A confirmação de um novo El Niño, com projeções de atividade até o início de 2027 e chance real de atingir forte intensidade, reacendeu um alerta que o Brasil conhece bem — mas que insiste em tratar como surpresa. Os modelos climáticos são inequívocos: temperaturas acima da média, redistribuição de chuvas, estiagem prolongada no Norte e Centro-Oeste. O resto é silêncio burocrático. Em 2024, o país queimou como há muito não se via, com cenas de fumaça densa cobrindo cidades e a sensação de que o poder público corria atrás do fogo com balde. A pergunta que fica, agora que o fenômeno se anuncia de novo, é se os aprendizados daquela temporada serviram para alguma coisa além de relatórios.
O que o El Niño entrega de bandeja para o fogo
El Niño não é um evento binário — ligado, desligado. É um reordenamento da circulação atmosférica que mexe com a distribuição de calor e umidade no planeta inteiro. No Brasil, o efeito mais imediato é a seca que se instala no arco do desmatamento, esticando a temporada de queimadas e tornando a vegetação um barril de pólvora. Em 2024, isso se combinou com um estoque de biomassa acumulada por anos de degradação florestal, e o resultado foi uma temporada de incêndios que bateu recordes de focos e de área queimada. A diferença, agora, é que os meteorologistas estão nos dando um aviso prévio com meses de antecedência — algo que a tecnologia de modelagem climática já permite, mas que a cadeia de decisão política ainda não sabe consumir.

Lições de 2024 que não podem virar decoração
Quem acompanhou a resposta à crise do ano passado viu um padrão conhecido: mobilização tardia, brigadistas sobrecarregados, equipamento alugado às pressas, e uma comunicação oficial que oscilava entre o triunfalismo e a terceirização da culpa para o clima. Mas também viu coisas novas. O uso de satélites para detecção precoce de focos de calor, por exemplo, deu um salto de qualidade — não na tecnologia em si, que existe há décadas, mas na integração com equipes em campo. Em alguns estados, o tempo entre o alerta e a primeira resposta caiu de dias para horas. Isso é concreto. O problema é que esses ganhos são frágeis: dependem de contratos temporários, de verba que some na virada do ano fiscal, de coordenação entre esferas de governo que se desfaz quando a fumaça dissipa. A memória institucional, nesse caso, tem a duração de um ciclo orçamentário.
O que mais assusta, porém, não é a repetição do despreparo operacional. É a insistência em tratar queimada como acidente, e não como sintoma. Fogo no Brasil é, em sua esmagadora maioria, ação humana — seja para renovar pasto, seja para grilar terra, seja por negligência. Enquanto o debate público fingir que se trata de um fenômeno natural amplificado pelo clima, as campanhas de prevenção continuarão sendo peças publicitárias com trilha sonora emotiva e eficácia zero. O El Niño não risca o fósforo. Ele só garante que o estrago seja maior.
Sistemas complexos não perdoam amadorismo
Há uma lição que a engenharia de software ensina e que se aplica com precisão cirúrgica à gestão de desastres: sistemas complexos falham de maneiras complexas. Não adianta ter o melhor satélite, o melhor modelo climático, o melhor plano de contingência no papel, se a integração entre esses componentes é frouxa. O que se viu em 2024 foi exatamente isso — dados de altíssima qualidade esbarrando em processos do século XIX. A informação chegava, mas a decisão não saía. Ou saía atrasada. Ou saía e ninguém executava. O El Niño de 2027 vai testar se o Brasil conseguiu transformar seus sistemas de alerta em sistemas de resposta. A diferença entre um e outro é a mesma que existe entre um termômetro e um médico.
Enquanto isso, a sociedade civil — de brigadistas voluntários a comunidades indígenas — continua fazendo o trabalho pesado com recursos mínimos, muitas vezes substituindo o Estado onde ele deveria estar presente. Essa resiliência é admirável, mas não é solução. É um curativo numa hemorragia. Se o aprendizado de 2024 se resumir a comprar mais alguns caminhões-pipa e renovar o contrato de monitoramento por satélite, estaremos apenas repetindo o ciclo com a esperança de que, desta vez, o fogo seja mais educado. E ele não será.

