Enviar uma mensagem ao próprio passado é permitido por uma tecnologia conhecida como antitelefone taquiônico, que vive apenas dentro de um experimento mental, não na física comprovada. A ideia depende dos táquions, partículas hipotéticas que viajariam mais rápido que a luz e jamais foram observadas. Ainda assim, o conceito continua útil: ele expõe as rachaduras conceituais que surgem quando alguém tenta tratar tempo, causalidade e comunicação como peças intercambiáveis.
Como o antitelefone taquiônico enviaria uma mensagem ao passado?
O antitelefone taquiônico poderia enviar mensagens ao passado porque partículas superluminais inverteriam a ordem temporal entre determinados observadores em movimento relativo. A proposta remonta a um experimento mental apresentado por Albert Einstein em 1907, embora a relatividade especial proíba acelerar partículas comuns até ultrapassarem a velocidade da luz. A conta não fecha por falta de tecnologia; fecha porque a própria hipótese empurra a teoria para um território paradoxal.
Na relatividade especial, elétrons e outras partículas que começam abaixo da velocidade da luz exigiriam energia infinita para alcançá-la. Robert Ehrlich, professor emérito de física da George Mason University e pesquisador de táquions, destaca que Einstein não teria estipulado partículas que sempre fossem mais rápidas que a luz. Essa é a fresta matemática: não uma porta aberta no laboratório, mas uma hipótese que permite perguntar o que aconteceria se tais partículas existissem.
Neutrinos podem provar que existem partículas mais rápidas que a luz?
Não, Neutrinos não provaram a existência de partículas mais rápidas que a luz, e as evidências disponíveis continuam insuficientes para sustentar essa conclusão. Essas partículas eletricamente neutras são produzidas por estrelas, têm massa difícil de restringir e aparecem em discussões sobre possíveis velocidades superluminais. Em 2011, um resultado experimental muito divulgado sugeriu uma anomalia desse tipo, mas foi posteriormente desacreditado.
Ehrlich tenta explorar outra pista usando a supernova SN 1987A, que explodiu a aproximadamente 168 mil anos-luz da Terra, na Grande Nuvem de Magalhães. Três detectores registraram neutrinos nos segundos posteriores ao evento; um quarto, instalado sob o Mont Blanc, registrou cinco neutrinos cerca de cinco horas antes. O dado é intrigante, mas a maioria dos físicos considera que o sinal não tinha relação com a supernova. Outras explicações incluem uma emissão em duas etapas, e não uma viagem para trás no tempo.
Por que uma mensagem ao passado cria um paradoxo?
Uma mensagem ao passado cria um paradoxo porque pode alterar a decisão que tornou possível enviar a própria mensagem. O exemplo clássico é o chamado paradoxo do avô: alguém volta no tempo, mata um ancestral e elimina a própria origem, logo não chegou a nascer e não poderia ter voltado. O antitelefone não precisa transportar uma pessoa para produzir o mesmo problema; basta permitir uma informação capaz de cancelar sua própria transmissão.
Barak Shoshany, professor associado de física da Brock University, estuda desde 2019 modelos de viagem temporal e comunicação superluminal como experimentos mentais. Em um exemplo discutido em uma série de aulas publicada no SciPost Physics Lecture Notes em 2019, uma pessoa recebe em 2026 uma mensagem enviada de 2027. Ela decide que só enviará a mensagem em 2027 se não a tiver recebido. O resultado é uma ordem lógica impossível: a mensagem é enviada se, e somente se, não for enviada.
Por que a física atual não permite construir esse dispositivo?
A física atual não permite construir o dispositivo porque táquions nunca foram observados e entram em conflito com a teoria quântica de campos. Shoshany afirma que essa teoria, uma das bases da física moderna, foi confirmada experimentalmente com precisão extremamente alta. Aceitar táquions exigiria reescrever ou modificar substancialmente esse arcabouço, e não existe evidência positiva que justifique fazê-lo.
Isso não torna a ideia inútil. Experimentos mentais servem como ferramentas de estresse: colocam uma teoria diante de uma situação extrema e observam onde aparecem contradições. Novas medições de neutrinos, inclusive as conduzidas pelo experimento KATRIN, na Alemanha, podem ajudar a restringir suas massas, mas não transformam automaticamente neutrinos em mensageiros temporais. Outra supernova próxima seria valiosa para comparar os resultados, embora explosões desse tipo ocorram, em média, apenas duas vezes por século nas proximidades cósmicas. Não é exatamente um cronograma confiável.
O que o antitelefone taquiônico ensina sobre o universo?
O antitelefone taquiônico ensina que comunicação, velocidade e causalidade estão amarradas na relatividade, e não podem ser separadas sem consequências. A ficção científica costuma tratar o passado como um arquivo editável; a física trata essa edição como uma colisão entre eventos que precisam permanecer coerentes. A diferença parece pequena na tela, mas é enorme nas equações.
Por enquanto, não há telefone para ligar para 2016, nem mensagem capaz de avisar ao passado que o futuro deu errado. Há uma hipótese sem partícula observada, um conjunto de cálculos e perguntas legítimas sobre os limites das teorias existentes. É pouco para construir um aparelho, mas suficiente para testar a arquitetura conceitual do universo. A máquina continua inexistente. O paradoxo, esse, está funcionando muito bem.


