A Starship alcançou a órbita pela primeira vez e lançou satélites Starlink operacionais durante o 14º voo de teste, em 28 de setembro de 2026. O feito aproxima a SpaceX de uma mudança de geração, mas também ameaça retirar de cena dois veículos ainda indispensáveis: o foguete Falcon 9 e a cápsula Dragon. A troca parece lógica na planilha. No espaço, porém, planilhas costumam ter parafusos soltos.
Por que a Starship pode mudar o mercado de lançamentos?
A Starship pode mudar o mercado porque foi concebida para transportar muito mais carga e executar missões de alcance maior que o conjunto Falcon 9 e Dragon. O voo orbital com satélites Starlink não encerra o desenvolvimento, mas mostra que o megar foguete começa a sair do laboratório e entrar na operação. É o tipo de passagem que costuma produzir discursos sobre uma nova era. Também produz contratos, filas e ansiedade.
A SpaceX pretende usar a Starship para lançar versões mais avançadas dos satélites Starlink, apoiar centros de dados em órbita e transportar astronautas em missões lunares da NASA. O veículo é ainda a peça central do plano de Elon Musk para estabelecer uma colônia autossustentável em Marte. Gwynne Shotwell, presidente da empresa, resumiu a diferença com uma imagem bastante boa: um Falcon 9 com Dragon seria uma minivan; para uma viagem de seis meses até Marte, ninguém quer uma minivan.
O problema é que a Starship ainda custa milhões de dólares em desenvolvimento e não substitui automaticamente tudo o que seus antecessores fazem. Ela é um colosso de 171 pés de altura, projetado para levar pessoas ao espaço profundo. A Dragon tem 13 pés de largura e transporta cerca de quatro astronautas para a órbita baixa, onde está a Estação Espacial Internacional. Parecem parentes apenas no organograma.
O que acontece com Falcon 9 e Dragon?
A SpaceX planeja retirar gradualmente o Falcon 9 e a Dragon enquanto concentra recursos na Starship. Isaacman afirmou que a empresa pretende aposentar plataformas antigas, e Shotwell já indicou que a Dragon pode deixar de operar durante a década de 2030. A companhia não está abandonando máquinas fracassadas; está encerrando programas extremamente bem-sucedidos antes que outra tecnologia os torne obsoletos.
O Falcon 9 foi lançado 77 vezes nos seis primeiros meses de 2026, segundo documentos regulatórios citados na reportagem. O número é mais que o dobro dos lançamentos realizados no mesmo período pela família chinesa Long March, a segunda mais movimentada do planeta. A maioria dessas missões levou satélites Starlink, mas 17 atenderam clientes, entre empresas, instituições de pesquisa e o governo dos Estados Unidos.
Essa frequência é o principal valor do Falcon 9. O foguete oferece missões compartilhadas, conhecidas como Transporter, nas quais vários operadores compram espaço no mesmo voo. Uma startup pode, assim, colocar um pequeno satélite em órbita sem financiar sozinha um foguete inteiro. Retirar essa porta de entrada não significa apenas trocar de fornecedor. Significa talvez adiar a própria empresa.
Por que a aposentadoria pode provocar uma crise?
A aposentadoria dos dois veículos pode agravar uma escassez de lançamentos que já vinha se formando. Caleb Henry, diretor de pesquisa da Quilty Space, afirmou que operadores menores enfrentam essa crise há pelo menos seis meses e precisam demonstrar rapidamente aos investidores que têm um caminho viável até a órbita. O gargalo pode encarecer missões, atrasar produtos e empurrar projetos inteiros para uma gaveta sem data.
A demanda por lançamentos cresceu mais rápido que a oferta disponível. A invasão russa à Ucrânia, em 2022, retirou do mercado comercial os foguetes Soyuz e Proton. Depois, a Amazon comprou mais de 100 lançamentos de diferentes fabricantes para sua constelação de internet espacial, concorrente da Starlink. Uma empresa aspirou uma quantidade enorme de capacidade. Sobrou menos oxigênio para os demais.
O preço também não está obedecendo à velha narrativa de que foguetes reutilizáveis automaticamente tornam tudo barato. Uma fonte familiarizada com negociações do setor disse que o custo interno da SpaceX caiu, mas o preço de mercado dos lançamentos subiu na última década. Hoje, uma carona até a órbita custa aproximadamente de US$ 7.500 a US$ 10 mil por quilograma, embora Robert Sproles, da Exolaunch, considere essa estimativa possivelmente baixa conforme o cálculo adotado.
Quais empresas podem ocupar o espaço deixado?
Outras empresas podem reduzir o impacto, mas ainda não oferecem a mesma escala e regularidade do Falcon 9. Rocket Lab, Firefly Aerospace, Blue Origin e United Launch Alliance atuam nos Estados Unidos, enquanto Firefly, Relativity e Stoke Space desenvolvem novos foguetes. O ponto incômodo é simples: vários desses veículos ainda não voam regularmente, e alguns sequer têm uma data segura para começar.
Os lançamentos inaugurais costumam cobrar pedágio em explosões, atrasos e investigações. O New Glenn, da Blue Origin, explodiu recentemente na plataforma, enquanto os foguetes Vulcan Centaur, da United Launch Alliance, ficaram temporariamente impedidos de voar por problemas de desempenho. “Se os dois programas estivessem indo bem, a indústria estaria mais tranquila”, disse Micah Walter-Range. Não estão.
Empresas acostumadas ao setor já procuram alternativas. A finlandesa Iceye, que lançou satélites de radar mais de uma dúzia de vezes com o Falcon 9, assinou um acordo preliminar com a francesa Arianespace para avaliar contratos futuros. A Spire, dona de uma constelação com mais de 100 pequenos satélites, mantém lançamentos programados até pelo menos 2028. Experiência ajuda. Não fabrica foguetes, mas compra tempo.
O que a mudança significa para astronautas e estações espaciais?
A transição é mais delicada para voos tripulados porque a Dragon ainda é a única nave fabricada nos Estados Unidos capaz de levar astronautas de e para a Estação Espacial Internacional. A ISS deve ser aposentada a partir de 2030, mas a NASA quer trabalhar com empresas privadas para criar novas estações comerciais em órbita baixa. Esses laboratórios precisarão de cápsulas, tripulações e, de preferência, uma segunda opção.
A alternativa norte-americana seria a Starliner, da Boeing, desenvolvida no mesmo programa da Crew Dragon. O primeiro teste tripulado da nave teve falhas e deixou os astronautas Suni Williams e Butch Wilmore trabalhando no espaço por meses além do previsto. A NASA classificou o episódio como um acidente de Tipo A, categoria associada a desastres de ônibus espaciais que mataram astronautas. Um novo voo tripulado só poderia ocorrer, no cenário mais otimista, em meados de 2028, depois de um teste não tripulado em dezembro.
A SpaceX recebeu US$ 5,92 bilhões em contratos da NASA para 17 voos, enquanto a Boeing recebeu US$ 4,82 bilhões e uma encomenda obrigatória de quatro missões. A agência ainda destinou dinheiro adicional à Boeing para corrigir a Starliner. Shotwell brincou que a SpaceX deixaria algum negócio para a concorrente. A piada tem graça porque a dependência é real: ao aposentar a Dragon, a empresa também aumenta a importância de uma nave que ainda tenta recuperar a confiança.
A Starship será uma solução ou um novo ponto de dependência?
A Starship será uma solução apenas se alcançar regularidade, confiabilidade e capacidade operacional suficientes para substituir o Falcon 9 e assumir funções que hoje pertencem à Dragon. Um voo orbital bem-sucedido é um marco importante, não uma autorização para esquecer os testes restantes. No espaço, chegar uma vez prova que é possível chegar uma vez.
Para a SpaceX, a aposta faz sentido financeiro e estratégico. O segmento espacial, que reúne Falcon, Dragon e Starship, registrou prejuízo de US$ 542 milhões no primeiro trimestre de resultados citado. Já o negócio de internet e conectividade da Starlink alcançou quase US$ 1,7 bilhão. Transferir recursos para o veículo que sustenta os planos de longo prazo pode parecer inevitável, mesmo que o foguete ainda consuma uma soma difícil de medir.
Para o restante do setor, a conta chega em outra moeda: espera. Sproles lembrou que, dez anos atrás, era normal reservar um lançamento com dois ou três anos de antecedência e aceitar atrasos de 18 meses. Esse passado pode voltar, embora agora exista mais demanda, mais satélites e menos tolerância para ficar parado. A Starship pode inaugurar uma nova era. Antes disso, terá de atravessar uma fila formada pelos destroços da era anterior.




