Até agora, não há evidência conclusiva de que um deepfake tenha decidido uma eleição, mas há sinais claros de que a tecnologia amplia confusão, desconfiança e tensão política. Os seis casos analisados em Irlanda, Equador, Alemanha, Eslováquia, Romênia e Paquistão mostram uma ameaça menos cinematográfica e mais persistente: não trocar votos diretamente, e sim contaminar o ambiente em que as pessoas escolhem em quem acreditar. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral ainda discutia punições para o uso de IA em campanhas, depois de um vídeo produzido artificialmente com Jair Bolsonaro aparecer na convenção que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Deepfakes já mudaram o resultado de alguma eleição?
Não há prova conclusiva de que deepfakes tenham alterado profundamente o resultado de uma eleição, segundo Sam Stockwell, pesquisador do CETaS.
O ponto parece modesto, quase burocrático, mas é precisamente aí que mora a armadilha. Uma eleição é um sistema com muitas variáveis: economia, alianças, rejeição, campanha, escândalos, guerra, confiança nas instituições e o humor particular de uma semana. Isolar um áudio ou vídeo e transformá-lo em causa decisiva exige uma evidência que os casos conhecidos ainda não oferecem. Isso não absolve a tecnologia. O dano pode acontecer antes da contagem, quando um eleitor deixa de confiar em qualquer imagem, emissora, candidato ou verificador. A dúvida universal é uma ferramenta política bastante eficiente, mesmo quando ninguém consegue apontar seu vencedor.
Como uma falsa desistência atingiu a eleição da Irlanda?
Na Irlanda, um vídeo falso anunciou a desistência de Catherine Connolly três dias antes da eleição presidencial de outubro de 2025.
A montagem imitava uma transmissão da RTÉ News, a principal fonte de notícias do país, e mostrava uma versão artificial da candidata comunicando sua saída enquanto apoiadores reagiam com vaias e lamentos. A campanha de Connolly alertou as plataformas e classificou o conteúdo como uma tentativa de enganar eleitores. Alan Smeaton, professor emérito da Dublin City University, apontou pistas pequenas: sobreposição de palavras na fala da candidata e dos jornalistas, além de falhas no fundo da imagem. Pequenas, sim; inúteis, não. Connolly venceu com 63% dos votos, mas o caso mostrou como a credibilidade de uma instituição nacional pode ser sequestrada para vestir uma falsificação com roupa de notícia.
O que os vídeos falsos fizeram no Equador?
No Equador, deepfakes imitaram emissoras conhecidas para associar candidatos a escândalos, fraude eleitoral e propostas que eles não haviam defendido.
Os vídeos circularam antes da eleição presidencial de fevereiro de 2025 usando logotipos falsos de CNN, France 24 e Deutsche Welle. Um apresentador inventado acusava Daniel Noboa de corrupção e dizia que ele teria pago US$ 1 milhão para comparecer à posse de Donald Trump. Outra montagem mostrava Luisa González anunciando um aumento drástico de impostos; uma terceira a fazia elogiar Nicolás Maduro. Sites de verificação e campanhas desmentiram os conteúdos, mas um estudo da Universidade Laica Eloy Alfaro de Manabí registrou ampla disseminação e impacto na percepção dos candidatos, sobretudo onde a alfabetização midiática era menor. Noboa foi reeleito em 13 de abril, com cerca de 56% dos votos. Desmentir não apaga automaticamente o primeiro contato.
Por que os deepfakes alemães espalharam pânico?
Na Alemanha, vídeos com narração sintética fabricaram ameaças terroristas para assustar eleitores e possivelmente reduzir a presença nas urnas.
Durante a campanha parlamentar de fevereiro de 2025, circularam alegações sobre bombas, cédulas envenenadas e ataques iminentes a centros de votação. Um vídeo real do MI6 foi editado para parecer um alerta contra viagens à Alemanha; outro, produzido originalmente pela Polícia de West Midlands, recebeu uma narração que anunciava grandes ataques terroristas. Uma postagem acumulou mais de 60 mil visualizações e afirmava falsamente que 68% dos alemães tinham medo de sair de casa no dia da eleição. Segundo Stockwell, a distribuição mirava regiões mais suscetíveis a narrativas sobre guerra e ataques russos. Depois, instituições europeias rastrearam os vídeos até uma rede de desinformação russa. A falsificação não precisava convencer todo mundo; bastava alcançar o público certo.
O áudio da Eslováquia decidiu a disputa?
O áudio falso contra Michal Šimečka agravou uma disputa apertada, mas não permite afirmar que decidiu a eleição parlamentar eslovaca de 2023.
Compartilhada dois dias antes da votação, a gravação imitava a voz de Šimečka discutindo fraude eleitoral com uma jornalista conhecida. O material, de baixa qualidade, vinha acompanhado por uma fotografia e legendas que descreviam um plano para manipular o pleito e esconder os rastros. Como a circulação ocorreu durante o período de silêncio eleitoral, a imprensa e os verificadores enfrentaram limitações para responder rapidamente. As pesquisas indicavam Šimečka ligeiramente à frente de Robert Fico, dentro da margem de erro, mas o partido liberal terminou em segundo. Uma análise de Lluis de Nadal, da Universidade de Glasgow, e Peter Jančárik considerou fatores adicionais: apoio de Fico à Rússia na guerra contra a Ucrânia, redes pró-Kremlin ativas desde pelo menos 2010, instabilidade política e baixa confiança institucional. O deepfake foi parte do clima, não uma prova de causalidade.
Como deepfakes viraram golpe financeiro na Romênia?
Na Romênia, vídeos falsos usaram candidatos presidenciais para emprestar autoridade a promessas de investimento e conduzir vítimas a sites fraudulentos.
Durante a eleição presidencial de 2025, montagens publicadas no Facebook mostravam George Simion e Nicușor Dan promovendo uma suposta oportunidade de renda. O anúncio prometia independência financeira com investimento de 1.400 lei, cerca de R$ 1.500, e retorno mensal de 9.000 lei, aproximadamente R$ 10 mil. O link levava a páginas que imitavam notícias oficiais e sites governamentais. Aqui, a eleição serviu como cenário e o rosto do político funcionou como selo de autenticidade. O mecanismo é antigo: promessa de dinheiro fácil, urgência e uma autoridade emprestada. A IA apenas reduziu o custo de fabricar o porta-voz. Nicușor Dan venceu a disputa, mas também foi usado na fraude. O golpe não precisava persuadir sobre política; precisava apenas conseguir um clique.
O que o caso do Paquistão revela sobre campanha com IA?
No Paquistão, Imran Khan usou vídeos e áudios gerados por IA para falar com apoiadores enquanto estava preso durante a eleição de 2024.
O material divulgado pelo partido apresentava Khan declarando vitória para os candidatos independentes que apoiava e criticando Nawaz Sharif, que também havia reivindicado o triunfo. O Movimento Paquistanês pela Justiça estava impedido de concorrer oficialmente com seu símbolo tradicional, e muitos candidatos disputaram como independentes, embora fossem reconhecidos como aliados do ex-primeiro-ministro. Depois da votação, uma coalizão liderada pela Liga Muçulmana do Paquistão – Nawaz formou o governo, enquanto a divulgação dos resultados finais demorou mais de 60 horas. O PTI alegou fraude, e apoiadores de Khan protestaram. Para Stockwell, o vídeo contribuiu para a instabilidade e para a violência política. Nesse caso, a IA não foi apenas uma arma de adversários: tornou-se uma ponte operacional entre um líder encarcerado e sua base.
Qual é o risco eleitoral mais difícil de combater?
O risco mais difícil é a erosão contínua da confiança, porque conteúdos falsos não precisam dominar a votação para tornar toda informação suspeita.
Uma mentira eleitoral costuma ser tratada como um objeto: localizar, verificar, remover, arquivar. O problema contemporâneo se comporta mais como fumaça. Um vídeo falso pode ser desmentido, mas a lembrança da acusação permanece; outro conteúdo pode surgir com o logotipo de uma emissora, a voz de um candidato ou a aparência de um comunicado oficial. Instituições também ficam presas numa escolha ruim. Se o MI6 ou uma polícia desmente a montagem, pode dar mais visibilidade ao material; se permanece em silêncio, deixa o campo livre para a narrativa. A tecnologia industrializa esse dilema. A fabricação fica barata, a circulação é instantânea e a resposta institucional continua obrigada a explicar o mundo com documentos, prazos e alguma solenidade.
Os seis episódios também desmontam uma fantasia confortável: a de que o problema se resolve identificando defeitos técnicos. Na Irlanda, havia sobreposições e falhas visuais; na Alemanha, imagens reais receberam voz falsa; na Eslováquia, um áudio de qualidade ruim circulou num momento em que a resposta era limitada. Mas o público não avalia um arquivo em laboratório. Ele recebe a peça dentro de uma rede de confiança, junto de comentários, indignação, medo e repetição. A pergunta relevante deixa de ser apenas “isso é falso?” e passa a incluir “quem ganhou com a dúvida?”, “por que apareceu agora?” e “qual instituição está sendo imitada?”. É uma investigação menos glamorosa que caçar pixels, porém muito mais próxima do funcionamento real da propaganda.
No Brasil, o debate sobre punição e uso de IA em campanhas chega com esse repertório já disponível. A discussão do TSE sobre o vídeo artificial exibido na convenção do PL não é um detalhe administrativo isolado: ela testa o que será considerado manipulação eleitoral, publicidade legítima ou falsificação capaz de enganar. Os casos estrangeiros não autorizam copiar regras sem adaptação, mas oferecem padrões concretos. Há a falsa desistência no último minuto, o escândalo inventado com logotipo de emissora, o pânico dirigido a regiões específicas, o áudio em período de silêncio, o golpe financeiro e a declaração de vitória feita por um líder impossibilitado de aparecer. Cada formato exige resposta própria; todos exploram a mesma matéria-prima: confiança.
Por isso, a conclusão mais honesta é menos espetacular do que “um deepfake decidiu a eleição”. Até agora, não sabemos demonstrar esse efeito direto. Sabemos, porém, que conteúdos sintéticos podem alterar percepções, dificultar a verificação, estimular protestos, emprestar autoridade a golpes e corroer a reputação de instituições reais. Em política, esse desgaste acumulado não precisa produzir um vencedor único para produzir estrago. Basta tornar o eleitor mais inseguro, a imprensa mais lenta, o desmentido mais caro e a acusação mais fácil. A máquina não precisa escrever a história inteira. Às vezes, basta borrar a página no dia da prova.



