O duas-peças que chocou o Rio: a história de Miriam Etz e seu maiô de crochê em 1936

Quem passa hoje pela Rua Joaquim Nabuco, na divisa entre Copacabana e Ipanema, vê prédios, trânsito, o burburinho de uma Zona Sul que já foi muito outra coisa. Difícil imaginar que, há 90 anos, naquele mesmo endereço, uma alemã de 22 anos tirou da mala um maiô de duas peças feito por ela mesma, calçou as sandálias, andou cinco minutos até o Arpoador e, sem pedir licença, escreveu seu nome na história. Não era exatamente um biquíni como conhecemos — a peça ainda escondia o umbigo —, mas era suficiente para escandalizar a sociedade carioca de 1936.

Miriam Etz não veio ao mundo para ser pioneira. Nasceu em 1914 em Kaiserswerth, um distrito de Düsseldorf, filha de Arthur, pintor, e Lisbeth, professora. A casa dos pais vivia aberta aos amigos — e que amigos. Uma vez por semana, das cinco da tarde às duas da manhã, canecas de cerveja circulavam entre figuras como Albert Einstein, Sigmund Freud, Thomas Mann e Fritz Lang. Miriam cresceu vendo o pai pintar retratos de gênios enquanto ouvia discussões sobre física, psicanálise e cinema. Esse era o normal dela. O choque viria depois, nos trópicos.

Em 1933, com Hitler no poder, o normal deixou de existir. As famílias de Miriam e de Hans Etz, seu namorado desde os 15 anos, ambas judias de Düsseldorf, fugiram da Alemanha. A rota foi Holanda, depois Inglaterra — onde se casaram. Hans, para escapar do alistamento na Juventude Hitlerista, atravessou a fronteira de bicicleta. Detalhe que parece cena de filme de espionagem, mas era vida real de quem precisava sumir do mapa antes que o mapa sumisse com eles.

Dois destinos se apresentaram: África do Sul ou Brasil. Escolheram o Rio de Janeiro. Desembarcaram em 1936 e alugaram uma casa na Joaquim Nabuco, 192 — jardim na frente, quintal com árvore nos fundos, e ao lado a família Kostenbader, avós dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Na época, alugar em Ipanema custava um terço do aluguel de Copacabana. Bairro de primeiros moradores, de areia ainda meio selvagem, de praia que começava a ser descoberta.

Aqui Miriam Etz é intepretada por Hanna Svarts, em um curta-metragem

Foi nesse cenário que Miriam abriu a mala. De dentro, tirou um maiô de duas peças de lã azul-marinho, com cinto na calcinha, que ela mesma confeccionara a crochê. A mãe dela sempre dizia que tomar sol no umbigo fazia bem à saúde — crença caseira que virou ato de coragem. Miriam foi à praia, grávida de quatro meses, vestindo aquilo. A sociedade carioca, que até então só conhecia maiôs de uma peça inteira, não sabia bem como reagir. Olhavam, cochichavam, mas ela continuava ali, jogando frescobol, pegando sol, existindo.

O registro do feito aparece em três livros: Ela É Carioca (Companhia das Letras, 1999), de Ruy Castro; Um Mergulho no Rio — 100 Anos de Moda e Comportamento na Praia Carioca (Casa da Palavra, 2012), de Márcia Disitzer; e O Biquíni Made in Brazil (Arte Ensaio, 2016), de Lilian Pacce. Ruy Castro incluiu Miriam como um dos 237 verbetes de sua “enciclopédia ipanemense” — calhamaço de 560 páginas que respira história e gossip de bairro com a mesma desenvoltura.

Márcia Disitzer, que transformou seu livro em série documental para a EBC em 2026, faz questão de ponderar: a intenção de Miriam não era escandalizar. “Ela apenas seguia o que a mãe dizia: tomar sol no umbigo fazia bem.” Não havia militância ali, havia naturalidade. Uma mulher que cresceu vendo Einstein no sofá de casa não ia se impressionar com o espanto alheio por causa de um pedaço de pano a menos.

Lilian Pacce foi a única dos três autores que conseguiu entrevistar Miriam pessoalmente. No livro, registrou a explicação prática da pioneira: a lã era quente e desconfortável para o calor carioca, então ela logo comprou outros tecidos, como algodão, e fazia costuras laterais de crochê para dar elasticidade. “O maiô inteiro no Brasil era muito caro. Resolvi fazer o meu duas-peças”, contou Miriam. Pragmatismo de quem veio de uma família onde se costurava em casa, onde criatividade era recurso, não luxo.

A diferença entre o duas-peças de Miriam e o biquíni que viria depois é sutil mas decisiva: o biquíni revela o umbigo, símbolo da maternidade, explica Lilian. Até o começo do século 20, as pessoas tomavam banho de mar para fins terapêuticos, vestidas com trajes que mais pareciam uniformes de banho. A praia foi se transformando em espaço de lazer, entretenimento familiar, prática esportiva. O maiô de perninha abriu caminho para o maiô inteiro, que cedeu espaço ao duas-peças, que preparou o terreno para o biquíni lançado em 1946 — mas que só pegou mesmo a partir dos anos 1950.

Miriam e Hans Etz no navio a caminho do Rio de Janeiro

Miriam e Hans tiveram dois filhos: Iracema, nascida em 1º de janeiro de 1937 — cinco meses depois daquela primeira ida ao Arpoador — e Roberto, em 1941. O nome Iracema foi escolhido a dedo: queriam algo brasileiro, fugir de Gertrudes e Berthas. Cogitaram Moema, Guaracy, Jussara. Os amigos alemães estranharam, acharam que era doença, tipo eczema. Na escola, vieram os apelidos: Iraceminha, Irinha. A própria Ira revela: “Minha mãe me disse que meu nome poderia ser tanto uma homenagem aos índios brasileiros quanto à América. Iracema é um anagrama de América.” Detalhe que José de Alencar, o criador da personagem, certamente aprovaria.

Ira, hoje com 89 anos, guarda memórias vivas da mãe sentada à máquina de costura. “Ela costurava muito bem. Minhas amigas do colégio eram ricas, tinham costureiras que iam até a casa delas tirar medidas. Lá em casa, a gente comprava tecido e minha mãe fazia tudo. Acho que herdei essa criatividade dela.” Foi Ira quem, aos 80 anos, publicou o livro Ira do Arpoador (ID Cultural, 2016), em parceria com Luiz Felipe Carneiro, para registrar a história da família no aniversário de 80 anos do feito da mãe.

A história de Miriam também ganhou as telas. A atriz Isabelle Drummond, depois de ler Ela É Carioca, decidiu adaptar algumas minibiografias do livro em curtas-metragens. Num deles, Miriam e Hans são interpretados por Hanna Svarts e Antônio Benício. As filmagens ocorreram no verão de 2025, no próprio Arpoador, com o Morro Dois Irmãos ao fundo — o mesmo cenário que a alemã via da areia 90 anos antes. Ainda sem previsão de lançamento, o filme promete devolver à história a imagem que ela merece.

Miriam com os filhos, na praia do Arpoador

Hans trabalhou como publicitário — primeiro na J. Walter Thompson, depois abriu o Estúdio Etz, na esquina das ruas México com Araújo Porto Alegre. Miriam, por sua vez, foi alta executiva da Avon e, mais tarde, artista plástica. Expunha telas em mostras individuais e coletivas. Foi uma das primeiras mulheres a dirigir um jipe na região de Nova Friburgo, para onde o casal se mudou nos anos 1960, trocando o litoral pela serra. Hans morreu em 1986, aos 73 anos. Miriam, em 2010, aos 96. Deixaram dois filhos, seis netos e doze bisnetos.

No dia 3 de maio de 1992, Miriam inspirou uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna no jornal O Globo, intitulada Pequenos Rituais: “Miriam Etz, sempre à tardinha, se assenta numa mesma poltrona em sua sala rodeada de quadros e livros e prepara-se para o ritual: beber sua cerveja e ler o Time.” A cena poderia ser a de qualquer idosa tranquila, mas não era. Era a mesma mulher que, aos 22, desafiou o Rio usando um duas-peças de crochê, grávida, sem pedir licença, sem fazer alarde. Apenas vivendo com a naturalidade de quem já tinha visto Einstein no sofá de casa.

Hoje, a casa da Joaquim Nabuco não existe mais. Em alguma década do passado, cedeu lugar a edifícios. Mas a história de Miriam Etz continua viva nos livros, no curta-metragem ainda inédito, na memória dos netos e bisnetos, e no vento que sopra no Arpoador — o mesmo vento que, em 1936, pegou a barra daquele duas-peças de lã e, sem saber, ajudou a mudar a história da moda e do comportamento no Brasil.

Via

spot_img