Por que a imprensa está ignorando as novas acusações contra Trump e Epstein?

Donald Trump voltou a ser acusado de estupro. Desta vez, as alegações aparecem em um relatório dos democratas do Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, ligado à investigação sobre os vínculos do presidente com Jeffrey Epstein. O documento reúne relatos de 11 mulheres e descreve acusações de abuso sexual, agressão e estupro, inclusive contra menores de idade. Cinco dessas mulheres afirmam que os crimes ocorreram na presença de Epstein ou em locais próximos a ele. É uma notícia de interesse público. O silêncio, portanto, também é uma escolha editorial.

O relatório afirma que duas mulheres acusam Trump de estupro e que outras três relatam agressões sexuais. Uma delas teria apenas 13 anos na época. As acusações não equivalem, por si só, a uma condenação judicial, e os relatos precisam ser tratados como alegações documentadas no curso de uma investigação. Mas essa distinção não transforma o assunto em nota de rodapé. Um presidente acusado de violentar mulheres — repetidamente, segundo o documento — produz uma notícia relevante mesmo quando parte do público já ouviu acusações semelhantes.

O problema é que muitos veículos parecem considerar o tema velho demais para merecer cobertura. A justificativa provável é que acusações anteriores não alteraram a opinião pública. Trump já foi acusado de conduta sexual imprópria por diversas mulheres e enfrentou processos relacionados a uma delas. Para alguns editores, o eleitorado já teria incorporado tudo isso à imagem do presidente: quem acredita continuará acreditando; quem não acredita não mudará de posição. A conta é cômoda. E profundamente pobre.

O que o relatório do Comitê Judiciário acusa Trump de ter feito?

O relatório reúne cinco relatos específicos de agressão sexual envolvendo Trump e Epstein, entre outras declarações apresentadas por 11 mulheres. A primeira frase do documento, segundo a descrição divulgada, é politicamente explosiva: o presidente teria abusado, agredido e estuprado mulheres ao lado ou em coordenação com Epstein, conhecido por operar uma rede de tráfico sexual. O relatório é uma peça de investigação partidária, não uma sentença. Ainda assim, seu conteúdo deveria ser examinado por jornalistas, autoridades e leitores.

Beatrice Keul, ex-Miss Suíça, acusa Trump de estuprá-la no Plaza Hotel, em novembro de 1993. Ela descreve o episódio como brutal. Stacey Williams afirma que Trump a apalpou na Trump Tower enquanto Epstein estava ao lado. Jill Harth diz que Trump a beijou à força em Mar-a-Lago e que seu ex-marido pode corroborar parte do relato. Ela também acusa Trump de ter agredido outra mulher, Lauren Petrella.

Os relatos mais graves envolvem duas mulheres identificadas por pseudônimos. “Katie Johnson”, nome usado para preservar sua identidade, afirma que Trump e Epstein a estupraram repetidamente na residência de Epstein, em Nova York, em 1994, quando ela tinha 13 anos. Outra mulher, chamada no relatório de Jane Doe, diz ter sido abusada sexualmente na década de 1980, também aos 13 anos. Ela afirma ter levado o caso ao FBI. São acusações de uma gravidade que não desaparece porque o ciclo eleitoral já passou.

Por que a falta de cobertura é um problema jornalístico?

A falta de cobertura é um problema porque jornalistas não devem medir a importância de uma acusação apenas pela chance de ela mudar votos. A função da imprensa é informar sobre fatos de interesse público, sobretudo quando envolvem o chefe de Estado e possíveis crimes sexuais. Se a notícia não “mover a agulha”, como dizem os consultores políticos, isso pode ser uma observação sobre o público. Não é uma autorização para ignorá-la.

Há uma diferença entre não transformar cada acusação em veredito e fingir que nenhuma acusação nova merece apuração. A primeira postura é jornalismo. A segunda parece cálculo de audiência, fadiga ou medo de enfrentar um eleitorado polarizado. Também há um problema de escala: comentários de Barack Obama sobre a decoração da Casa Branca e uma rede de restaurantes receberam atenção desproporcional enquanto um relatório sobre possíveis crimes sexuais cometidos por um presidente ficou à margem. O contraste é obsceno.

Uma redação séria poderia explicar o que o documento contém, quem prestou depoimento, quais evidências foram apresentadas, quais pontos foram contestados e que providências legais existem. Poderia também informar o que ainda não foi verificado. Nada disso exige transformar alegações em fatos consumados. Exige apenas reconhecer que uma acusação contra o presidente não deixa de ser relevante porque o público já está cansado de ouvi-la.

O que as eleições e a desinformação têm a ver com isso?

A desinformação eleitoral pode preparar eleitores para rejeitar o resultado antes mesmo da votação acontecer. Uma análise atribuída ao The Washington Post identificou quase 600 contas, podcasts e veículos digitais de direita que publicaram mais de 7 mil declarações questionando a integridade das eleições naquele ano. O levantamento também apontou que alegações sobre imigrantes em listas eleitorais e fraude em votos pelo correio apareceram com o dobro da frequência registrada no ciclo de 2024.

O mecanismo é simples, embora suas consequências não sejam. Primeiro, repete-se que a eleição está contaminada. Depois, uma derrota passa a parecer impossível sem fraude. Por fim, qualquer tentativa de contestação — inclusive atos violentos — pode ser apresentada como defesa da democracia. Perder já é difícil. Perder depois de dizer durante meses que só se perde por trapaça é brincar com gasolina perto da cortina.

Donald Trump e seus aliados têm interesse político em manter essa desconfiança. Se o eleitorado aceitar uma derrota limpa, há pouco espaço para uma tentativa de permanecer no poder contra a vontade popular. Se a base acreditar que votos foram roubados, medidas autoritárias podem parecer justificáveis. O candidato pode vender esperança até o último minuto. A imprensa, porém, deveria preparar o público para a realidade — inclusive para a possibilidade de perder.

Isso não significa aceitar toda teoria conspiratória contra os republicanos. Significa exigir o mesmo padrão para todos. Caso uma eleição produza vitórias apertadas, especialmente em distritos de maioria negra ou latina, será necessário investigar desaparecimento de votos, falhas administrativas e irregularidades documentadas. Mas investigação não é licença para inventar fraude. A confiança pública não volta com uma narrativa conveniente; volta com evidências, transparência e decisões que resistam ao exame.

O que outros episódios mostram sobre a cobertura política?

Um caso no Alasca ilustra como uma disputa antiga pode ser ressuscitada para criar confusão. O Departamento de Justiça teria processado o estado para adiar a certificação de uma eleição para o Senado porque dois candidatos tinham o mesmo nome. A questão já havia sido discutida no Alasca, em junho, e chegado à Suprema Corte estadual. Mesmo assim, a história foi reapresentada como se revelasse uma operação democrata para confundir eleitores republicanos.

O detalhe decisivo ficou escondido: os republicanos já haviam contestado a candidatura do homônimo e perdido. Recuperar o caso meses depois, no calor da eleição, parece menos uma busca por solução jurídica e mais uma maneira de semear dúvida. A imprensa deveria começar pelo fato mais importante, não pelo enredo que rende a manchete mais inflamável. Às vezes, o truque não está no que a notícia diz, mas naquilo que ela convenientemente esquece.

O mesmo desarranjo apareceu na discussão sobre uma frase de Obama. Ele disse que a Casa Branca parecia ter sido decorada como se Saddam Hussein tivesse aberto uma Cheesecake Factory. A piada era sobre a aparência do prédio, não sobre pessoas que comem cheesecake. Ainda assim, o editorial do Wall Street Journal tratou o comentário como uma ofensa socialista à chamada América profunda.

A Cheesecake Factory foi fundada em Beverly Hills, Califórnia, e se tornou uma cadeia presente em várias partes dos Estados Unidos. É um restaurante caro de shopping, não exatamente o retrato de uma lanchonete de Indiana. Em muitos lugares, a comida de rede mais próxima seria Steak ’N Shake, Applebee’s ou Cracker Barrel. Transformar a cadeia em símbolo do trabalhador médio exige uma certa distância da realidade — e talvez uma conta de despesas generosa.

O que mais aparece no panorama político e cultural?

Entre as notícias mencionadas estão a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro em uma eleição brasileira, denúncias de bloqueios de transporte supostamente organizados por apoiadores de Jair Bolsonaro e a fuga do ex-presidente para Miami. Também aparece uma lei aprovada pelo Senado francês que pode responsabilizar manifestantes por danos avaliados em até 10 mil euros por pessoa. São episódios distintos, mas todos carregam a mesma pergunta: quem controla a narrativa quando instituições e imprensa abandonam o contexto?

A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos também processou a Dollar General por cobrar repetidamente preços mais altos do que os anunciados. Neil Young, por sua vez, processa Trump em 10 milhões de dólares pelo uso continuado de “Rockin’ in the Free World”, apesar de um acordo anterior que previa o fim da utilização da música em comícios. Até Apollo, se Trump tentasse tocar lira em um palanque, talvez aparecesse com uma ação por violação de direitos autorais.

Há ainda um estudo sobre encefalopatia traumática crônica, ou CTE, em ex-jogadores da NFL. A pesquisa indica que 75% dos atletas da liga que morreram entre 2008 e 2023 provavelmente apresentavam sinais da doença, contra cerca de 1% da população geral. O futebol americano combina espetáculo, dinheiro e impactos repetidos na cabeça. Eu gosto de futebol, o que torna a conclusão desagradável. Mas gostar de gladiadores não teria tornado o Coliseu uma instituição aceitável.

O que está em jogo para a imprensa?

Está em jogo a capacidade de distinguir relevância pública de barulho político. Uma acusação contra o presidente não precisa alterar uma eleição para merecer investigação. Um relatório partidário não deve ser tratado como prova definitiva, mas também não pode ser descartado por conveniência. A imprensa precisa publicar o que sabe, marcar o que não sabe e voltar ao caso quando surgirem novos documentos ou testemunhos.

O público já desconfia das instituições. De um lado, há uma máquina dedicada a desacreditar eleições antes que aconteçam. De outro, há veículos que parecem preferir uma controvérsia gastronômica a uma acusação de estupro. A combinação é perigosa: a mentira ocupa o espaço deixado pela apuração. Não sei se a cobertura adequada mudaria a opinião de alguém. Sei que a ausência dela impede qualquer julgamento informado.

Um presidente pode sobreviver politicamente a acusações que seriam devastadoras para qualquer cidadão comum. Isso não torna as acusações menos graves; torna mais importante perguntar por que a régua pública se move conforme o cargo, o partido ou a audiência. O relatório sobre Trump e Epstein exige apuração, contestação, memória documental e atenção. Não um silêncio calculado.

Quando o assunto é a decoração de uma casa, a imprensa pode discutir gosto. Quando o assunto é violência sexual atribuída ao homem que ocupa a Casa Branca, a prioridade deveria ser outra. A diferença entre as duas histórias não está no volume do debate, mas no peso do que está sendo debatido. E esse peso continua ali, mesmo quando as manchetes olham para outro lado.

Via

spot_img