O Brasil não tem bomba atômica porque nunca enfrentou uma ameaça externa que justificasse um arsenal, escolheu limitar seu programa nuclear a fins pacíficos e, após a redemocratização, consolidou acordos de não proliferação com a Argentina e a comunidade internacional. A história, porém, não é de ausência de ambição: durante a ditadura militar, projetos secretos buscaram ampliar a autonomia nuclear brasileira.
O Brasil poderia construir uma bomba atômica?
O Brasil poderia reunir parte da infraestrutura científica necessária, mas os dados públicos não permitem afirmar que o país esteja pronto para construir uma bomba atômica. O historiador Carlo Patti, da Universidade de Pádua, diz que não há informação suficiente nos documentos disponíveis para medir essa capacidade. O país domina técnicas relevantes do ciclo nuclear, possui jazidas de urânio e produz combustível nuclear, mas isso não equivale automaticamente a possuir uma arma. Entre uma usina, um submarino de propulsão nuclear e um artefato militar existe uma cadeia extensa de materiais, engenharia, testes, sistemas de lançamento e decisões políticas. A bomba não aparece magicamente ao fim de um corredor de laboratório, como se fosse o último item de um catálogo de eletrônicos.
Por que a ameaça externa nunca convenceu o Brasil?
A ausência de uma ameaça militar concreta reduziu o incentivo estratégico brasileiro para manter um arsenal nuclear. Carlo Patti resume a lógica dizendo que o Brasil nunca precisou dessas armas para sua defesa estratégica, pois não enfrentou uma situação comparável à rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética durante a crise dos mísseis em Cuba. Também não houve uma ameaça séria de guerra com a Argentina. A dissuasão nuclear funciona dentro de um cenário específico: um Estado acredita que precisa impedir um adversário claramente identificado de atacar ou impor custos intoleráveis. Sem esse adversário, a bomba deixa de ser escudo e passa a ser sobretudo um projeto caríssimo, diplomático e militar, capaz de transformar prestígio em isolamento.
O que Renan Santos propõe?
Renan Santos defende que o Brasil inicie pesquisas e investimentos para recuperar soberania militar e, no futuro, discutir o desenvolvimento de armas nucleares. Em entrevista à TV Globo em 26 de agosto de 2026, o candidato do Missão afirmou que o país precisaria dessa capacidade para ser respeitado entre as maiores potências. Ao mesmo tempo, reconheceu que o Brasil não teria condições de desenvolver uma arma nos dez anos seguintes. A proposta, portanto, não descreve uma bomba pronta nem um cronograma imediato; fala em iniciar um processo de pesquisa e autonomia. A distinção importa. “Soberania” é uma palavra elástica: cabe nela um submarino, combustível nuclear, pesquisa científica e também uma arma. O debate costuma aproveitar essa elasticidade.
Quando começou o programa nuclear brasileiro?
O programa nuclear brasileiro começou a ganhar forma nos anos 1950, quando físicos e militares discutiam no governo como o país deveria tratar uma tecnologia ainda nova. A historiadora Ana Maria Ribeiro de Andrade pesquisou atas de reuniões do Conselho Nacional de Pesquisas, o atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, nas quais apareciam carimbos de “secreto” e advertências sobre o sigilo. A energia nuclear era apresentada oficialmente como instrumento de desenvolvimento, mas “segurança nacional” funcionava como um eufemismo conveniente para manter abertas outras possibilidades. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos pressionavam o Brasil a não entrar no grupo de fabricantes de armamentos nucleares. Ciência, soberania e segredo começaram ali a dividir a mesma sala.
O acordo nuclear com a Alemanha entregou autonomia ao Brasil?
O acordo nuclear com a Alemanha, assinado nos anos 1970, ampliou o conhecimento brasileiro, mas não entregou domínio completo do ciclo do combustível. O pacto previa a transferência de nove centrais atômicas e de tecnologias ligadas à produção de combustível nuclear, num projeto que custou bilhões de dólares e foi tratado como o “acordo do século”. A parceria ajudou a formar capacidade científica e deu origem ao projeto das usinas de Angra dos Reis. Porém, segundo Patti, havia salvaguardas internacionais e fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica. As instalações eram acessíveis a inspetores, e o desenvolvimento estava limitado a fins pacíficos. A expectativa militar de absorver integralmente a tecnologia alemã não se confirmou. O contrato trouxe conhecimento, mas também trazia coleira.
O que foram os projetos secretos da ditadura?
Os projetos secretos da ditadura militar buscavam desenvolver diferentes partes da infraestrutura nuclear fora da fiscalização internacional. Depois de perceber que o acordo com a Alemanha não permitiria avançar como desejavam, as três Forças Armadas criaram iniciativas paralelas em cooperação com centros civis de pesquisa. Em 1979, cientistas militares passaram a trabalhar com o Instituto de Engenharia Nuclear do Rio de Janeiro e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, ligado à Universidade de São Paulo. O Exército tentou construir um reator para produzir plutônio; a Aeronáutica pesquisou o enriquecimento de urânio por laser; e a Marinha perseguiu a propulsão nuclear para submarinos. Eram projetos distintos, mas compartilhavam a mesma ambição: reduzir a dependência tecnológica do exterior.
O Brasil tentou construir uma bomba durante a ditadura?
Há evidências de que setores militares estudaram dispositivos nucleares, mas o grau de compromisso com uma bomba de guerra continua controverso. A Aeronáutica manteve um projeto de artefatos “pacíficos”, que poderiam abrir poços de petróleo ou desviar rios, usos também pesquisados por Estados Unidos e União Soviética. O problema é que a tecnologia para uma explosão nuclear civil e militar é essencialmente a mesma. Túneis construídos na Serra do Cachimbo, no sul do Pará, alimentaram suspeitas sobre possíveis testes, embora historiadores questionem se tinham profundidade suficiente para um artefato bélico. A existência dos poços foi revelada pela Folha de S.Paulo em 1986. Em 1990, Fernando Collor visitou o local e determinou que fossem enterrados, numa imagem política difícil de esquecer: uma pá de cal sobre a ambiguidade nuclear.
Por que Figueiredo descartou a ideia?
João Figueiredo teria rejeitado uma proposta de testar um artefato nuclear porque ela traria sanções, isolamento internacional e uma ruptura com a Argentina. Carlo Patti relata que, em uma reunião fechada de 1984, o ministro da Aeronáutica Délio Jardim de Mattos teria sugerido ao presidente o desenvolvimento e o teste de um dispositivo. A ideia foi descartada imediatamente e considerada uma “maluquice”. Um documento do Itamaraty citado pelo historiador apontava que uma explosão nuclear provocaria um regime severo de sanções e destruiria a relação brasileira com os argentinos. O cálculo era menos cinematográfico que a imagem de uma potência entrando no clube atômico: uma detonação não produziria respeito automático, mas uma conta diplomática vencendo no mesmo dia.
O que o Brasil ganhou sem fabricar a bomba?
O Brasil ganhou capacidade tecnológica relevante, sobretudo ao dominar o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação, sem se tornar uma potência nuclear militar. O projeto conduzido pela Marinha e pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares avançou rapidamente: segundo Ana Maria Ribeiro de Andrade e Carlo Patti, em menos de oito anos o país dominou a tecnologia e anunciou essa capacidade em 1987. O programa tinha como objetivo inicial viabilizar submarinos de propulsão nuclear, mas produziu conhecimento aplicável à fabricação de combustível. O feito incomodou os Estados Unidos, segundo Andrade, justamente porque o Brasil avançara fora do Tratado de Não Proliferação. A mesma infraestrutura que alimenta um programa energético pode despertar suspeita militar. Tecnologia nuclear nunca vem sozinha; traz uma sombra proporcional ao seu potencial.
Por que o Brasil assinou o Tratado de Não Proliferação?
O Brasil assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1998 por razões políticas, diplomáticas e estratégicas que já vinham amadurecendo desde a redemocratização. Patti aponta quatro fatores: o pacto nacional em favor do uso pacífico da energia nuclear; a aproximação com a Argentina, baseada em fiscalização mútua; o abandono internacional dos chamados artefatos nucleares pacíficos; e a adesão quase universal ao tratado nos anos 1990. O custo da renúncia também havia diminuído, pois o país já acumulara conhecimento suficiente para preservar uma base tecnológica civil. A cooperação com a Argentina foi decisiva: para inspecionar os programas dos dois lados, ambos precisaram abandonar a intenção de desenvolver armas. A rivalidade histórica virou mecanismo de confiança.
O que a sociedade brasileira pensa sobre a bomba?
A maioria dos brasileiros não apoia uma bomba nacional em condições normais, embora o apoio aumente diante de uma ameaça estrangeira. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas realizada em 2022 com 2 mil entrevistados apontou que 25% defendiam uma arma nuclear brasileira. Quando a pergunta incluía uma ameaça externa, o índice subia para 47%. O resultado revela uma preferência condicional, não uma paixão popular pelo botão vermelho. Enéas Carneiro foi um dos raros políticos a defender abertamente a bomba, especialmente em sua propaganda eleitoral de 1994. Pablo Marçal também sustentou a ideia em entrevistas, enquanto Renan Santos a incorporou explicitamente à campanha de 2026. Lula defende mais recursos militares e a conclusão do submarino nuclear, mas também descreve a América do Sul como uma região de paz, sem bombas atômicas.
O contexto atual muda esse cálculo?
O contexto internacional tornou o debate nuclear mais visível, mas não eliminou os custos de uma decisão brasileira pela bomba. Em janeiro de 2025, o Boletim de Cientistas Atômicos ajustou o Relógio do Juízo Final para 89 segundos antes da meia-noite, incluindo ameaças nucleares, biológicas, climáticas e associadas à inteligência artificial. Em 2024, a China interrompeu um diálogo com os Estados Unidos sobre proliferação, enquanto a Rússia atualizou seu protocolo de uso nuclear. Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram uma guerra contra o Irã com objetivos declarados ligados ao programa nuclear iraniano; depois disso, países como Arábia Saudita, Turquia, Japão e Coreia do Sul voltaram a discutir capacidades próprias. O mundo está mais nervoso, não necessariamente mais favorável à solução brasileira.
A bomba tornaria o Brasil mais soberano?
A bomba não tornaria o Brasil automaticamente mais soberano, porque soberania militar depende de capacidade industrial, estratégia, diplomacia e controle político, não apenas de um artefato. O país já possui uma base nuclear civil, reservas de urânio e domínio de tecnologias de combustível, além de um projeto de submarino nuclear mantido há 47 anos. Transformar isso em arsenal exigiria abandonar compromissos internacionais, enfrentar sanções e reconstruir uma cadeia militar que nunca foi concluída. Também alteraria a relação com a Argentina, justamente o vizinho com quem o Brasil criou mecanismos de confiança e fiscalização. A pergunta correta não é se uma bomba produz prestígio, mas qual problema concreto ela resolveria. Até aqui, a resposta histórica brasileira foi que nenhum problema urgente exigia esse remédio.





