A chamada “geração sóbria” está reduzindo o consumo de álcool, mas parte dos jovens tenta substituí-lo por medicamentos usados sem supervisão médica. O problema não é apenas trocar uma substância por outra: é transformar comprimidos em autorização química para existir em público.
O caso de Matt, um inglês de 22 anos identificado por nome fictício, resume a contradição. Ele bebia até passar mal para conseguir conversar e, há dois anos, passou a combinar pregabalina, comprada ilegalmente online, e propranolol antes de sair. Diz que ficou mais calmo e eufórico. Também diz que, sem as drogas, nem tentaria participar de muitas situações sociais.
Por que jovens estão trocando álcool por medicamentos?
Jovens estão recorrendo a medicamentos porque buscam aliviar a ansiedade social com menos ressaca, calorias e custos do que o álcool, segundo especialistas ouvidos pela BBC. A promessa parece racional até a química apresentar a conta.
Matt afirma gastar apenas 18 centavos de libra, cerca de R$ 1,20, para se medicar durante uma noite. O propranolol reduz manifestações físicas da ansiedade, como coração acelerado e tremores; a pregabalina é usada no tratamento de epilepsia, dor neuropática e ansiedade. Em doses elevadas, porém, também pode provocar relaxamento e euforia semelhantes à embriaguez.
Liam Knowles, pesquisador de dependência química da Universidade de Teesside, diz que muitos usuários acreditam estar fazendo uma escolha saudável porque o produto foi prescrito para alguma finalidade médica. A embalagem de comprimido parece mais civilizada que uma garrafa. Isso não significa que o conteúdo tenha assinado um tratado de paz com o corpo.
A pesquisa da organização Drinkaware, realizada em 2025, apontou que 26% dos britânicos entre 18 e 24 anos não consumiam álcool, contra 7% em 2012. A mudança alimentou o apelido “geração sóbria”, mas não eliminou a procura por substâncias capazes de facilitar a sociabilidade.
Qual é o papel da ansiedade social nesse consumo?
A ansiedade social transforma encontros comuns em ameaças percebidas e faz algumas pessoas acreditarem que só conseguem conversar depois de alterar o próprio estado mental.
Um estudo da University College London, publicado em 2025, indicou que 28% das pessoas pouco acima dos 20 anos na Inglaterra relatavam níveis altos de ansiedade. A pesquisa também encontrou maior frequência de doenças mentais graves entre integrantes da Geração Z do que entre millennials na mesma faixa etária.
Emily Jones, psicóloga do King’s College London, relaciona parte desse quadro ao isolamento provocado pela pandemia de covid-19. Segundo ela, a redução prolongada das interações ensinou muitas pessoas a temer situações sociais. O comprimido, então, entra como uma espécie de prótese de confiança: sustenta a conversa, mas não fortalece necessariamente a perna.
Para Matt, a terapia não resolveu sua ansiedade social. O uso dos medicamentos, iniciado em festas, espalhou-se para encontros românticos e reuniões familiares. Mei, estudante chinesa de 20 anos, também identificada por nome fictício, começou usando substâncias em festas e depois passou a tomá-las antes de provas, discursos e debates.
Esse alargamento do uso é precisamente o que preocupa Jones. Quando a pessoa atribui todo desempenho social ao medicamento, pode concluir que sua capacidade própria desapareceu. O alívio imediato reforça a fuga: a festa termina bem, mas a mente registra que o comprimido foi o responsável.
Pregabalina e propranolol oferecem uma alternativa segura?
Pregabalina e propranolol não formam uma alternativa segura ao álcool quando usados sem prescrição, em doses elevadas ou adquiridos de fontes não regulamentadas.
O psicofarmacologista David Nutt, do Imperial College London, afirma que propranolol e pregabalina são, sem dúvida, menos perigosos que o consumo excessivo de álcool em alguns aspectos. A comparação, entretanto, muda quando a pregabalina é tomada para produzir embriaguez. Nesse cenário, surgem risco de dependência, aumento da ansiedade, insônia e pensamentos suicidas na interrupção.
O propranolol também exige cuidado. Quando usado inadequadamente ou em grandes quantidades, pode causar tontura, desmaio e queda perigosa da frequência cardíaca. Já a pregabalina, mesmo sendo amplamente prescrita, tornou-se foco de abuso em vários países.
Um estudo publicado na revista Nature Communications estimou que o consumo global de pregabalina mais que quadruplicou entre 2008 e 2018. Na Inglaterra e no País de Gales, dados do Office for National Statistics registraram menção à substância em 2.360 certidões de óbito por envenenamento relacionado a medicamentos entre 2020 e 2024, contra 768 entre 2015 e 2019.
Alex Cottam, engenheiro de software de 27 anos, tinha prescrição para tratar ansiedade, mas, segundo sua mãe, passou a ampliar o estoque em sites ilegais. Na Inglaterra, a pregabalina foi classificada como droga controlada de Classe C em 2019. A regra não apagou a procura; apenas acrescentou uma camada policial a um problema que também é clínico.
Como as redes sociais ampliam o mercado de “coquetéis”?
As redes sociais ampliam o consumo ao normalizar combinações de medicamentos, ensinar o chamado “stacking” e conectar compradores a vendedores de produtos sem controle de qualidade.
Hashtags sobre essas substâncias acumulam milhares de vídeos, muitas vezes apresentados por influenciadores como alternativas limpas ao álcool. A mensagem costuma misturar linguagem de academia, economia doméstica e farmacologia de almanaque: menos calorias, menos ressaca, preço menor. O que falta é o detalhe menos fotogênico, a dose real e a procedência verificável.
A investigação citada encontrou influenciadores vendendo alguns medicamentos em sites vinculados às próprias redes. Mei afirma ter comprado remédios em uma plataforma social chinesa, onde viu milhares de anúncios. O ambiente transforma uma decisão de saúde em compra por impulso, com a mesma fricção de pedir comida no celular.
O risco aumenta porque um comprimido adquirido online pode não conter o que informa a embalagem, ou conter concentração diferente da anunciada. Na China, o governo intensificou o controle sobre a pregabalina no início de 2026, restringindo grande parte das vendas online e limitando a fabricação por província. Índia, Jordânia e Ucrânia também registraram aumento no uso indevido.
Há ainda o debate sobre proibição. Mykyta Lapin, epidemiologista e diretor da organização ucraniana Mind Games, afirma que restrições podem empurrar consumidores para o mercado negro. Knowles acrescenta que, ao contrário de uma bebida regulamentada, a pregabalina ilícita não oferece certeza sobre composição e concentração. A ilegalidade não cria automaticamente uma droga mais forte; cria uma droga mais opaca.
O que realmente está em jogo nessa troca?
O maior perigo não é apenas a toxicidade imediata, mas a dependência psicológica de substâncias para frequentar festas, trabalhar, estudar e manter relações.
Sofia, atendente de serviço ao cliente na Ucrânia, começou tomando pregabalina antes de festas. Depois, passou a usá-la no trabalho, porque acreditava que a substância facilitava a comunicação e a resolução de problemas. Quando ficou duas semanas sem acesso, relatou depressão, ansiedade, perda de apetite, isolamento e pensamentos suicidas.
Knowles observa que usuários jovens nem sempre reconhecem a dependência quando continuam empregados ou mantêm um relacionamento. Para eles, vício seria apenas o cenário de ruína visível, não o hábito funcional que cabe numa rotina organizada. Essa definição conveniente costuma durar até o primeiro dia em que o remédio não aparece.
O álcool tem danos conhecidos e está associado a pelo menos sete tipos de câncer; a Organização Mundial da Saúde afirma que qualquer quantidade envolve risco. Comparar esses danos com os de medicamentos não regulamentados pode ser útil para evitar moralismo, mas não autoriza a conclusão preguiçosa de que “prescrito” significa “inofensivo”.
A pergunta decisiva é outra: por que tantas pessoas sentem que uma noite comum exige sedação, estimulação ou algum coquetel químico? Reduzir o álcool pode ser uma escolha saudável. Substituí-lo por pregabalina, propranolol ou peptídeos obtidos na internet não é sobriedade; é apenas mudar o figurino da dependência.



