo de falha. Algumas permanecem deslizando de maneira estável, mas podem sair facilmente dessa zona de conforto quando recebem uma perturbação. Se a velocidade aumenta, o atrito na interface pode diminuir, o que favorece um deslizamento ainda maior. Esse processo pode produzir tanto eventos lentos quanto episódios de deslizamento rápido no modelo. A palavra decisiva aqui é “pode”. Uma maré não envia uma convocação universal para todas as falhas do planeta; cada uma tem sua própria resistência, geometria e história de tensão.
O que a ressonância tem a ver com terremotos lentos?
A ressonância ocorre quando a duração da perturbação se aproxima do tempo natural de resposta da falha, fazendo uma força pequena produzir um efeito maior. É o mesmo princípio de empurrar um balanço no compasso certo: o empurrão individual é banal, mas a sequência acumula movimento. Nas falhas, esse tempo de resposta está relacionado a mudanças no atrito e na velocidade de contato entre as superfícies. Se a amplitude da força for baixa, a falha pode continuar deslizando em silêncio. Se a amplitude ultrapassar determinado limiar e o período estiver na faixa adequada, o deslizamento pode se transformar em atividade sísmica.
Essa combinação ajuda a explicar por que os terremotos lentos não aparecem sempre no instante em que a maré atinge seu máximo. Em alguns casos, o gatilho parece estar associado ao pico da força; em outros, ao momento em que essa força cresce mais rapidamente. Também há situações sem um padrão temporal simples, com atividade mais caótica. O modelo sugere que as três possibilidades precisam ser consideradas, porque o resultado depende da fase do ciclo das marés e das propriedades da falha. A Terra não trabalha com um único botão de ligar.
As simulações reproduziram padrões compatíveis com observações no sudoeste do Japão e em Cascadia, região do noroeste do Pacífico. Nesses locais, os tremores associados às marés costumam apresentar picos em intervalos próximos de 12 e 24 horas. Isso não significa que cada pico provoque um terremoto identificável, nem que seja possível prever uma ruptura destrutiva olhando apenas para a tábua de marés. Significa algo mais sóbrio e mais interessante: o ciclo gravitacional pode deixar uma assinatura nos momentos em que certas falhas liberam energia.
Esse mecanismo pode melhorar a previsão de grandes terremotos?
O modelo pode ajudar a interpretar terremotos lentos e, no futuro, oferecer informações sobre as propriedades das falhas, mas não constitui um método pronto para prever grandes terremotos. Como a atividade das marés é conhecida com bastante precisão, sismólogos podem comparar seus ciclos com os registros de eventos lentos. A partir dessa correspondência, seria possível estimar características como a resistência ao atrito e a distância que um trecho precisa deslizar antes de enfraquecer. É uma espécie de engenharia reversa geológica: observar o movimento e inferir a engrenagem escondida.
Há uma limitação importante. O estudo modela uma única região da zona de falha, isolada do restante do sistema. Por isso, a abordagem parece mais adequada para eventos locais e repetitivos de baixa frequência, conhecidos pela sigla LFE, do que para tremores extensos, que envolvem vários segmentos ao mesmo tempo. Uma falha real não é uma linha desenhada no quadro. Ela tem irregularidades, ramificações, fluidos, diferentes materiais e muitos trechos interagindo. O modelo é uma lente, não o território — não, o contrário: uma lente boa justamente porque deixa algumas coisas de fora.
Essa distinção importa quando se fala em terremotos megarruptivos, os mais poderosos conhecidos. Grandes rupturas em zonas de subducção podem gerar tsunamis devastadores e alterar a distribuição de tensão em áreas enormes. Os terremotos lentos registrados ao redor do Anel de Fogo do Pacífico podem fornecer pistas sobre como a tensão se acumula e é liberada nas interfaces entre placas. Talvez essas pistas ajudem a avaliar o potencial e a extensão de futuras rupturas. Mas talvez também revelem apenas como é difícil transformar um padrão estatístico em um aviso confiável para uma cidade.
A pesquisa foi publicada no periódico JGR Solid Earth sob o DOI 10.1029/2026JB033983. Sua contribuição principal não está em anunciar que a Lua “causa” terremotos, formulação ampla demais para sobreviver a uma leitura cuidadosa. Está em mostrar como pequenas forças, aplicadas no intervalo certo, podem alterar o comportamento de uma falha que já se encontra em equilíbrio precário. O Sol e a Lua fornecem o compasso; a falha decide se dança. E, no subsolo, até um empurrão de mão pode encontrar o segundo exato.


